* Como o ano começou, vou deixar 2007 para trás. A minha retrospectiva é para 2008. Obrigado. *
“Vamos pedir piedade, senhor piedade. Para as pessoas caretas e covardes”. É incrível como pessoas, para quem está redirecionada, cantam esses versos do Cazuza. Deveriam se olhar no espelho e cantarem para si mesmo. É típico de quem nasceu no país das mentiras como o nosso. Essas pessoas que só se atrevem a olhar para o Arnaldo Jabor e dizer que “apenas não gosta dele”. Que não sabe nem o porque. Metidos à inteligente, compram livros e os põe abaixo do sovaco e mostram às pessoas que são intelectuais e são cultas. No fundo, apenas lêem livros do tal do Dan Brown e acredita que Jesus Cristo teve infinitos orgasmos quando comeu a Maria Madalena e que existe um grande complô para que a terra seja destruída pelo aquecimento global. Ou que o Leonardo Di Caprio é apenas um mauricinho e que está na moda em falar sobre o assunto. Que me desculpem, mas tomo as palavras da Leka: “que venha o aquecimento global e eliminam essas pessoas inúteis”.
Posso parecer um pouco Doutor House nesse momento. Mas a verdade é essa. Não tenho medo desse tal aquecimento global. Muito menos dessas pessoas que andam aprontando para cima de você. O problema desses seres humanos é a incompetência e fracasso de ser humano. É uma pena para eles mesmos.
Abraço.
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
Dois Mil e Sete coisas para se fazer em 2007
Postado por Fabrício Alves às 13:57 4 comentários
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
Estou nas minhas próprias linhas
Todas as vezes em que as pessoas lêem um roteiro meu, sempre me perguntam se eu sou o protagonista. Dizem que eu sou o personagem em todos os aspectos. Ora, se sou eu quem disponho todo o turbilhão de sentimentos naquilo, é fato eu ser o protagonista. Não há como conhecer os meus personagens sem estar dentro deles. Sou o tipo em que entro no personagem durante dias. Ajo da mesma forma, bebo café da mesma maneira, ando na mesma linearidade, e, dependendo do caso, sem querer mudo a mesma forma de falar. E quando acabo de escrever um vão de mal humor atinge meu coração e posso ficar dias assim. Mas, pra dizer a verdade, creio que eu seja todos eles. Até o vilão da história. Escrever é isso: um investimento de sentimento enorme. Desgasta mentalmente e fisicamente.
Geralmente os personagens que são meu espelho são os mais não-convencionais. Paranóicos, autodestruitivos, contentes com a vida, buscando paz e brigões. Odeiam dias chuvosos e ficam apreensivos quando chega o entardecer, como em uma mudança da lua. São cheios de manias, bebem e fumam o tempo todo, experimentam drogas e são bem resolvidos nesse ponto. Isso tudo pode ser demais de mim. Não sou tão autodestruitivo como me descrevo. Quando falo para alguém que estou escrevendo um personagem sobre tal pessoa, elas acham que vou descrevê-las Tim Tim por Tim Tim. Não. Eu procuro penetrar na alma da pessoa e ficar se perguntando o que, de acordo com sua personalidade, faria naquela situação. Não sou Deus pra dizer o que faria nessas situações, mas sim o que eu faria se tivesse em suas personalidades.
Gosto de brincar de bandido e polícia com meus inimigos pessoais. Geralmente sou o bandido. O meu bandido é apenas paranóico e procura o melhor para sua vida. Enquanto a polícia é certinha e falsa moralista. É assim que eu vejo meus inimigos. Oradores de igrejas, homens de família e casadinhos. Enquanto sou o cara que xingo Deus por tratá-lo como amigo repugnante e um solteiro que gosta de ter várias mulheres. É assim que somos. Uma vez disse aqui que sou o Leonardo Di Caprio de Os Infiltrados e não o de Titanic. Sou mais sincero e vulnerável que as pessoas pensam. Não gosto de ser o herói, e sim de ser o cara mais normal. Não sou muito fã dos personagens fazedores de tipo, já que todos pecamos.
Se um dia escrever um roteiro sobre Jesus Cristo ele vai ser deprimido e cheio de dúvidas. Porque é assim que somos. E quando ele vai descobrir o poder que tem, vai estar egocêntrico e assustado consigo. É assim que acabamos ficando quando temos confiança demais e quando todos nos vangloriam. Um Jesus Cristo que dê para nós sentarmos num bar e conversarmos.
Hoje estou fascinado por dois personagens reais.
Uma é a Amy Winehouse e o outro é o Eric Clapton. Dois ingleses, dois músicos, que ambos são fãs da música negra e que são a conjugação dos verbos presente e passado se tratando de seus respectivos problemas. A Amy a acompanho desde julho desse ano. Uma grande matéria no O Globo me deixou fascinado pela falsa estrela passional e apaixonada. De personagem forte, Amy não é a fazedora de tipo, como Britney Spears ou Cristina Aguilera. Ela está mais para uma Billie Hollyday. Talvez ela foi quem chegou mais perto da Billie até hoje. O Eric lançou uma autobiografia esse ano. Li sua biografia escrita pelo Michael Shumacher há pouco tempo e fiquei impressionado (mesmo pelo excesso de juízo de valor que o autor apresenta no livro) como um ser humano chega à um nível da vida, onde não há mais saída. Na autobiografia ele dizia que passava noites sentado na poltrona, viajando de heroína, olhando para uma garrafa de bebida alcoólica e uma espingarda planejando se matar. Como ele foi, e ainda é, um artista talentoso, talvez tenha sido salvo por isso. Os artistas precisam estar fazendo bons trabalhos como refúgio.
As biografias para mim servem como livros de auto-ajuda. Já me aliviou demais os pensamentos de Scorsese, Bob Dylan e Dostoievski. E, por isso, me tornei roteirista sério devido a eles. Essas pessoas sabem te mostrar o excesso da vida e de te deixar mergulhar no mais obscuro lugar de suas almas. É uma hora para parar e repensar na vida. Nunca passei o que o Clapton passou, mas sei o que é chegar no subterrâneo da alma.
E quando as pessoas me perguntam o que eu faço para me curar, jogo tudo para o meu trabalho. Se eu fosse um engenheiro, certamente estaria em frente a uma grande máquina gigante para suprir meus sentimentos. É isso que a gente faz quando não temos nada no momento: despejamos o nosso pior para o melhor que fazemos. No meu caso, arte.
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quarta-feira, 17 de outubro de 2007
As mais pedidas.
Eu tinha meus nove anos quando ganhei meu primeiro rádio. Ficava ansiosamente aguardando tocar "Patience" e "Swet Child O’ Mine " do Guns N’ Roses e as desventuras de Mike Patton e seu Faith No More. Era muito novo e estranho para um garoto de bairro esperar tocar essas músicas e lixar para News Kids On The Block. Sentava na banca do seu Humberto, um italiano que bebia a todo o tempo, lendo quadrinhos do Homem-aranha e revistas de cinema. Nunca conseguia parar em uma estação. Todas tinham a mesma magia, com exceção das que tocavam músicas de novela, as chamadas rádio populares. Na época existia a RPC, Transamérica e a rádio Cidade. A Transamérica por pouco não faliu, a RPC se tornou FM O Dia, a rádio Cidade, Oi FM. Mas a audiência das rádios era disputada pela Imprensa FM e a Manchete FM, com o programa da Furacão 2000, coincidentemente tocavam nos mesmos horários. Era de se esperar que eu ia passar longe disso.
Havia uma disputa de troca de estação. Cada grupo nas ruas escutavam determinada estação, de acordo com a personalidade deles. Eu era a da rádio Fluminense, claro. Na época, a Moniquinha (essa mesma, a da 98), pirava todos os amantes do rock. Tinha dez anos quando escutei Echo & The Bunnimen e os Beatles tocando "Dont Let Me Down". Gostava, mas não dava importância, pois eu queria ouvir eram os solos de bateria do Bohan do Led Zeppelin, a guitarra furiosa de "Paranoid" de Tommy Lee e a farofada do Guns, Skid Row, Poison e por aí vai.
A MTV foi a minha rádio televisiva. Fazia os trabalho do colégio, com o canal 9 ligado. Na época, a Cuca apresentava o Dont Stop e tocava o pior da música mundial. Assistia porque a achava gostosa. Depois da Angélica, ela foi a minha segunda fantasia sexual. A via todos os dias, perdia os sentidos e prendia a respiração quando a assistia naquela caixa velha da Philips, que ainda tinham seletores. Bem, quase repeti a quarta série por causa disso. Mas não era só a Cuca que fazia a minha cabeça, e sim, o programa do Gastão, o Fúria Total (ou Fúria Metal? Quem souber, me corrige). Não ficava um dia sem escutar Public Enemy, o Aerosmith tocando "Love Is A Elevator", o Antrhax e aquela cabeleira horrível, e, claro o Iggy Pop com a Kathy Pierson cantando "Candy".
A MTV mudou sim, meu modo de ser, de agir, como as criancinhas que assistiam a Xuxa. Enquanto gente da minha idade torcia para as crianças pobres na Porta dos Desesperados do Sérgio Malandro, eu via o Nirvana surgir. Enquanto dançavam "Vou de Táxi" da Angélica (ah, Angélica...), eu via o R.E.M. perdendo a religião. Ia aos cinemas assistir Justiça Cega, enquanto as crianças da minha idade iam ver Lua de Cristal.
Mas, bem, a MTV se mudou para o canal VHS 24 e não pude mais ver. Não fez falta, porque ganhei um três-em-um, e vi o tempo que perdi não escutando mais rádio. Quanto tempo perdi assistindo à clipes! Esqueci do principal propósito: a música. Fui imediatamente para a 94,9 e sintonizei na Fluminense. Uns doidões estavam surgindo. Pearl Jam, Soundgarden, L7, Stone Temple Pilots e o Temple Of The Dog.
Sentava no sofá e o Motorhead invadia a minha casa, o Pantera acabavam com o ouvido dos vizinhos. Era a exata Fluminense. Confesso que fui mais feliz ali. Eu estava apenas admirado pelas imagens e a MTV não me fez falta até hoje. Se hoje, eu quero fazer cinema, foi devido da formação de imagens na minha mente e a música é o fio condutor disso. Convenhamos que uma imagem propriamente pronta, transforma seu cérebro preguiçoso e sem criatividade. E a magia da rádio é exatamente essa. Formar imagens na sua cabeça. Que é exatamente isso que falta aos jovens hoje.
Não vejo nenhum desses jovens sentar religiosamente numa cadeira, ligar o rádio maquele horário e esperar ouvir o seu programa de rádio favorito. Pra dizer a verdade, nem há estação predileta para o público. Colocamos uma série de empecilhos: a internet e o número de rádios religiosas. Não vejo a internet como um problema nessa situação, mas uma solução e tanto. As emissoras evangélicas não está apenas nas rádios, mas na TV também. Além do fato, de que ainda existam maior número de rádios não-religiosas. Ainda.
As rádios Evangélicas viu como um ótimo plano e estratégia de, não apenas tentar pescar novos seguidores, mas também alimentar a idéia de fé nas pessoas que lá já estão. Mas seria arrogância da minha parte em dizer que é apenas os evangélicos aumentaram novos clientes e comércio, mas os católicos e Kardecistas também. E isso é gritante! O Padre Marcelo Rossi tem uma das maiores audiências da rádio hoje, com o programa "Momento de Fé". Os Kardecistas, coitados, tem a rádio Rio de Janeiro, quase caindo aos pedaços. Lembrando: sou católico, mas enquanto os seguidores de Papas e Bispos se reestruturam, pessoas de boa fé, como a Rádio Rio de Janeiro se afundam, sem patrocínio e falta de pagamento. E esses Kardecistas tem o concorrente maior que os católicos e evangélicos: os próprios Kardecistas. As revistas Espíritas lançam matérias absurdas, dizendo que espíritos de Che Guevara, Fred Asteire e Mickey Mouse apareceram e lançaram mensagens. Isso destrói a fé e a seriedade, da mesma forma que nós católicos temos vergonha de Padres Pops. Mas isso, já é outra história.
Como disse antes, a internet veio para solucionar o caso das rádios. Como a Rádio Livre por exemplo, que é feita toda em Podcast, arquivo em MP3 (ou outra extensão) que permite o usuário baixar e ouvir o resto da vida. O Podcast, permite o usuário a escutar programas de rádio de Blues à debates políticos. Mas ainda está em reforma, depois que os espertinhos meteram o bedelho em direitos autorais.
