sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Estou nas minhas próprias linhas



Todas as vezes em que as pessoas lêem um roteiro meu, sempre me perguntam se eu sou o protagonista. Dizem que eu sou o personagem em todos os aspectos. Ora, se sou eu quem disponho todo o turbilhão de sentimentos naquilo, é fato eu ser o protagonista. Não há como conhecer os meus personagens sem estar dentro deles. Sou o tipo em que entro no personagem durante dias. Ajo da mesma forma, bebo café da mesma maneira, ando na mesma linearidade, e, dependendo do caso, sem querer mudo a mesma forma de falar. E quando acabo de escrever um vão de mal humor atinge meu coração e posso ficar dias assim. Mas, pra dizer a verdade, creio que eu seja todos eles. Até o vilão da história. Escrever é isso: um investimento de sentimento enorme. Desgasta mentalmente e fisicamente.
Geralmente os personagens que são meu espelho são os mais não-convencionais. Paranóicos, autodestruitivos, contentes com a vida, buscando paz e brigões. Odeiam dias chuvosos e ficam apreensivos quando chega o entardecer, como em uma mudança da lua. São cheios de manias, bebem e fumam o tempo todo, experimentam drogas e são bem resolvidos nesse ponto. Isso tudo pode ser demais de mim. Não sou tão autodestruitivo como me descrevo. Quando falo para alguém que estou escrevendo um personagem sobre tal pessoa, elas acham que vou descrevê-las Tim Tim por Tim Tim. Não. Eu procuro penetrar na alma da pessoa e ficar se perguntando o que, de acordo com sua personalidade, faria naquela situação. Não sou Deus pra dizer o que faria nessas situações, mas sim o que eu faria se tivesse em suas personalidades.
Gosto de brincar de bandido e polícia com meus inimigos pessoais. Geralmente sou o bandido. O meu bandido é apenas paranóico e procura o melhor para sua vida. Enquanto a polícia é certinha e falsa moralista. É assim que eu vejo meus inimigos. Oradores de igrejas, homens de família e casadinhos. Enquanto sou o cara que xingo Deus por tratá-lo como amigo repugnante e um solteiro que gosta de ter várias mulheres. É assim que somos. Uma vez disse aqui que sou o Leonardo Di Caprio de Os Infiltrados e não o de Titanic. Sou mais sincero e vulnerável que as pessoas pensam. Não gosto de ser o herói, e sim de ser o cara mais normal. Não sou muito fã dos personagens fazedores de tipo, já que todos pecamos.
Se um dia escrever um roteiro sobre Jesus Cristo ele vai ser deprimido e cheio de dúvidas. Porque é assim que somos. E quando ele vai descobrir o poder que tem, vai estar egocêntrico e assustado consigo. É assim que acabamos ficando quando temos confiança demais e quando todos nos vangloriam. Um Jesus Cristo que dê para nós sentarmos num bar e conversarmos.
Hoje estou fascinado por dois personagens reais.
Uma é a Amy Winehouse e o outro é o Eric Clapton. Dois ingleses, dois músicos, que ambos são fãs da música negra e que são a conjugação dos verbos presente e passado se tratando de seus respectivos problemas. A Amy a acompanho desde julho desse ano. Uma grande matéria no O Globo me deixou fascinado pela falsa estrela passional e apaixonada. De personagem forte, Amy não é a fazedora de tipo, como Britney Spears ou Cristina Aguilera. Ela está mais para uma Billie Hollyday. Talvez ela foi quem chegou mais perto da Billie até hoje. O Eric lançou uma autobiografia esse ano. Li sua biografia escrita pelo Michael Shumacher há pouco tempo e fiquei impressionado (mesmo pelo excesso de juízo de valor que o autor apresenta no livro) como um ser humano chega à um nível da vida, onde não há mais saída. Na autobiografia ele dizia que passava noites sentado na poltrona, viajando de heroína, olhando para uma garrafa de bebida alcoólica e uma espingarda planejando se matar. Como ele foi, e ainda é, um artista talentoso, talvez tenha sido salvo por isso. Os artistas precisam estar fazendo bons trabalhos como refúgio.
As biografias para mim servem como livros de auto-ajuda. Já me aliviou demais os pensamentos de Scorsese, Bob Dylan e Dostoievski. E, por isso, me tornei roteirista sério devido a eles. Essas pessoas sabem te mostrar o excesso da vida e de te deixar mergulhar no mais obscuro lugar de suas almas. É uma hora para parar e repensar na vida. Nunca passei o que o Clapton passou, mas sei o que é chegar no subterrâneo da alma.
E quando as pessoas me perguntam o que eu faço para me curar, jogo tudo para o meu trabalho. Se eu fosse um engenheiro, certamente estaria em frente a uma grande máquina gigante para suprir meus sentimentos. É isso que a gente faz quando não temos nada no momento: despejamos o nosso pior para o melhor que fazemos. No meu caso, arte.