O Streaming também é uma solução. Usado muito hoje pela Oi Fm. A Usina do Som foi a pioneira do Streaming, em que permitia escutar discos e programas acessando seu site. Mas os direitos autorais bateu em cima da Usina e hoje, como em tudo no Brasil, perdemos uma ferramenta importante.
Talvez eu seja um romântico à moda antiga se tratando disso, mas não trocaria as minha terças de 22:00 às 00:00, enquanto escuto o programo do Maurício Valladares, o Ronca Ronca, a quem escuto desde 1998, desde a Imprensa FM. Os domingos se torna vazio para mim, quando, das 22:00 às 23:00, escuto o Françamente. E os sábados de 14:00 às 15:00 sem o Danilo Lobo te dar lição de trilhas sonoras de cinema na Roquete Pinto.
Tudo isso, é realmente muito bonito, mas creio que a magia da rádio pode ir ralo abaixo, quando a rádio se tornar mais um novo acessório de museu. Para muitos, isso já está aconteceu. Não creio nisso. Acredito em mais uma nova reforma e a rádio se fortalecer mais. A tecnologia existe para isso: restabelecer as coisas mais importantes, adaptando para os novos tempos. Abraço.
Segue abaixo, sites que valem a pena escutar.
http://www.xmradio.com/bobdylan
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quinta-feira, 20 de setembro de 2007
Mil dias e uma noite
Um dia desses me olhei no espelho e me senti péssimo. Barba por fazer, cabelos em pé e olhos avermelhados. Acendia um cigarro matinal e os óculos era escondido pela face terrível que eu carregava. Eu já conhecia aquele rosto. Era o mesmo do cara de Taxi Driver. Será que tudo aquilo havia voltado? Será que estava à beira de explodir novamente? Não, eu estava bem. Era só uma noite mal dormida. Enchi meu copo de Nescafé e tirei uma fatia de bolo de chocolate. Nescafé. Não sabia o que era Nescafé há anos na minha vida. Nunca ligava para Nescafé. Algo estava diferente ao meu redor. O cachorro dormia embaixo da mesa. Tudo bem. A outra cachorra me olhava com seus olhos enormes e um palmo de língua pra fora. Ela queria um pedaço do meu bolo. Eu a dei. Isso também não é diferente. Minha mãe me falava de contas em plena manhã e eu não tinha forças suficiente ainda para faze-la acabar com aquele assunto. Pra dizer a verdade nem estava escutando o que falava. Isso também não mudara. Sentia que algo havia mudado. Não sabia o que era. Pensei: preciso trocar de emprego, trancar a faculdade, fazer um filme (um filme definitivamente seria muito legal), estudar e escrever. O que diabos havia mudado? Escutei um barulho de serrote no terraço. Algumas pessoas traziam camas, armários e cômodo pra dentro de casa. Ah sim, já sei o que é, pensei. Ainda não havia me acostumado com o desconhecido.
Almoçava sem música e na mesa – algo mudou mesmo. A comida era diferente. Orégano na salada, o peixe estava bem temperado. Levantei-me e coloquei Jimmy Cliff para ecoar no som. Assim me sinto em casa. Preparava um sanduíche de presunto e requeijão pro lanche mais tarde. Andei até a Suburbana e peguei meu ônibus. A espetacular Amy Winehouse cantava “Rehab”. “O que Amy estaria fazendo naquele momento?”, me perguntei. Não sabia nem o que eu estava fazendo pra dizer a verdade. Amy...tão linda, apaixonada, e não sabe o que quer. Talvez temos algo em comum. Precisava conhecer uma Amy Winehouse.
Me lembrei que tinha que descer. Saltei num ponto depois, no ponto do Guanabara. Supermercado terrível.
Cheguei cinco minutos atrasado e o meu chefe olhou para o relógio. “Chegou dez minutos antes!”. Me esqueci que o meu relógio é quinze minutos adiantado. Olhei as planilhas, havia pouco serviço no dia. Há muito tempo não tinha esse descanso.
A tarde era o de praxe. Conversas de futebol, li uns jornais na internet (no senado, nada havia mudado), conferi E-mail, orkut e entrei no MSN. Um amigo estava online. Devia estar no trabalho! Mas que raio de horas esse cidadão fazia online naquela hora?! Foi o que perguntei a ele. Ele havia perdido algumas coisas importante na vida. “Pow, estou querendo conversar”. Claro que ia conversar. Mas não naquele dia. Havia coisas importantes para resolver. Algo mudou. E ele estava ciente disso.
Foi por volta das 19:00 que a coisa importante fez meu celular executar aquela musiquinha chinfrim. “Está onde?” (Essa maldita pergunta...). Respondi e desligou.
Voltei para o meu mundo.
Às 20:00 ecoou uma batida seca na porta do setor. Um abraço e uma entrada atrapalhada foi o início da noite. Estava totalmente desgastada. Como eu. Tive que abaixar o Ronnie Von do som – senti até uma leveza de vergonha de estar escutando “Anarquia” alto. Um pedido de café e um respingo na saia quebrou o gelo e o frio do ambiente. Algo mudou.
Conversamos sobre o trabalho que estamos fazendo. Está indo bem, obrigado. Melhor que eu esperava. Não sabia que conseguiria um dia escrever coletivamente. Isso está mudando. Esse ano foi o ano dos tabús, então mais um não faria importância. Conversamos também somos os nossos fracassos amorosos dos últimos tempos. Ainda bem que somos otimistas e não desistimos. Será que isso realmente é uma doença? Uma peste negra que assolou nas pessoas? É incrível! “Eu deveria ser mais frio”.
Me lembrei que ainda havia me restado alguns serviços para encerrar meu expediente. A deixei sozinha e fui tratar de resolver o meu trabalho. A minha cabeça estava embolada, o que já não é mais novidade. Um reggae do The Specials ecoava na minha cabeça. Eu odiava reggae. Agora eu amo. Isso também mudou.
Quando voltei, um chumaço de fumaça saía da boca dela. Não sabia que fumava. E não fumava. Era expontâneo, uma vez por ano. E deve que ser comigo. Estou transmitindo mudanças nas pessoas?
Sentamos, conversamos, tomamos café, fumei mais um cigarro e a escutei cantar Rita Lee. Enquanto dançava com um microfone na mão, não sabia que reação eu deveria ter. A minha cabeça estava embolada. Talvez eu seja um idiota. Isso não mudou.
Resolvi cantar e dançar também. Nos divertimos. Mais do que em muitas situações. Mais do que noites em boates, em motéis, bêbado em uma taberna ou ter que escutar uma garota chata falar das coisas que mais gosta. Não vi o tempo passar. Estava exatamente na hora em que eu iria largar o expediente. A minha cabeça não para de trabalhar. Isso não vai mudar tão cedo. Talvez nunca.
Ela também é de bairro. Por isso não está nem aí para as soluções do Cabral. É anti-Lula também. Pessoas assim é ainda mais politizada que uma Mirian Leitão. O ônibus não parava. Ríamos todas as vezes em que ele passava direto. Pra dizer a verdade, nos sentíamos melhor xingando os motoristas propositalmente do que chegar nos nossos lares. Eu digo: não queria ir pra casa naquela hora.
Em um contra-plongée, queria passar a mão na sua cabeça, levanta-la e beija-la. Mas achei que não era a melhor hora. O cigarro me fez companhia novamente.
Finalmente o ônibus chegou. Ela entrou, eu dei as costas e nem olhei para trás. Certa vez, umas pessoas diziam que “se arrepender do que fez na hora, pode se arrepender depois do que não fez”. Isso é balela. Não se faz tudo que quer na hora. E nem sei se vai ter hora. Eu digo: “Não se arrependa de nada. Tudo o que fez, deveria ter sido uma boa idéia. Ou não”.
Minha cabeça embolou. Estava com um nó gigantesco no cérebro, daqueles que se quando mais tenta desamarrar, piora. Percebi que andava num dos lugares mais perigosos do Rio de Janeiro. Eu não me importava. Isso nunca vai mudar. Talvez sejamos dois viajandões. E com viajandões, não acontece nada de errado nas ruas.
Cheguei em casa, preparei um chocolate quente e umas torradas. Havia lavado a minha alma. E, desde nunca, comecei a repensar na minha vida. Ringo Star ecoava com “Photograph” e decidi refazer a minha vida. Isso tem ajudado. Um barulho. Um estranho. Sim, muita coisa mudou. 2007 foi mais intenso que eu esperava. E não canso de dizer que vai ser mais.
Isso tudo foi exatamente uma semana atrás. Pode ser que nada tenha mudado hoje. Mas devo dizer que a semana foi muito rastejada. Talvez seja a semana mais longa que eu já passei. Mas devo dizer. Que treze de setembro de 2007, foi o dia mais divertido que passei no trabalho. Estarei com ela novamente. E não faço idéia como vai ser. Darei notícias.
Abraço.
Postado por Fabrício Alves às 13:07 2 comentários
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Autópsia Cinematográfica
Hoje, dia 29 de agosto, é o dia nacional do combate contra o fumo. E eu como um bom fumante, acendi um cigarro para comemorar. Seria de suma importante se todos os fumantes parassem de fumar, por devidas circunstâncias: dentes amarelados, cheiro impregnado em milhas de distância, desespero para sair de uma sala de cinema/igreja/exposição, gasto de dinheiro e as infinitas doenças que todos nós já sabemos.
Mas devo dizer: o cigarro combate contra depressão, ansiedade e desgaste da comida após o almoço (isso aqui é uma regra que eu inventei e que dá certo pra mim).
O que vocês devem estar se perguntando é o que isso tem a ver com a coluna Autópsia Cinematográfica. O cigarro tem tudo a ver com o cinema. Creio que resolvi experimentar um cigarro com os filmes do que propriamente o meu pai, que fuma desde 1958. Meu primeiro cigarro foi durante um jogo amistoso da seleção Brasileira contra Honduras em 1994. Enquanto aquela goleada irrelevante se formava, eu não tirava da cabeça a imagem de Nick Nolte em 48 Horas. No banheiro, escondido, acendi um L&M Light, onde toda fumaça desenhava nos ladrilhos e se embaralhavam com a água caindo da torneira, eu queria ser aquele policial durão que distribuía socos e chutes em todos os lugares em que entrava.
Nick Nolte é um cara durão até hoje. Mesmo sendo o pai vulnerável de Bruce Bana em Hulk ou o Padre que toma conta de um menino prestes à morrer em Northfolk ou o avô responsável em Clean. Em todos esses filmes, ele fuma. Mesmo não acendendo um cigarro, ele faz aquele tipo que acende um durante as refeições. Nos filmes de Scorsese - é claro que ele está nos seus filmes. Além de ser um dos melhores atores da história de Hollywood (sem trocadilhos com o cigarro) – ele é um fumante ativo. Em Cabo Do Medo ele é um advogado ex-fumante. Mas deve que voltar ao vício depois das perseguições de Robert De Niro. Em Lições de Vida, uma das histórias de Contos de Nova York, Nolte é um pintor barbudo em crise existencial que bebe e fuma o dia todo. Em Lições de Vida ele vive a pior doença de um fumante: a ansiedade. Ele não consegue pintar e se inspirar sem a a sua assistente a quem é apaixonado por perto. Quando volta, os últimos dias do relacionamento em crise, o cigarro é a fonte de raiva e inspiração.
Voltando para as décadas jurássicas, Rita Hayworth protagonizou o maior marketing de cigarro no cartaz de Gilda. Em qualquer canto que se conte a história dos cartazes de cinema, é impossível não citar Rita com aquele cigarro afundado numa piteira com a pose sensual imortalizada quanto a de Marilyn Monroe tendo seu vestido levantado pelo vento do metrô. O consumo de cigarros pela parte das mulheres aumentou 39%. O cigarro fazia das mulheres livres e independentes, providas de talento e segurança.
Os garotos da época brilhantina fez do cigarro sinônimo de "machitude" e rebeldia. Um rapaz de jeans, gel no cabelo e roupas coladas, intitulado James Dean, fez toda aquela garotada da década de 50 consumidores de cigarros. Autonomia, segurança, rebeldia e aventuras não podiam faltar sem cigarros. Além dos empreendedores de bebidas, as empresas de cigarros fizeram a estratégia de trazer o público jovem assumir o consumo do tabaco. Homens, mulheres e depois...os jovens. Um grande preparo para as próximas décadas psicodélicas. Já que, no final da década de 60, as meninas de 20 anos, apaixonadas pelos Beatles e Ronettes, foi o ponto fulminante para que as meninas, ainda recatadas, fumassem dos pais escondidas.
Pronto: estava formada a onda de todos, e o cigarro seria consumido como pão.
O que faria os ministérios públicos para chamar a atenção das doenças? Campanhas e mais campanhas contra cigarro. Da mesma forma que as campanhas de drogas são feitas hoje. Um diabo com rabo mostrando as chances de viver com ele se começar a fumar. Daí, as religiões evangélicas entraram de sola, alfinetando as outras que liberavam e que usavam para os cultos.
Um dos filmes que mais citou isso foi o recente Obrigado Por Fumar. O personagem de Aaron Eckart, que fuma pra dedéu em A Dália Negra, é um porta-voz de uma empresa de tabaco. O ministro da saúde, uma espécie de Bush complacente, promove a campanha de colocar imagem de pessoas doentes no lugar dos logos dos cigarros, acabando com a arte e a marca. Acontece que Aaron é descolado e tem como parceiro a representante empresas de remédios e um representante das armas. Os três se reencontram regularmente para confabular e trocar idéias os seus negócios. Daí você não sabe quem é exatamente o vilão: o representante de cigarro, que faz que todos continuem fumando, ou o ministério negligente e moralista, que apenas quer chamar a atenção. É um filme super recomendado aqui do bar.
Há pouco tempo, um amigo foi o último da turma a se rendeu ao tabaco do Marlboro vermelho. Eu dizia a ele que descobriu tarde, já que é o melhor. Além de ser a marca mais famosa d mundo. E quem foi o responsável? Exatamente, o cinema. Posso citar três filmes em que os personagens de filmes atuais em que o Marlboro aparece: Caminho Sem Volta (Charlize Theron entrando numa boate), Os Infiltrados (Di Caprio sentado num balcão quando Jack Nicholson senta-se ao seu lado) e O Pagamento Final (Um traficante quando cede um isqueiro à Al Pacino). Concordo que o Marlboro é o melhor cigarro de todos. Mas devo dizer que é o cigarro mais intrigante devido ao cinema.
Outra forma de se idealizar uma marca de cigarro foi Quentin Tarantino, com o Red Apples. O cigarro definitivamente não existe. É uma marca inventada pelo próprio diretor, que é dono das histórias de seus filmes. Além de você ver Bruce Willis pedir um dele num bar em Pulp Fiction, em Kill Bill você vê um gigantesco cartaz do cigarro enquanto Uma Thurman anda pelo aeroporto. Admito ter vontade de experimentar um Red Apple.
Não é só do cinema que o cigarro fez seu pé-de-meia. Vimos festivais de músicas (Free Jazz, Hollywood Rock), contra-capas de discos (Meninos da Rua Paulo do Ira!), livros (o recente Só Para Fumantes de Julio Ramón Rybeiro) e até esportes (alguém se lembra dos comercais do Hollywood?)! Alguns deles já foram proibidas. Mas devo dizer, que esse fumante aqui, foi mais seduzido pelo tabaco devido ao cinema, do que ver meu pai acendendo um atrás do outro no maracanã. Me arrependo profundamente disso, admito. Mas como diria Robert De Niro em Cabo do Medo, temos vício para lembramos que somos seres humanos.
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A atitude do diretor José Padilha, do filme Tropa de Elite, é duvidoso. Se os DVDs piratas, que estão sendo vendidos em qualquer banquinha de camelô, não for estratégia de marketing, eu rasgo meu diploma de comunicação. Agora, se isso tudo é muita coincidência, ele deveria comemorar. Primeiro que o filme está inacabado, segundo que o filme terá outra demanda, e já vai estar sendo vendido como Block Buster. Isso não é comum no Brasil.
Abraço.
Postado por Fabrício Alves às 12:30 2 comentários
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
Enquanto isso, a melancolia se torna realidade
Odeio os PPS que recebo por e-mail com mensagens positivas e bonitas. Não por apenas ser extremamente carregados e daquelas variações de cores sofríveis, e sim porque ninguém leva a rixa aquelas mensagens positivistas. Eu quero ver na hora em que o sapato aperta e alguém se lembre das primeiras frases, respira fundo e segue o conselho do amigo internauta. Duvido muito. Sou dado como um homem forte espiritualmente ou “coração peludo” (que definitivamente ninguém entendeu o verdadeiro significado desse vulgo). Eu digo que sim, não levo a rixa por ser alguém que leva a febre das ruas nas costas. Não posso me identificar com filmes como Dirty Dancing, se a minha vida está para mais para os filmes de Spike Lee. Não conseguiria levar uma Levada Louca da Ivete, se o meu sangue está nas poesias de um Kurt Cobain. Eu quero dizer com tudo isso, que nossas vidas hoje é praticamente um quarto escuro. Só se acredita em fé quando pensa-se em salvação. Estamos todos num meio de trincheiras. Veja o país, dominado por um presidente que se mostra vulnerável e de uma baixa estima dominada criada por seus homens de segurança. Um Ronald Reagan dos novos tempos. Um absurdo molde de discurso para os mais pobres de intelecto e um medo terrível de estar em frente aos de bom senso e pensantes. Uma grande farsa, uma mentira insuperável. Talvez o maior marketing feito na história do país. Agora fecho que faz sentido quando me disseram pra deixar de ser “o cara de Taxi Driver”. Será se eu larguei aquilo? Não sei. Creio que uma outra hora estoura novamente. A melancolia estão nos nossos livros, nas páginas de nossos jornais, nas ruas onde passamos. A sujeira e as mentes perversas dos seres humanos da qual nos esbarramos. Minhas figuras favoritas são as mais indisciplinadas, de difícil temperamentos e anti-convencionais como Edmundo, Lobão, Nasi, Robert De Niro, Dostoievski...São pessoas que você pode sentar num bar, pedir uma bebida e conversar normalmente. Não soam fakes como João Gordo, Daniel Filho, Marcelo D2, Chorão do Charlie Borwn ou Clodovil, que são metidos à besta e à polêmicos. Dias atrás estava em frente à TV e via no Multishow um clipe de um desses grupos novos, que inexplicavelmente se chama NX Zero. Eu tentava entender na canção de amor deles a seguinte frase: “As vezes eu acho que não sou o melhor pra você”. E a todo momento o carinha dizia que sentia saudade e que não vivia sem a Fernanda Lima do clipe. E é incrível esses garotos são agora: autoflagelação para soar um doce cafajeste. Bem parecido com aquilo que falei das músicas sobre a ditadura, do tipo “o que será, que será?”: Soluços de seus próprios pecados. Já disse aqui que odeio pessoas que fazem tipo. Tipo de inteligentes, de românticos e simpáticos. Realmente não dá pra entender este tipo de postura. Ao contrário deles todos, Mister Catra está mais para artista e ser humano, do que esse bando de colegiais do interior de São Paulo. Assim, mostra-se a profecia, da qual vou confessar à vocês: essa pessoa que escreve aqui é mais vulnerável que pensam. Essa melancolia coletiva é fruto de toda essa paranóia que passamos no país. Presidente querendo ser um Zapata inexistente, da qual não sabe o rumo de seu governo. Famílias chorando pela perda de entes queridos, enquanto empresários recebem prêmios. Banqueiros acumulando R$ 4 bilhões em seis meses só de CPMF. Imposição das empresas privadas, onde o próprio o salário é mero favor. A classe baixa recebem bolsa e a classe alta aumentam seus bolsos, enquanto a classe média – grande maioria da população - ficam a ver navios. As igrejas evangélicas tomando posturas de um João Batista enganando o mais necessitado (perdoe-me, se falam mal da igreja católica e ninguém se importa, também tenho o direito de falar dos evangélicos). Um bando de voyers sim. Só se importam com a pobreza e tristeza, enquanto a classe média fica em sinuca de bico. Isso não os fazem se importar com a infeliz situação e sim uma postura orgulhosa e egoísta. Um sábio chinês (Raul Seixas que o diga) chamado Xiapong dizia: “Não importa se um gato é preto ou branco. E si, se ele vai caçar o rato”. Nelson Jobin foi feliz em cita-lo. Nessa altura precisamos de soluções, não de teorias. Isso se aprende nos livros, não nas ruas. E, voltando aos textos positivistas, só duas pessoas me convenciam de que a vida é mais bela que não podemos imaginar: Bretch e Clarice Lispector. Talvez porque me identifico com eles. Pessoas que não se importavam em consumir maiores números de cigarros, viviam em terras fétidas e não perdia as esperanças. Porque amigo, se você perde as esperanças, não sei mais o que você pode perder.
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Em falar em São Paulo, o meu irmão resolveu parar pra assistir o programa do Milton Neves. O irrelevante Vampeta se promovia dizendo, com erros de concordância terríveis, sobre o futebol carioca. Este baiano que comia cactos no sertão da Bahia, disse certa frase:
- O vasquinho do seu Eurico caga no pau, e eles não ganham títulos há muito tempo (público apladindo). Na Quinta-feira vai levar um sacode da gente no chiqueiro deles (público apladindo). Eles (os cariocas) cagavam uma goma na tabela, mas agora eles vão ver os paulistas. Sou paulista, vesti a camisa (o público ovaciona Vampeta).
O ar arrogante do cangaceiro peladão só traz nova paranóia de paulistanos e cariocas. Ei, Vampeta! Porque você não vai cuidar da plantação de macaxeira do seu país, que nós, cariocas e paulistas cuidamos das nossas nações? Ou, se quiser, vai da cambalhota na frente do Lula agora, já que ele é corintiano. Talvez ele aproveite para dar uma cambalhota pra sair do governo.
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Não vamos perder o tempo falando de Vampeta, e sim de pessoas que subiram, que nesse momento devem estar fazendo filmes lá em cima com Hitchcock, Kubrick e Passolini: Michelângelo Antonioni e Ingmar Bergman. Como os dois não deveriam se ver há um bom tempo, desde o Cannes de 2003, eles resolveram se ver de forma inusitada. Assim como aquele acidente terrível da TAM há três semanas atrás, o Bar está de luto também com esses dois mestres que fizeram história na sétima arte, fazendo valer a importância da arte mais importante dos últimos dois séculos. Que vossas reencarnações tenham tamanho talento como os antecessores.
Abraço.
Postado por Fabrício Alves às 12:42 3 comentários
terça-feira, 24 de julho de 2007
O Rock me errou
Tenho que dizer: é exatamente o rock a principal influências desses textos, que não é só uma espécie de diário virtual ou coluna semanal de um jornal digital. E sim, o resgate introspectivo de uma alma humana, atingido à várias. E levando nessa linha, tomamos emprestada as palavras de Rice Mille Williamson, grande mestre do Blues: "O Blues é uma exposição do sentimento, da tristeza, da felicidade, das conquistas e do resgate da alma humana". E é nesse clima que vamos dissecar um breve sentimento meu por esse estilo de vida que revolucionou o mundo.
Não vejo nada no mundo, em termos de revoluções, cinema, artes plásticas contemporâneas, literatura e até invenções científicas sem este estilo consagrado. Hoje é mais fácil usarmos um grande evento com o elemento "Rock" para chamar a atenção de todos. Se alguém ousar a fazer um show de funk na praia ou micareta, inúmeras pessoas estarão longe dele. Se tratando de rock, todas as idades e gostos musicais estarão presentes sujando os pés de areia e dançando até quando pode. Isso é realmente muito curioso, porque todas as pessoas que se dizem estarem longe e desgostarem do estilo, é mais fácil se adaptarem do que qualquer roqueiro a um outro gênero musical. Lembro-me de sambistas, adoradores de micaretas e bailes funk presentes no show do Rolling Stones. Todos ficavam cada vez mais maravilhados quando Keith Richards soltava seus acordes ao céu e o Mick Jagger se enroscava nos microfones apelando "You Got Me Rocking Now". Todos ficavam estupefatos com a energia oculta que assolava em seus espíritos. O entusiasmo dos pulos em "Satisfaction". Dois dias depois o U2 tocava em São Paulo e o show seria transmitido na TV. Não se falavam de outra coisa a não ser o Rock naquela época.
É alarmante pensar que o recorde em ibope foram os Beatles tocarem em rede mundial e todas as TVs estarem de olho apenas nos rapazes de Liverpool. Em pensar que um jovem americano na década de 50 fez a cabeça das meninas e influenciou o modo de vida rebelde aos rapazes do mundo inteiro a se vestirem como tal, a dançar como tal e até cantar como ele. Elvis Presley reinventou a rebeldia. E hoje estamos com ela, sem aceitar conselhos errantes e pensamentos antiquados. Foi exatamente isso que o Bob Dylan disse quando recebeu prêmio de ícone e representante dos jovens. "Quero que os jovens mudem o mundo. Governem. Mas o que eu vejo aqui são pessoas de cabelos grisalho dizendo o que devemos fazer". Talvez isso foi o que caiu no esquecimento de nós jovens. Continuamos a ser mandados e a rebeldia foi usada ao pé-da-letra sem ajudar a mente de uma geração inusitada.
O Woodstock talvez seja o evento musical mais significativo para a história da música. E foi daí que aquela idealização de que o homem Rock é truculento, político e conquistador de mulheres foi arrancado. A essência fundamental do rock foi apresentado: o amor. O rock é o estilo mais fácil de se amar alguém. São nas palavras metafóricas e subjetivas que um sentimento aflora em notas e vozes rasgadas.
A diversão e a alma pedagógica nos deu o relaxamento e a curtição no rock. Isso foi na década de 70, quando os Stones depois do Mainstream e David Bowie mostrou o novo verdadeiro significado do gênero. Nos pondo ao ponto de dançarmos sozinhos e livres numa pista de dança. E os Sex Pistols foram as explicadoras de como tocar e cantar – mal – e fazer sucesso.
O Brasil sofreu com o determinado martírio. Bandas como Herva doce, Made In Brazil, Secos e molhados e Mutantes tentaram sobreviver com auto-chicoteamento em "O que será, que será?" ou frases de lenços e documentos. Não bastou para que artistas como Ira!, Legião Urbana, Barão, Lobão e Titãs do iê iê iê (depois ficou só Titãs). Até ser arrastado por palhaçadas como a Blitz e Doutor Silvana para afundar o reino. Demorou um bom tempo para se restabelecer (não houve este restabelecimento), mas levamos na memória bandas como Skank e Pato Fu até hoje. E ao decorrer bandas como Raimundos e Sepultura morreram na praia.
A palavra mais usada na década de 90 foi: "o Rock morreu". Inúmeras bandas revitalizou seus estilos com elementos eletrônicos, cultura de rua, mensagens diretas, bolinação em meninas e estupros indiretos. As pessoas que construíram uma história, voltaram-se para a música eletrônica ou se tornaram MPB (Música para bebericar). Quando, de repente, o rock volta novamente. Vira moda. Mauricinhos de plantão e punks de boutique (como diria o Tadeu) tiraram suas camisa pretas do armário e tiraram a poeira dos violões jogados nas estantes do quarto de empregada. E ele só não erra novamente, devido a grandes artistas que buscavam a áurea perdida. Mas caiu no ostracismo quando a disputa era grande com Hip-hops, techno e músicas regionais (no caso do Brasil).
Quando o rock tomou posto, emergiu um forte sentimento de liberdade e anti-repreensão. Não vejo hoje, ninguém, que nunca tenha deixado de ter parado para ouvir ou se emocionou com o rock. Ele vai continuar errando, morrendo e nós estaremos aqui dando novas diretrizes e ressuscitando um Jason, um monstro imortal, querido por todos nós.
Abaixo a árvore genealógica da religião rock:
Deus
Dançando colado, cabelos ondulados, barbas, cerveja, cocaína, filhos e casamentos.
Versículos:
John Lee Hooker - Spoonfull
Robert Johson – My Sweet Home Chicago
Howlin’ Wolf - Qualquer um.
Minha oração:
Rice Miller Williamson (com Yarbirds) – I Don’t Care Anymore
Adão e Eva
Dançarinos, cabelos em forma de bolo, danças esquisitas, topetes, costeletas desenhadas a mão, Bourbon com gelo, refrigerantes e paqueras.
Versículos:
Little Ricahrds - Tutti Frutti
Chuck Berry - Johnny Be Good
Elvis Presley – Heartbraker Hotel
Minha oração:
Ronettes – Be My Baby
Jesus Cristo
Cabelos compridos, danças esquisitas, Jack Kerouac, sem barba, cerveja, cigarro, maconha e casamentos com namoradas.
Bob Dylan – Blowin In The Wind
Beatles - Help
Rolling Stones – Satisfaction
Minha oração:
Rolling Stones – Gimmie Shelter
Hare-Chrisna
Cabelos compridos, barbas compridas, religião indiana, Wiskhy, LSD, heroína, sexo, sexo, sexo e casamentos fracassados.
Jimmy Hendrix – Stone Free
Pink Floyd – Time
Beatles – Tomorrow Never Knows
Derek & The Dominoes - Layla
The Band – The Weight
The Who – Baba O Ryley
* Desculpe-me, nesse é impossível dizer apenas uma oração.
Ganhesha
Cabelos coloridos, sem barba, sem religião, Wiskhy, LSD, heroína, sexo, sexo, sexo, pinturas nos rostos dos homens, meninas beijando meninas e casamentos.
Lou Reed – Walking On The Wild Side
David Bowie – Starman
Iggy Pop – Raw Power
Slade – Everyday
São Pedro
Cabelo moicano, roupas com tachinhas, sem religião, corte nos pulsos, palavrões, sexo, sexo, sexo, todas as drogas injetáveis.
Versículos:
Sex Pistols – Anarchy In The UK
The Clash – London Calling
Minha oração:
The Clash – Straight To Hell
Nostradamus
Danças esquisitas, laquês, sem barba, roupas coloridas sem combinações, heroína, wiskhy, sexo, casamentos fracassados e maquiagens.
U2 – I Will Follow
The Smiths – Ask Me
The Cure – Boys Dont Cry
Jesus And The Mary Chain – Head On
Madre Thereza de Calcutá
Danças esquisitas, roupas rasgadas, maconha, éter, sexo, sexo e sexo.
Legião Urbana – Será?
Barão Vermelho – Pro Dia Nascer Feliz
Titãs – Bichos Escrotos
Minha oração:
Ira! – Nas Ruas
Mahatma Gandhi
Camisa de flanela, danças estranhas, vozes pra dentro, cocaína, heroína, maconha, wiskhy, cerveja, sexo e casamentos.
Nirvana – Smells Like Teen Spirit
Pearl Jam – Jeremy
Stone Temple Pilots - Push
Soundgarden – Black Hole Sun
Padres pederastas
Todas as drogas, todas as bebidas, dançando com a cabeça pra baixo, depressão e eventos culturais e sociais.
Radiohead – Fake Plastic Trees
P.J. Harvey – todas as músicas são as mesmíssimas coisas.
The Magic Numbers – todas as músicas são as mesmíssimas coisas.
Radiohead – Paranoid Android
Inry Christy
Bares, elementos visuais, cervejas, maconha, cigarros e pouca importância pra imrprensa.
White Stripes – Seven Nation Army
Franz Ferdinand – Take Me Out
Queens Of The Stone Age – todas as músicas deles valem mais que qualquer uma dos padres.
White Stripes – You’re Pretty Good Loking (For a Girl)
Postado por Fabrício Alves às 05:20 3 comentários
quinta-feira, 12 de julho de 2007
Autópsia Cinematográfica
Estou retomando a uma nova sessão da Autópsia Cinematográfica. Sentam-se, preparem o chocolate, café, coca-cola, suco de cajú, pipoca e...divirtam-se. Mais uma película irá rodar na mente de vocês.
Há pouco tempo uma amiga havia me dito sobre artes palpáveis. Espectador se interagindo com as obras. Vivendo num sonho, num universo paralelo que só naquele momento podíamos estar. Notei, realmente, que o cinema não é exatamente este tipo de arte. O cinema não é exatamente uma arte. É uma conjunção de profissionais dispostos a contar uma história. Jean Renoir disse isso. Não concordo com ele. Creio que o cinema, a sétima e última arte inventada, iguala a obras literárias, pinturas e músicas. Tanto que é a obra que une todas elas. Essa arte é uma conjunção de pinturas reais e fotografias seqüenciais em movimento onde pusemos nossos sentimentos e cérebro projetado para mais de um bilhão de pessoas.
É notável que hoje o cinema sofre com o mercado, a venda excessiva de DVDs piratas e promoções nas lojas Americanas tirando o mais belo quando os irmãos Lumiére fizeram sessões para uma dúzia de espectadores, logo para o mundo: o entretenimento.
Hoje a venda dos DVDs piratas tem tanta expressão, que um filme, sem se que ter estreado em circuito internacional, já estão sendo vendidos em camelódromos, trens, centros comerciais e até em portas de banco. O maior exemplo foi Shrek 3, que tem como menor espectador nos circuitos referente ao segundo da série e 30% da população que vai freqüentemente ao cinema já assistiram. Um número talvez irrelevante, mas de suma importância se tratando em direcionamento de público. A sorte da Dreamworks talvez, seja a simpatia pelos públicos infantil e adulto pelo ogro verde. O novo Quarteto Fantástico já estão à venda no camelô mais próximo uma semana antes de sua estréia. É um passo para aqueles filmes que não tem estréia mundial.
Com essa demanda da venda de DVDs (essencialmente os piratas), o cinema deixou de ser uma obra sem interação, tornando-se impálpavel. As obras tornaram-se projetadas na sua TV de 20 polegadas com imagens surradas e legendas com erros oltografricros e ilegíveis.
Lembro-me de estar esperando desesperadamente a estréia de Kill Bill volume 2, até aparecer em minhas mãos UM não, mas DOIS CDs do filme divididas, da continuação da obra de Quentin Tarantino. Devo dizer que matei a sede que tinha do filme. Posso dizer o mesmo de Sin City, que demorou três meses para estrear no circuito nacional. Talvez ainda mais benevolente, já que Kill Bill estreou nos Estados Unidos em outubro de 2003 e só deu o ar da graça aqui em abril de 2004.
Quando eu assisti a esses dois filmes no cinema, não tive o mesmo impacto que tive quando assisti (canso de falar nisso) Cassino de Martin Scorsese. Não houve nenhum momento de um Fabrício extasiado com a história. O impacto havia ido embora. E o descanso da mente não foi exatamente quando fui ver o filme citado acima.
Para mim, assistir um filme no cinema é quase uma missa: você tem todos os rituais reunidos, a mente positiva, torcendo para que tudo dê certo e sentir satisfeito – ou não – com o resultado. Isso não é nada mais que a magia. Cinema que perde a magia, não é cinema. Um interrupção, uma palavra de um amigo do lado, a mão da namorada ao lado, pode desvencilhar todo o processo. É quase como um quebra-cabeça, que deverá ser montado sem margem de erros.
Vou longe: ET, de Spielberg, quando reestreou nas salas, não havia mais nada a não ser a mesma emoção que foi nutrida no início da década de 80. As crianças já eram outras, os tempos já eram outros e não fez o menos sentido para uma geração totalmente diferente daquela que Spielberg queria afetar.
Já Apocalipse Now, o Redux de Coppola, foi totalmente diferente. O filme tem cerca de oito anos mais velho que a obra do Sipielberg, mas o tema era mais antigo e direcionava para um público mais velho. E a jogada comercial da produtora, junto com Francis, foi perfeita. Estávamos a meses depois da paranóia de 11 de setembro.
É essa magia que o cinema, se seu filme for descuidado, tende a perder. Se assistirmos um DVD pirata, (claro, para mim, amante do cinema não faz diferença, faço questão de ir ao cinema para ver a fita no tamanho real) não teremos o mesmo efeito de antes. Dependendo do caso, até desgostamos e enjoamos da obra.
Não culpo ao público, pois é apenas uma vítima. Os preços altos dos cinemas de alto escalão afastou o espectador e arrematou o fechamento das salas de rua, outros que tiveram que se integrar ao sistema que a Cinemark e Severiano Ribeiro propuseram. E fica a pergunta: aonde ficam os irmão Lumiére nessa história?
Abraço.
Postado por Fabrício Alves às 05:33 3 comentários
terça-feira, 10 de julho de 2007
Oração para os jovens
Vejo os mais jovens de hoje sem nenhuma perspectiva. É incrível como se contentam com qualquer coisa. Quando digo "os mais jovens de hoje", incluo a minha geração também. Afinal, estou longe desses que tem 20 a 22. E quanto mais velho, mais distante deles vou ficando. Não importa suas idades avançarem. Quando entro em uma boate ou em algum bar, o que vejo são meninas ostentando, achando que é alguma componente da Pussicat Dolls. Champanhe, charutos e um armário – que mais parece ser segurança delas - com dinheiro ao seus lados. Os caras dançam ao som de uma Fergie ouriçada, levam drinks para elas, ganham um beijo, viram-se para um amigo e diz: "Peguei!". Há dez anos atrás "pegar" era outra coisa. Um idiota que estava na lapa um dia desses havia me dito a mesma coisa. E eu respondi: "Pô, você tem ejaculação precoce? Foi tão rápido assim?". Ele, ficou olhando pra mim assustado e ponderei: "Não se preocupe, se você a satisfez, tudo bem.". Dei as costas e fui para o bar pedir mais um chopp e fiquei lá observando o ambiente. Em pensar que já estive aqui, me deu uma angústia.
Estava numa festa regada a playboys e champanhe, me encontrava totalmente deslocado, e as crianças estavam bêbadas. Sentavam-se, escutavam a música do Neyo (sei lá, o nome do rapper) e emitiam um "uhuuuuuuu", levantavam-se numa rapidez e cambaleando para os lados para dançar a música nova da última semana. Eu achei que o Vasco havia feito um gol, juro. Afinal, o meu time jogava nesse dia. Eu ali, sem entender nada, bebia como um Bill Murray em Encontros e Desencontros.
Quando eu freqüentava as boates e festas de ruas eram as mesmas coisas. Eu ficava ali, parado, fumando e bebendo e assistindo uma penca de "popozudas" dançando Puro Êxtase do Barão Vermelho. Puff Daddy ecoava no som com aquela versão da música do Police, Every Breath You Take (ótima versão por sinal), e se misturava com fumaça de cigarro de baili e vinho quente barato. Esse cheiro me dá uma agonia imensa, que já me desespero.
Na época do Bonde do Tigrão não era diferente. Mas a minha tática já era outra, antes de ousar pôr os pés pro lado de fora, me enchia de REM e Queens Of The Stone Age, para que, quando chegar nesses lugares, Imitation Of Life cobriam "Cavalo de Pau/ Cacacacavalo de pau". Já conseguia ver as mulheres de forma diferente. As imaginavam dançando Satisfaction quando balançavam com "A dança da Motinha". Bendita era a época em que "Garota Nacional" do Skank fazia sucesso nas pistas, pensava.
Me afastei um bom tempo desses lugares. O que faria um fã de Supertramp e Dexis Midnight Runners nesses lugares? Me afastei e descobri o que eu queria na minha: beber com os amigos, falar de mulheres, Jesus Cristo, futebol e cinema.
Claro que eu acabei voltando à farra e descobri que não mudou absolutamente nada. Os funks com frases de cunho denotativo, cantoras histéricas fazendo duetos com rappers, cheiro de cigarro de baili, marombeiros e mulheres dançando hipnoticamente, rastros de cervejas no chão agarrando na sola do tênis...o bom filho à casa retorna, foi o que eu pensei. Parei de pensar nisso e me entreguei ao local.
Quando eu volto dos lugares me pergunto: como será a política daqui há cinqüenta anos? Juro, não quero estar aqui quando Gomorra se instalar de vez no Brasil. Daria para acreditar nessa juventude? Tivemos chance de reverter isso em 1992, se não fosse aquela meia dúzia de aproveitadores nas ruas protestando o governo Collor e a decadência da democracia. O rock de seattle asolava nossos corações, íamos para as ruas escutar música, jogar bola e eu e meus amigos de colégio imaginávamos a morte de Ulisses Guimarães como nos filmes de máfia.
Se desde 1997 o país continua o mesmo e só foi piorando a situação, o que será daqui pra frente? Será que em 2020 vamos nos tornar uma Venezuela ou Chile? Paris ou Bangog? Sinceramente, acredito piamente que vai estar na mesmíssima situação. Comodismo pela presente presidência, escândalos, CPI atrás de CPI, um especial na TV e nos jornais para o povo se emocionar quando a Xuxa morrer, continuaremos escondendo relógios quando um engraxate entrar no ônibus e a música – ah, a música – alegrando com o churrasco novo de cada semana que estais no céu, abençoai cada salário mínimo que cair na nossa conta junto com os juros nas contas dos banqueiros. Amém.
Postado por Fabrício Alves às 05:15 1 comentários
terça-feira, 26 de junho de 2007
A saideira do Rum
Entrei há pouco tempo na sala de aula totalmente apagado. Tinha ido na despedida de uma amiga na quinta-feira e na sexta de manhã ainda estava sob o efeito do álcool. A professora falava de arquétipos e eu prestava a atenção como um neto escutando as aventuras do seu avô. Nem cumprimentei a minha única atual amiga da faculdade, porque não a reconheci e ainda prestava atenção na Betty Boo tatuada na virilha de uma garota da sala. Ela tinha cabelos ruivos, usava uma roupa cult e me lançava um olhar do tipo: “Te conheço”. Provavelmente deve ter me reconhecido de alguma festinha de rock. Ás vezes me sinto um Jack Sparrow na minha turma da faculdade. Um capitão beberrão, que já teve várias conquistas na vida pessoal e hoje ninguém o respeita e o subestima. Quando solto minha bandeira, mostro meu barco e grito, aos soluços de quem você é, as pessoas me olham com desdém. Preciso de um Orlando Bloom e, principalmete, uma Keira Nightley. Bem, pouco me importa.
Atualmente faço publicidade, com o único intuito de ganhar dinheiro e conseguir estágio. Não faço muita questão de onde estou. O meu professor de quinta-feira nem se lembra de mim quando tiro os óculos. E com razão. Durante seis meses não lembro de nada do que me falou, e ainda fiquei com dez e seis. Já passei na sua matéria. No mesmo dia, tenho aula em seguida. Fazemos uma arte nos Mac (nada demais, só uns G3 antigos) da agência e concluímos até onde podemos. Também já passei. Talvez as aulas mais significativas para mim são as de Sexta e Segunda. A professora de Sexta é a mesma a da Quinta na agência, uma pessoa e profissional ótima que merece total respeito. Sonho um dia dela fazer a direção de arte dos meus filmes por ter notado na sutileza e nas conversas viajandonas que tivemos quando almoçamos. Na Segunda é a que me dá mais prazer. O professor é ligado em cinema e ainda me dá carona. Pensa muito parecido comigo e me dá conselhos sobre minha carreira profissional, além de falarmos de deficiências acadêmicas, trânsito, artes e futebol. Entreguei hoje a ele um roteiro meu. E me esqueci completamente de perguntar o que achou do comercial que fizemos no último trabalho.
Bem, quem se importa. Jack Sparrow não está nem aí para os inimigos, bebe seu rum e se imagina conversando com três, quatro, setecentos deles ao mesmo tempo. É assim que eu faço quando as garotas – ah, as garotas – conversam sobre trabalhos, estágios no marketing e novas linhas de produtos femininos. Só acordo com os estalos da Andrea repetidos com as frases: “acorda tarado!”. Ela é a única pessoa em que fiz amizade nesse período. Fazemos trabalho juntos, dou conselhos a ela sobre namorados e pede conselhos também a vida profissional e pessoal e raramente pergunta sobre a minha vida. É uma boa pessoa. Hoje, falei com ela no telefone de um cidadão, que mais parece um Fernando Pessoa embalsamado. “Eu não assinei a pauta!” e eu respondia, “Bom dia”. Pra dizer a verdade o grupo é bem esquisito: A Andrea, que é a pessoa de responsabilidade, um homi, que tem cara de sexta-feira, uma lourinha que protesta tudo, da qual eu arrasto uma asa pra ela (afinal, sou homem) e eu. O resto da turma é; um casal xexelento que se amassam durante a aula, outro casal xexelento em que a menina tira as espinhas do rosto do outro gordo, outro casal xexelento que brincam de cama de gato, uma falastrona, um falastrão, um mala que parece um papagaio, um caladão com um semblante estranho e parece que saiu de um dos filmes do David Fincher, um metido à bonitão romântico, que, como diria o Haruki, mija elegantemente, uma menina que só usa roupas de vôlei com a marca Nike, um retardado que usa boné pra trás e ri desesperadamente, algumas patys de subúrbio que franze a testa quando as observam e eu. E eu? O que eu tô fazendo ali?
Foi no final do período que eu vi a minha incompatibilidade a essas pessoas. Não me acho superior a eles. Nunca, nunca pensei assim. Sou justo, até porque já passei por isso. E se eu já passei por isso, não tem necessidade de passar de novo não é? É. Não tem.
Há semanas atrás tomei café com um professor do jornalismo e umas duas alunas dele, com ares estranhos e excêntrico se aproximou da gente. Conversamos sobre restaurantes e ficamos abismados com a mentalidade dos nossos colegas. Enquanto eu conversava com uma delas, me bateu uma saudade dos velhos amigos da faculdade. Talvez eu teria feito amizade com elas.
Foi quando Sparrow entrou no bar, pediu seu rum e entrou no navio. Levantou a bandeira, soltou a âncora e olhou na bússola pra onde deve ir. O vento já começa soprar indicando o caminho. Se não, haja ressaca!
Abraço.
Postado por Fabrício Alves às 16:24 2 comentários
segunda-feira, 18 de junho de 2007
Não tenho mãos que acariciem meu rosto.
No momento em que eu escrevo esse texto marcam 2:05 da manhã de um Sábado acompanhado de chocolate lancy e uma Skol long neck, lendo uma enciclopédia de fotografia e acabado de adiantar uma boa parte de um novo roteiro. O que faz um "boêmio" (essas aspas não são meras coincidências), homem de rua, exorcista da contracultura que tem ojeriza de sábados de noite em casa, em casa? Ele entrou naquelas fases de sossego e apego pelas constantes lembranças, ventos atuais e enjôo das grandes noitadas? Não, essa fase eu já passei, e acho que fiquei até muito tempo. Hoje foi mera coincidência e escolha pessoal. Não vejo nada de mal passar uma madrugada de sábado em casa. Afinal, não posso me entalar de filmes, leituras e músicas calmas nesse momento? Pra dizer a verdade, creio que seja o momento mais introspectivo do ser humano: sábado à noite. Garanto, isso não faz parte da minha cultura, do meu folcore, ficar no momento imortalizado por John Travolta em casa. Recebi uma ligação ainda pouco e a pessoa se mostrou surpresa quando respondi estar em casa. Já me perguntam logo: - aonde você está?. Maldito criadores de celular. Essa frase será mais importante do que "raspas e restos me interessam".
Bem, a importância do texto não é necessariamente a importância de ficar Sábado em casa, e sim à o que de mais importante você pode aprender. Reli alguns livros e vi o quanto Leonardo Boff é a reencarnação de Machado de Assis. Ele procura a essência humana, atingindo a sua transcendência. Me lembrei do conto do velho Machado, O Espelho, que se autodenomina "esboço de uma nova teoria da alma humana". Quando Boff diz no final de "A Águia e a Galinha": _ não só de fome de pão, mas também a fome de espiritualidade_. Ele botou pra quebrar nesse lance. É difícil muitas pessoas pensarem nisso. Talvez essas pessoas saibam apenas ler e interpretar, mas não usar. O livro de Boff é tão fácil de ler, que chega a ser complicado, para alguns, usar em prática. Há quem diz que entendeu, mas entra na velha história daquele episódio do Chapolin lembrado por uma amiga minha: "Só os inteligente vêem a roupa", se lembram?
Resolvi revisitar um livro técnico de diretores de cinema e caí no mestre Bertolucci. Durante as gravações de "O Último Tango em Paris", ele levou Marlon Brando até uma exposição de Francis Bacon. Ele chegou para Brando e disse : "Está vendo este foto? Bem, quero que você recria esta massa de dor ". Ele só precisou fazer isso com o ator para recriar o personagem. Lembro-me que fiz exatamente isso certa vez. Deu certo. Vão entender os artistas?
Dei uns "bizus" nos Storyboards de Glauber Rocha nas cenas do personagem Antônio da Morte. Aquelas imagens me transmitem tanta força, que me faz querer sair pelo mundo como um Capitão América tentando salvar as pessoas das ruas. Como um personagem tão rico de espírito e real pode fazer o que ele fazia? Como encaçapar as bolas com uma carabina? São nessas horas em que vejo a vulnerabilidade das pessoas. É incrível como se dizem fortes, mas são mais fracas que um pequeno pássaro.
É claro que vou parar de ler durante essa noite. Afinal, são quase 2:30 da manhã. Vai estar passando Corujão, me resta ainda mais uma long neck na geladeira e ainda tenho que ler o jornal de Sábado. Hoje, quando minha inspiração voltou (não escrevo um roteiro há três meses), percebi que algo mudou em mim. Como se estivesse passando por mais um túnel da minha alma. Não posto nada há duas semamas. não por falta de criatividade, mas por organizar as idéias na mente. É como se um vão abrisse do meu peito e deixasse sair aquele ar acumulado. É de se estranhar que, com tantas coisas inusitadas terem acontecido nessa semana, ainda me restam vestígios de um sábado à tarde. Acho que era isso que estava acontecendo comigo hoje. Uma abstinência. E só bastou uma tarde. Nem conseguiria agradecer pra dizer a verdade, seja pessoalmente ou verbalmente, mas dentro da minha alma, ela agradece. Ela diz: "obrigado".
Abraço.
Postado por Fabrício Alves às 13:57 0 comentários
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Voyerismo e Julgamento é um casal pervertido.
Na Sexta conversava com um casal amigo, Álvaro e a Camila – a famosa reunião dos carcamanos – nada melhor que sentar num bar em um dia sagrado pelos cariocas, condenado pela chuva e frio. Não queria estar em nenhum lugar a não ser ali, com eles, retomando àquelas antigas conversas, antigas piadas e costurando novos acontecimentos. Foi como se estivesse voltando para casa, depois de uma excursão no Tibet. Afinal, desde janeiro ou fevereiro que eu não via a Camila, nem conversava com a mesma intensidade com o mestre Álvaro
Foi aí que o post abaixo, sobre mudanças, fazia mais sentido. Não, não vou retornar à esse assunto. E sim como as coisas se tornam imprevisíveis. Durante toda a nossa conversa foi reflexo de como estávamos angustiados e cansados de decepções. Vimos como as pessoas que estão perto de você pode ser mais perigosas que imagina. Você, literalmente, pode dormir com o inimigo, levar café na cama pra ele e levar uma naipe nas costas como nos filmes de Charles Bronson.
Eu ainda não sei até onde vai a cabeça das pessoas, mas é bem complexa, digno de estudos. Estou começando a achar que a psicologia/psiquiatria/terapia/treparia são talvez os estudos mais importantes das faculdades. Enquanto conversava com eles, a minha cabeça voava para os meus planos do fim de semana: estuda uma apostila de 200 páginas, assistir a Era Uma Vez No Oeste de novo e visitar a minha tia. Devo admitir que só a visita, que estava programada para ser feita no sábado, foi feita no domingo. Enquanto eu atravessava a ponte na Presidente Vargas com meu pai, avistava um bando de senhoras no ponto. Parecia a excursão de um Woodstock católico, com beatas doidonas e seus artigos chapadões como a água benta nas mãos. Eu desci e elas continuavam ali, rindo e falando de doenças como os jovens da década de 60 comentasse do novo álbum do Joe Cocker. Eu e meu pai continuamos com a conversa da semana, que foi a derrota do Botafogo para o Figueirense, mas sem deixar de observar aquelas velhas que seguravam as maçãs para as Brancas de Neve (ou será Bela Adormecida?). O 217 chegou no ponto e esse grupo de velhas entraram conosco e sentaram-se no banco de trás rindo e falando sobre suas amigas, conhecidas e sobrinhos distantes que terão que operar no hospital do Andaraí. Descemos no ponto final acompanhados por esse bando e um casal xexelento que se roçavam no banco da frente, e fui comprar o meu cigarro. Precisava de um. Quando havia subido a gigantesca rampa do hospital, havia mais dessas velhas espalhadas em todo a frente do hospital, como bando de gangues. Deixei meu pai na fila da recepção para pegar as identificações e resolvi ir ao banheiro. É irreversível a situação do estado referente á saúde. Pessoas espalhadas pelos corredores em macas e seus nomes em papéis amarelados com fita durex nas paredes para identificar os doentes. Um grito ecoando no corredor de uma criança deixava o ambiente mais neurótico do que já é. O meu egoismo falou mais alto: “Vou acabar pegando uma infecção nessa porra”. Bem, até agora não tive sinal nenhum de doença. Me encontrei novamente com o meu pai e subimos para o oitavo andar aonde minha tia estava internada. Após meia hora pela procura do seu quarto, conseqüente ao péssimo atendimento, furei a palavra de “homem” do recepcionista e entrei nos quartos para achar a minha tia. E a encontrei. Eu e meu pai entramos, conversamos durante a meia hora que nos restavam. “Não quero assistir TV aqui, quero assistir em casa. Me tira dessa porra”, dizia a minha tia. Fomos embora e logo me toquei quando entrei nos quartos, quando via aquela corja de velhas no ponto de ônibus rezando com o terço nas mãos e espalhando água benta pelos quartos enquanto a família dos pacientes se sentiam esclusas entre ave-marias e pai-nossos. Pensei: até onde vai o Voyerismo das pessoas? Qual será a ereção na medida de pessoas que gostam de ver outras sofrerem? Para mim não muito diferente dos grandes públicos medievais ao ver criminosos sendo enforcados e bruxas queimadas.
Talvez esses enforcados e carbonizados sejam vítimas desses grandes senhores feudais e bispos das igrejas. Ou seja, nós. Será que eu sou bom o suficiente em comparação a essas pessoas? Talvez elas estejam sendo melhores do que eu, rezando por alguém não tão próximo e eu apenas estive assistindo àquelas pessoas perfuradas em soros e deitadas em seu leito. Talvez, não sei.
E se tratando de julgamento vejo muitos exemplos; o amigo meu, o Tadeu, sofre por julgamentos diários, que não cabe aqui dizer quais são, mas eu sei que muitos estão errados. Já passou pela minha cabeça julgá-lo também, ele sabe disso. O julgamento é mais fácil de ser feito do que o voyerismo. Eu mesmo, nessa semana cansei de escutar: “Fabrício, você não sabe o que quer.” Ora, se você sabe tanto o que eu não sei o que eu quero, talvez saiba que eu sei o que eu quero! Eu sei tanto o que eu realmente quero, assim como eu sei que gosto de mulher. O gosto dos meus sonhos estão tão perto como o gosto das mulheres. Se sou bem resolvido como homem, graças à Deus, sou bem resolvido do que realmente quero. Não restam dúvidas disso. Pra dizer a verdade, nem na minha adolescência, passou por mim a dúvida. E voltando ao papo de Sexta, durante aquele gourjão de frango que escorregava no meu prato, comentei sobre pessoas que vivem me sondando. São dois fatos das pessoas quererem te sondar: ou deseja algo que ainda não teve e quer conseguir através de alguma informação sua ou pretende escrever um livro sobre uma vida normal. Para quem lê esse texto, sabe que eu tenho ojeriza à pessoas que jogam verde, querendo colar informações suas. O fato de eu ser jornalista não significa que devo ser jornalista à todo o tempo. Sentia falta da velha reunião dos carcamanos. Dos chopps, da velha piada do São Jorge, dos aperitivos gordurosos, das risadas profundas e dos mesmo assuntos incansáveis.
E para quem reclamar que isso é nostalgia, digo uma coisa: só se tem nostalgia quem tem algo para contar.Abraço.
P.S. E se tratando do texto, vou homenagear o Tadeu com a música do Lobão. Ele vai entender. rs.
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Gostei dos comentários do texto “Essência não muda. Mas problemas e pessoas sim.”. Se tornaram contraditórios sobre o texto e dos outros comentários. Essa é a essência do Bar.
Postado por Fabrício Alves às 14:04 2 comentários
Autópsia Cinematográfica
Bem, além dos textos que vocês estão habituados a ler, trarei mais uma sessão: Autópsia Cinematográfica. A intenção é indicar e resgatar filmes que geralmente as pessoas não viram ainda e nem passaram perto. Tentarei fazer listas de clássicos, filmes novos. Claro que, mesmo que o leitor não esteja de acordo com a lista, ou achem que estes filmes não sejam suficientemente assistível, terá, creio eu, uma nova visão deles. Bem, divirta-se e procurem não assistir ao lado de pessoas que falam: “filme maluco”, ou namoradas (os) que querem transar exatamente durante a exibição.
Claro que há filmes que vocês estão cansados de saber que existirão em listas, como o Cidadão Kane, mas há os filmes de Cassavetes e de Takashi que nem em DVD, até no momento, não estão à venda. Indico então ir à salas de exibição de vídeos. Por favor, podem me corrigir caso haja algo equivocado, a idéia também é a discussão deles.
Abraço.
The Shadow – John Cassavetes
Cinema de guerrilha. Este filme, feito em 1959 é até hoje, junto com Samuel Fuller, os deuses do cinema independente americano, quando os estúdios MGM e Warner imperavam o mercado. Cassavetes era corajoso se tratando de produções, dava soco em ponta de faca e fazia os filmes na base do prazer e entusiasmo. Ele buscava algum tipo de verdade, talvez mesmo uma “revelação”. Ele dizia que “Ter uma filosofia é saber como amar e saber onde colocar o amor.”. Os filmes de Cassavetes foram denominados por Coppola como épicos da alma humana. Não ligue para seus planos e técnicas. É estupidamente sem orçamento, cronograma e planejamento. Um grande ode de sensação de liberdade. Muitos closes à la John Ford e diálogos. O próprio Ford disse certa vez que filmar o rosto humano é a coisa mais interessante e empolgante que existe no mundo. Foi fundamental para os cineastas da American Zoetrope (produtora que fez surgir nomes como Coppola, George Lucas, Spielberg, Scorsese, De Palma) e cineastas independentes como Altman e Woddy Allen. Filme de seguimento punk: faça você mesmo um filme.
Barry Lyndon – Stanley Kubrick
Kubrick antes de ir para a Inglaterra nos presenteou com filmes como Dr. Fantástico, o Grande Golpe e "estreou" em blockbusters em grande estilo com Spartacus. Mas foi na ida para as ilhas britânicas que o mestre se estilizou e mostrou a verdadeira mente insana e pervertida e sua verdadeira criatividade. Não é à tóa que as pessoas quando pensam em Kubrick se lembram logo de Laranja Mecânica, 2001 Uma odisséia no Espaço. Mas o nome de cinema contrabando pode ser dado com mais ênfase quando ele lançou esse épico que fala de um cafajeste fracassado que narra a sua história durante a batalha da Inglaterra. Stanley Kubrick abriu novos caminhos tecológicos mandando fabricar lentes que captariam a verdadeira fotografia de um ambiente claustrofóbico e aberturas de diafragmas em grandes angulares que até então, te davam uma sensação de tédio e angustiada que faz o espectador penetrar na história mundana e comportamentos ritmado da época, numa espécie de transe.
Cidadão Kane – Orson Welles
Quando o diretor de fotografia Gregg Toland sentou-se com Orson Welles, lhe disse: fique aí, que vou te ensinar cinema em duas horas. E foi nesse tempo, que Welles se tornou um dos grandes iconoclastas (e não o mais) da história cinematográfica. Depois de passar por processos, prisões e linchamentos quando foi responsável pela morte de centenas de americanos narrando o conto A Guerra dos Mundos na rádio, ele se superou, acima de até cineastas consagrados, aquele jovem de 25 anos fez um dos filmes mais inspiradores e essenciais da história. Cidadão Kane é fundamental para alunos de comunicação, de direito, psicologia e de assíduos das cadeiras das CPIs afora. Weles, além de dirigir, simplesmente escreveu o roteiro, fez a iluinação, criou a trilha sonora, regeu a Orquestra, ajudou a desenhar os cenários, atuou e mexeu com a câmera de forma tão surpreendente que deixou boquiaberto seus colegas de profissão. Pena que a inveja de alguns colegas, alguns homens de terno da RKO queriam queimar os negativos e políticos se enfureceram com a tamanha identificação fizeram de tudo para não ter a propaganda necessária. Mais assim como Quentin Tarantino, teve o verdadeiro sucesso do merchadasing: a propaganda boca a boca. Nunca mais Welles, mesmo com Soberba, repetiu a mesma façanha de seu filme de estréia. Orson surgia assim com o cinejornal, pedindo para o então montador Robert Wise, arrastar a película num chão de concreto.
Os Infiltrados – Martin Scorsese
Não é à tóa que estou colocando um filme do Scorsese aqui. Seriam vários fatores para ligar o pisca alerta de vocês: por ser fã e pelo diretor ítalo-americano ter ganho o único Oscar de toda a sua carreira, que completa quase mais de 30 anos. Mas esse aqui, Os infiltrados é essencial para os novos estudantes por infinitos fatos. Primeiro pela análise ritímica do longa, inspirado pelo chines Infernal Affairs, onde o roterista William Monaghan deve que adaptar a realidade chinesa para a realidade americana, de Hong Kong para Boston. Embora os críticos foram rudes nesse ponto, não podemos dizer que a realidade paranóica americana não se adapta para a atual paranóia chinesa atual. Mas o fator positivo para este Scorsese, foi a bela obra de arte que a editora Thelma Schomaker, parceira de Martin desde Touro Indomável, aprontou. As imagens foram tão bem colocadas, que fez do filme, que podia ser arrastado e com cenas certinhas, com elas espalhadas. Um grande exemplo foi a contradição dos personagens de Matt Damon e Leonardo Di Caprio. Enquanto o policial bandido saía para jantar com a psicóloga, Vera Farmiga, o bandido policial engessava seu braço. Além do nível livre de improvisação, Thelma foi feliz novamente presenteada pelo Oscar.
King Kong – Peter Jackson
Muitos foram para o cinema confiante e sem arrependimento. Apesar de ser um filme que não atraía nem um pouco o público mais uma vez, o diretor de Almas Gêmeas e Senhor dos Anéis, está mais cotado que seus próprios ídolos, Spielberg e Lucas. O que se tem nesse remake do clássico de 1922 e depois, lamentavelmente filmado na década de 70 (que diga-se de passagem, apenas as pernas de Jessica Lange salvavam o filme), são os usos de efeitos visuais. Quando se trata de filmes de efeitos visuais e cenas de ação em Hollywood são explosões e prédios caindo sem necessidade. Jackson trouxe a mesma poesia e o singelo afeto da protagonista com a criatura desconhecida. Não foi burro suficiente em trazer a história para a época moderna e sim fez um épico, que deixou mais fiel e reinventado a obra-prima, situada em uma direção de arte esplêndida habitada na américa durante a Grande depressão. Apesar dos protagonistas - Jack Black extraordinário – estarem dignos de indicação ao Oscar, Peter foi o diretor mais presente em termos de grandes efeitos especiais exagerados. A frase de Lars Von Trier, pela primeira vez foi descartado por mim quando disse que “não se vê um diretor atrás de uma câmera e sim sentado em um computador”. Há dúvidas que a cena do Kong com Naomi Watts na pista de gela não vai se tornar uma das mais belas imagens desse século?
Audition – Takashi Miike
Takashi Miike não é apenas um diretor de cinema, mas sim um grande “fazedor” de filmes. O japonês é capaz de fazer vinte filmes por ano. Esse Audition foi feito em apenas, diz a lenda, em dois meses. Não me estranharia disso, já que o diretor mais hiperativo do mundo, construiu um filme como se fosse um disco de vinil: lado A e lado B. De primeira, parecia um filme de romance quando acompanhamos a vida de um diretor de cinema inseguro para fazer um novo filme e para o próximo amor. Após, achar uma atriz perfeita para a personagem durante a Audição, ele apaixona-se por aquela menina de olhar meigo e mais nova que ele, que lembrava a ex-esposa. O filme, de 75 minutos, aos poucos vai se tornando mais perturbador, até chegar num nível sádico e masoquista. Sem pudores, Miike, autor do clássico Ich the Killer, constrói um roteiro espetacular e intrigante, para fã nenhum de Tarantino por defeito e se mostrando um cineasta contrabandista que engana e conquista os produtores de terno.
THX 1138 – George Lucas
Todo mundo sabe que após os anos 60 e 70 foi a fase mais criativa e artística planetária e mudanças nos mundos mundanos de acadêmicos e empresários molengas. Enquanto a MGM e Warner mostravam-se monótonos, com filmes de romances filmados apenas em seus estúdios e diretores americanos, como Kubrick saíam do país para terem liberdade criativa, um grupo estudantes ousadas vieram para derrubar os paradigmas cinematográficas. Francis Ford Coppola e George Lucas se tornaram amigos inseparáveis quando o franzino criador de Star Wars foi trabalhar como assistente com o arrogante e excêntrico diretor de O Poderoso Chefão. Mas de uma coisa ninguém duvidaria: Francis era a única pessoa que podia salvar o novo cinema americano. Foi assim que ele pariu George Lucas criando a America Zoetrope. Como num Road- movie, aqueles jovens viajaram numa van e criaram o primeiro filme com a marca. THX foi um fracasso de público e crítica por ser indecifrável e nem um pouco popular. Cult, como um Blade Runner, THX 1138 trouxe um trunfo e reinvenção da engenharia de som. Artezanal e viajante, os barulhos dos bastões dos policias futuristas, das máquinas trabalhando, até das masturbações dos personagem fez desta ficção científica um grande marco do cinema independente.
O Vampiro – Carl T. Dreyer
Filme mudo e alemão sempre afastam os jovens. Além dos indies, fãs de The Shields que dançam de cabeça baixa nas pistas. Os góticos amam esse filme apenas pelo apreço do clima e das locações. Para os estudantes, esqueçam disso. Dreyer, em 1923, lançou o travelling e foi o primeiro diretor a se preocupar com a fotografia. A história, obviamente narrada por legendas, é extremamente intrigante até hoje. Juízos de valor à parte, Dreyer, junto com seu diretor de fotografia, que não me recordo o nome, descassetado, criou sombras como nos velhos teatros chineses e texturas sombrias para contar a história de um jovem descobrindo a lenda dos vampiros num vilarejo de uma cidade pequena alemã. A fotografia combina com personagens sombrios e closes bizarros que dá frio na espinha em até adultos. Para sempre.
Cães de Aluguel – Quentin Tarantino / Era Uma Vez No México – Robert Rodriguez
Quando se trata de Tarantino e Rodriguez temos que falar dos dois. Ainda mais na expectativa de Grindhouse nos cinemas brasileiros. Temos dois extremos nesses longas. O primeiro de tarantino, que sem ajuda de salas de aula, apenas escalou grandes atores, estudou os velhos filmes setentistas e clássicos como Os Bons Companheiros, fez o reverso deles e fez este clássico. Quentin só tinha duas coisas: apoio do produtor Lawrence Bander e do seu peculiar entusiasmo. Produzido e estrelado pelo ator Harvey Keitel, Quentin quebrou os filmes demondé de gangsters que circulavam nos circuitos de 1992, após Goodfellas ser respeitado pela academia e púbico.
Rodriguez estava desentusiasmado com seu Pequenos Espiões e não fazia idéia o que faria para seguir a carreira. Até seu amigo Tarantino convênce-lo que El Mariachi e A Balada do Pistoleiro fosse uma trilogia. Ele seguiu o conselho do amigo, que estava ocupado com seu Kill Bill e rapidamente escreveu o roteiro do músico mexicano. Não o bastante, após descobrir a câmera HD através do amigo George Lucas, aumentou seu filme e agora, além de cozinhar e editar, fotografar e dar piruetas durante toda a produção, o diretor passou a dar conferências e mudar a cabeça de novos e velhos cineastas. O que é fácil para ele, ainda ninguém conseguiu chegar ainda ao seu patamar pelo uso da câmera em locações de externas. Poucos são como eles que sabem usar a profundidade de campo e fotografias exemplares.
Patrulha Da Montanha – Lu Chuan
Continuo dizendo que o cinema asiático vem dando banho no cinema americano. Quem diria que Patrulha Da Montanha, esquecido por grandes revistas especialistas e passando batido pelo público, se torna um marco do cinema planetário. Fundindo ficção com documentário, o filme de 88 minutos, mostra a saga dos caçadores nas montanhas geladas da china, que, como fiscais do governo, cooperam contra outros caçadores ilegais de animais, que fazem parte do seu habitat, para não virarem casacos de madames comunistas. Patrulha da Montanha é sensível e poético. E deixa no chinelo documentários clichês, “americanos demais”, e campanhas de ex-candidatos à presidência da república.
Postado por Fabrício Alves às 13:28 0 comentários
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Essência não muda. Mas problemas e pessoas sim.
Conversei há mais uma de uma semana sobre mudanças. A pessoa havia me falado dos seus problemas e eu havia comentado sobre os meus. É incrível como uma ponta de iceberg pode mudar todo o cenário, como uma grande equipe de contra-regras. Deus ás vezes é um contra-regra, que é obrigado a tirar um croma azul para um branco. Embranquece na nossa frente e passamos batidos delas. Tudo depende das nossas cabeças. Uma seqüência de sonhos reais, como Freud escreveu em A Interpretação dos Sonhos. As coisas passam na sua frente como um conjunto de 24 frames por segundos e não dá tempo de você perceber o que realmente aconteceu.
Estava no telefone com uma amiga no telefone ontem à noite e o assunto sobre mudanças foi à tona. Passamos por um mês de abril horrível – não acredito em inferno astral, mas que eles existem, existem – que chegava a implodir os corações que, de tão ferino, era como um soco no estômago, que nos faltavam ar. Quantos murros nas paredes tive que dar, que as minhas mãos por poucos não esmigalharam. Briguei com um cara qualquer de escritório de quase 1,80 de altura em plena Rua da Quitanda, e a minha raiva venceu a vontade física dele. Ia, e continuo indo, para um lugar indesejado onde me sentia/sinto preso. Naquele dia entrei pela porta e as pessoas me olharam como se eu havia saído de um ringue. Estava na cara que havia brigado? Uma pessoa chegou para mim e disse: você bateu em quantos hoje Fabrício? Olhei, sorri polidamente e fechei o rosto rapidinho. Saí da sala novamente e acendi um marlboro. Enquanto as nuvens de fumaça desenhavam nas luzes do corredor, o vento soprava meu rosto de tal forma liberdadora, como se estivesse avisando dos futuros acontecimentos. Das mudanças. "Preciso acabar com esse rótulo", eu disse. Foi o que eu sugeri a essa amiga minha, quantos citamos as mudanças que pelo que percebemos (eu tenho toda certeza delas) estão surgindo. O mais incrível que quando todos estão mudando o vírus se alastra para o cara do lado.
Neste indesejado lugar, eu era um cara procurado. Citavam até as minhas características. "Você precisa conhecê-lo", "O cara é incrível, engraçado, carismático", "O coração peludo." "O que é coração peludo?, Respondia o outro", "Ah, é um cara assim, assim, assim...". A minha sala parecia como um cordel de seguidores de Dalai Lama. Voltava de uma simples aula de merda e quando eu chegava na minha sala, haviam centenas de pessoas à minha espera. "É ele?". Eles me falavam que sabiam de mim, que eu era isso, isso, isso. Era terrível, ninguém sabe da minha vida, nem eu sei. Como alguém que nunca bebi nem um chopp vai saber? Parecia propaganda de terceira categoria:
- Use Fafas, te dá euforia e você dará boas gargalhadas. Lembre-se da larica depois.
- Compre a coleção de CDs Fafas, melodias e sucessos para toda a vida.
- Pasta de dente Fafas, refrescante e suave.
EM CASO DE CONTRA-INDICAÇÃO, CONSULTE SEU MÉDICO.
Precisei mudar. Fazer como Bob Dylan que inseriu instrumentos elétricos em pleno festival Folk. Aquele carisma e antipatia simpática simplesmente acabaram. Não adiantava fazerem macumba ou mantra que o monstro não voltaria dos mortos. Aquilo foi um baque para muitas pessoas que deixaram até de olharem para minha cara, que nem sequer me reconheceriam mais. Daria graças à Deus daquilo. Se fossem mesmo meus amigos, continuariam acampando no meu templo. Porque a principal essência continuava: a autenticidade. Que, me desculpem a modesta, é a minha principal virtude. É triste as pessoas usarem essa palavra. Dizer que "eu sou eu e mais ninguém". Um bando de cegos. Um corja de Templários e bispos da era romana. Foi quando o vento soprou novamente e alguém abriu a porta daquele lugar indesejado...
...a pessoa me disse: "escuta, aqui não é Candelária para ser independente. Você precisa ser mais político, garoto. Não pode sair na rua socando todo mundo, porque eles vão saber. Isso é ruim para alguma promoção sua.". Eu respondi: "Eu quero é que eles saibam". Sorri, continuei a jogar a fumaça nas luzes e não mudei nada desde aquele dia, porque seria a minha essência que estava em jogo.
Você não pode ser mais a mesma pessoa de ontem. Não se pode se prender a um passado. Quem diz que se prende a um passado é que quer continuar nele. Não é mais um simples prato de almoço ou desenhos na TV que vai trazer de volta o que aconteceu, a maldita magia. Hoje eu posso dizer que estou no zero a zero de tudo. Simplesmente tomo o rumo da minha vida, que até hoje foi aos trancos e barrancos e planejo a minha vida a todo o momento. Sei dos imprevistos que surgem. E coitado daqueles que não tem plano B, pois é pior do que não saber rezar um pai nosso, não sabe como se proteger sequer. Não há escudo contra problemas. Não é você que arruma os seus problemas, são eles que vão atrás de você. É como se estivesse surfando: uma onda pode ser um problema, mas você simplesmente sobe nela e a acompanha tentando a solução.
Mudanças não é tão bom assim, estaria mentindo. Até porque ás vezes ele pode acabar acompanhado de problemas. Mas será que você era feliz antes? Sua vida estava de acordo com o que você achava que tinha que ser? Não sei. Vai depender do seu problema e das mudanças que ocorreram. Eu costumo dizer que sou meio Wolverine, me recomponho rápido. A vida é assim. E você está vivendo exatamente pra passar por isso. Não viver em cima de problemas, até porque a vida não é um sistema de TV que tem que estar a toda hora resolvendo os malditos pepinos. Mas sim, uma programação de TV, onde há mudanças e soluções. O resultado, você vai ver, será bem melhor do que você não esperava.
Postado por Fabrício Alves às 12:40 3 comentários
quarta-feira, 16 de maio de 2007
The Big Shave
Olá à todos.
Bem, como eu não fui fiel ao meu dead-line nessa semana aqui, no Bar, resolvi dar continuidade ao texto de Martin Scorsese. O curta que vocês virão, é The Big Shave, e foi rodado na europa, quando Martin foi premiado na Bélgica. Foi de lá que ele contrabandeou os rolos finais pra fazer "Quem Bate à Minha Porta?". Na época quando Scorsese estava deprimido, sentia dificuldades de se barbear. Por isso foi o efeito do curta. Bem, assistam e notem os planos e a escolha incindetal da trilha, pois isso percorreu durante toda sua carreira.
Abraço.
Postado por Fabrício Alves às 14:16 3 comentários
segunda-feira, 7 de maio de 2007
Vivendo No Limite (Lições de Vida de Martin Scorsese)
Todos que me conhecem sabem que eu tenho um carinho antigo por Martin Scorsese. Para mim, Scorsese, é o meu Hitchcock, Fellini e Kubrick ao mesmo tempo. Não digo que ele tem o poder do talento desses, nem que é melhor que os mestres citados acima. Mas falo com todas as letras que ele é a minha principal referência cinematográfica. Tenho todos seus filmes - exceto Boxcar Bertha, Sexy e Marginal como título traduzido, que está fora de catálogo e documentários que nunca chegaram a ser vendidos. O meu afeto por aquele nanico, realizador de hollywood é tão grande que seu filme, Taxi Driver, se tornou tema da monografia.
Mas digo que Martin entrou na minha vida por acaso, desde o meu êxtase quando assisti à Cassino no cine Carioca. Uma breve história: quando a minha amiga e orientadora Alê, entramos numa cabine do CCBB para assistir à Deus e o Diabo Na Terra do Sol, lembro-me que estávamos perdidos ainda no que faríamos para que, em pleno Abril, conduziríamos o trabalho para ser apresentado em julho. O tema era sobre os cartazes dos filmes de Glauber Rocha, e, assim que entramos na sala de vídeo, ela me disse: “Fa, se a gente não conseguir material sobre cartazes, falamos sobre seus filmes”. Essa idéia já vinha na mente. Enquanto conversávamos antes de começar o filme, não faço idéia o porque das seqüências da CPI no filme O Aviador passar pela minha cabeça. Pensei: pena que os cartazes dos filmes do Scorsese não são tão expressivos como os de Glauber. Quando começou a cena inicial de Deus..., olhei para a Alessandra com um penar no rosto por vê-la ali e ter que assistir ao filme. Ela havia passado por um perrengue na prova da Multirio, pois não havia acertado uma questão, ao qual foi eliminada. Na cena, magistralmente dirigida pelo Glauber – hoje eu penso nessa palavra: “magistralmente” – em que um padre fanático sacrifica uma criança, ela fechava os olhos como assistisse um filme de terror. Me deu vontade de tirar ela dali imediatamente. O filme acabou e ela, evidentemente, estava aterrorizada com o filme, e mesmo assim, ela disse: “Fafas, continua com a pesquisa do cartaz, mas pense nesse lance de falar dos filmes como plano B”. Há uma coisa que eu gosto na Alê é que ela jamais foi dessas pessoas que precisam ser feliz se a pessoa do lado está. Ela já tem a felicidade embutida. E a perseverança também. O que foi fundamental para mim naquela hora. Foi um alívio perceber isso naquela momento. Comprei Taxi Driver no Sábado daquela semana, o assisti no domingo e fiquei impressionado como aquilo daria caldo e corri até o laboratório de informática, onde ela dava aula para uma turma de Desenho Industrial, e disse: “Alê, já sei qual vai ser o nosso trabalho! Vamos fazer sobre o filme Taxi Driver do Scorsese, vai ser um sucesso, já tenho esses tópicos e vamos fazer assim, assim e assim”. Ela viu meu entusiasmo imediatamente e se empolgou comigo e decidimos seguir com o trabalho.
Lembro que naquele ano de 2005, me afundei tanto no trabalho, que me tornei Travis Bickle. Eu era Travis em tudo: na forma de andar, de pensar, de ver as coisas e as pessoas. Obviamente, não era exatamente como ele, porque se não já seria clinicamente doente. Mas já observava a sociedade de uma outra forma, com certeza. Quando já tinha o todo o trabalho pronto e tê-lo apresentado, continuei a pesquisar a vida de Scorsese. Como era parecida com a minha! São muitas coincidências.
O perfeccionismo de Martin se entranham em mim quando nunca estou satisfeito do trabalho, mesmo sendo elogiado. Geralmente me aproximo do que eu quero e para não adoecer naquilo, solto imediatamente, porque sei que mexendo mais, ninguém vai ver o que eu fiz. Foi assim em A Época da Inocência quando Martin ficou um ano editando e depois mais seis, quando não esteve satisfeito com o resultado. Foi assim comigo em “Homens da Rua São Januário”, que acabei de escrever em novembro de 2006 e só mostrei à alguém ontem, em maio de 2007. Depois de ter acabado Quem Bate à Minha Porta, Martin estava em crise no casamento e depressivo por não conseguir filmar nada. Estava assim quando meus projetos se afundaram. Martin e seu colega de classe, Martik Martin, ficavam dentro de um carro no meio da noite, planejando seus projetos e tentando fazer de tudo para um lugar ao sol nos meios cinematográficos. Assim como eu e o Tadeu ficamos quando sentamos em um banco em frente a um colégio público planejando até hoje, dando grandes goles numa cerveja e sonhado com A Boneca. Um grande amor pode me desabar. Foi assim com Martin quando terminou seu casamento com a bela Isabella Rosselini (com a Isabella, eu também ficaria muito triste). Ambos tem a saúde debilitada e andam com remédios pra cima e pra baixo, e somos apelidados de Farmácia. Ambos são católicos. Embora ele tenha sonhado na vida ser padre um dia. Somos muito incompreensíveis e hiperativos. Somos frustrados por não nos tornado músicos e abrimos as janelas todas as manhãs imaginando uma música. Fãs de Dylan e Rolling Stones. Não cansamos nem um minuto e temos crises de ansiedade. Somos de escorpião. É coincidência ou eu me tornei Martin Scorsese?
Quando Marty acabou New York, New York, ficou extremamente desacreditado e sentido por não ter feito sucesso com algo de que ele esperava tanto reconhecimento. Aquilo o frustrou e passou por dois anos e meio em crise, de 76 a 78, acabado. Quase cabalisticamente, de 2005 a 2007 passo por uma certa crise que uma hora sabia que ia estourar. Nada o fazia animar. O que mais o deixava apreensivo era o desentusiasmo pelo cinema que ia e vinha. Não sabia de onde vinha. E para quem está comigo nos últimos meses, sabe que tenho passado por isso. Ele não sabia o que fazer da vida, depois que a crise passasse. Nem eu. Precisou de De Niro, no dia do trabalho, convencê-lo em fazer Touro Indomável com ele. No mesmo feriado, ninguém me apresentou trabalho nenhum. Mas li algo no jornal que me identifiquei, da mesma forma que ele se identificou com La Motta, que me animou. O que algo podia terminar com seu sonho e entusiasmo, o glorificou novamente. E melhor: trouxe novamente o tesão pelo seu único amor: o cinema. Claro que isso não vai vir pra mim de uma hora pra outra, é gradual. Tenho um grande exemplo a seguir.
Martin cresceu num dos piores lugares de Nova York, cidade que te esmaga em um só minuto. Eu cresci em São Cristovão, um dos lugares mais temidos do Rio de Janeiro. Nova York/Rio de Janeiro. Cidades queridas que espalham escórias para todo os lados. Scorsese andava e parava nas ruas com seu grupo de amigos fiéis. Boêmios e introspectivos, não ligavam para o que viam nas ruas. Tenho amigos fiéis, em que andamos pelas ruas de São Cristovão de madrugada, sabemos nos defender, mesmo se for para entrar numa briga ou para assisti-la a uma. “A garrafa está vazia”, Rafael sabe muito bem do que eu estou falando. Para quem viu Caminhos Perigosos, os personagens de Harvey Keitel e De Niro, andam pelo cemitério. E logo me veio a mente eu e o Rafael quando andamos pelo cemitério do Cajú para pegar o ônibus para a zona sul. Nos bares, olhando as garotas, bebendo, fumando e rindo. Quando me dou conta me lembro dos filmes de Scorsese. Nós cinco (Eu, Rafael, Tadeu, Marcelo – embora o último esteja sumido nesse circuito - e Alexandre) somos integrantes desses homens tirado de Quem Bate À Minha Porta?, Caminhos Perigosos e Os Bons Companheiros.
Houve uma importância tão grande quando um entrou na vida do outro. Parece que eu me encontrei em mim mesmo. Percebi que sou essa “pedra errante”, que tanto Bob Dylan diz. Scorsese há pouco passou por algo que tanto sonhara na vida: ganhou o Oscar. E eu estive na frente da TV vendo aquele velhinho se levantando emocionado. Eu me emocionei com ele, provavelmente a Rosi não percebeu ao telefone comigo na hora como eu estava feliz. Dia seguinte eu recebia mensagens no celular, no orkut e ligações de pessoas me dando parabéns. Parecia que eu havia ganho o prêmio!
Eu geralmente troco de ídolos. O que o próprio Dylan disse, que é inevitável isso acontecer para quem faz arte e procura todo o tempo informação. Mas até hoje o velho Dylan não se esqueceu de Woody Guthie. E eu também nunca vou me esquecer do Scorsese.
Teriam uns quatro posts para falar de Martin, uma hora volto a falar dele, com certeza. Mas não vou ser chato suficiente para dizer dele. Creio que eu deixei claro o meu afeto pelo ítalo-americano (sou luso-brasileiro) pelo velho atirador de telefones (também um dos meus esportes prediletos). Nunca vou me cansar dele, porque eu sou ele. Um título que ninguém me tira. Para quem me conhecer, assista aos seus filmes. Ou entrando no mesmo espírito do apelido que Tadeu me deu: Scorsese dos pobres.
Fabrício Alves.
Postado por Fabrício Alves às 12:27 6 comentários
