segunda-feira, 28 de maio de 2007

Voyerismo e Julgamento é um casal pervertido.

Na Sexta conversava com um casal amigo, Álvaro e a Camila – a famosa reunião dos carcamanos – nada melhor que sentar num bar em um dia sagrado pelos cariocas, condenado pela chuva e frio. Não queria estar em nenhum lugar a não ser ali, com eles, retomando àquelas antigas conversas, antigas piadas e costurando novos acontecimentos. Foi como se estivesse voltando para casa, depois de uma excursão no Tibet. Afinal, desde janeiro ou fevereiro que eu não via a Camila, nem conversava com a mesma intensidade com o mestre Álvaro

Foi aí que o post abaixo, sobre mudanças, fazia mais sentido. Não, não vou retornar à esse assunto. E sim como as coisas se tornam imprevisíveis. Durante toda a nossa conversa foi reflexo de como estávamos angustiados e cansados de decepções. Vimos como as pessoas que estão perto de você pode ser mais perigosas que imagina. Você, literalmente, pode dormir com o inimigo, levar café na cama pra ele e levar uma naipe nas costas como nos filmes de Charles Bronson.

Eu ainda não sei até onde vai a cabeça das pessoas, mas é bem complexa, digno de estudos. Estou começando a achar que a psicologia/psiquiatria/terapia/treparia são talvez os estudos mais importantes das faculdades. Enquanto conversava com eles, a minha cabeça voava para os meus planos do fim de semana: estuda uma apostila de 200 páginas, assistir a Era Uma Vez No Oeste de novo e visitar a minha tia. Devo admitir que só a visita, que estava programada para ser feita no sábado, foi feita no domingo. Enquanto eu atravessava a ponte na Presidente Vargas com meu pai, avistava um bando de senhoras no ponto. Parecia a excursão de um Woodstock católico, com beatas doidonas e seus artigos chapadões como a água benta nas mãos. Eu desci e elas continuavam ali, rindo e falando de doenças como os jovens da década de 60 comentasse do novo álbum do Joe Cocker. Eu e meu pai continuamos com a conversa da semana, que foi a derrota do Botafogo para o Figueirense, mas sem deixar de observar aquelas velhas que seguravam as maçãs para as Brancas de Neve (ou será Bela Adormecida?). O 217 chegou no ponto e esse grupo de velhas entraram conosco e sentaram-se no banco de trás rindo e falando sobre suas amigas, conhecidas e sobrinhos distantes que terão que operar no hospital do Andaraí. Descemos no ponto final acompanhados por esse bando e um casal xexelento que se roçavam no banco da frente, e fui comprar o meu cigarro. Precisava de um. Quando havia subido a gigantesca rampa do hospital, havia mais dessas velhas espalhadas em todo a frente do hospital, como bando de gangues. Deixei meu pai na fila da recepção para pegar as identificações e resolvi ir ao banheiro. É irreversível a situação do estado referente á saúde. Pessoas espalhadas pelos corredores em macas e seus nomes em papéis amarelados com fita durex nas paredes para identificar os doentes. Um grito ecoando no corredor de uma criança deixava o ambiente mais neurótico do que já é. O meu egoismo falou mais alto: “Vou acabar pegando uma infecção nessa porra”. Bem, até agora não tive sinal nenhum de doença. Me encontrei novamente com o meu pai e subimos para o oitavo andar aonde minha tia estava internada. Após meia hora pela procura do seu quarto, conseqüente ao péssimo atendimento, furei a palavra de “homem” do recepcionista e entrei nos quartos para achar a minha tia. E a encontrei. Eu e meu pai entramos, conversamos durante a meia hora que nos restavam. “Não quero assistir TV aqui, quero assistir em casa. Me tira dessa porra”, dizia a minha tia. Fomos embora e logo me toquei quando entrei nos quartos, quando via aquela corja de velhas no ponto de ônibus rezando com o terço nas mãos e espalhando água benta pelos quartos enquanto a família dos pacientes se sentiam esclusas entre ave-marias e pai-nossos. Pensei: até onde vai o Voyerismo das pessoas? Qual será a ereção na medida de pessoas que gostam de ver outras sofrerem? Para mim não muito diferente dos grandes públicos medievais ao ver criminosos sendo enforcados e bruxas queimadas.

Talvez esses enforcados e carbonizados sejam vítimas desses grandes senhores feudais e bispos das igrejas. Ou seja, nós. Será que eu sou bom o suficiente em comparação a essas pessoas? Talvez elas estejam sendo melhores do que eu, rezando por alguém não tão próximo e eu apenas estive assistindo àquelas pessoas perfuradas em soros e deitadas em seu leito. Talvez, não sei.

E se tratando de julgamento vejo muitos exemplos; o amigo meu, o Tadeu, sofre por julgamentos diários, que não cabe aqui dizer quais são, mas eu sei que muitos estão errados. Já passou pela minha cabeça julgá-lo também, ele sabe disso. O julgamento é mais fácil de ser feito do que o voyerismo. Eu mesmo, nessa semana cansei de escutar: “Fabrício, você não sabe o que quer.” Ora, se você sabe tanto o que eu não sei o que eu quero, talvez saiba que eu sei o que eu quero! Eu sei tanto o que eu realmente quero, assim como eu sei que gosto de mulher. O gosto dos meus sonhos estão tão perto como o gosto das mulheres. Se sou bem resolvido como homem, graças à Deus, sou bem resolvido do que realmente quero. Não restam dúvidas disso. Pra dizer a verdade, nem na minha adolescência, passou por mim a dúvida. E voltando ao papo de Sexta, durante aquele gourjão de frango que escorregava no meu prato, comentei sobre pessoas que vivem me sondando. São dois fatos das pessoas quererem te sondar: ou deseja algo que ainda não teve e quer conseguir através de alguma informação sua ou pretende escrever um livro sobre uma vida normal. Para quem lê esse texto, sabe que eu tenho ojeriza à pessoas que jogam verde, querendo colar informações suas. O fato de eu ser jornalista não significa que devo ser jornalista à todo o tempo. Sentia falta da velha reunião dos carcamanos. Dos chopps, da velha piada do São Jorge, dos aperitivos gordurosos, das risadas profundas e dos mesmo assuntos incansáveis.

E para quem reclamar que isso é nostalgia, digo uma coisa: só se tem nostalgia quem tem algo para contar.Abraço.
P.S. E se tratando do texto, vou homenagear o Tadeu com a música do Lobão. Ele vai entender. rs.

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Gostei dos comentários do texto “Essência não muda. Mas problemas e pessoas sim.”. Se tornaram contraditórios sobre o texto e dos outros comentários. Essa é a essência do Bar.



Autópsia Cinematográfica

Bem, além dos textos que vocês estão habituados a ler, trarei mais uma sessão: Autópsia Cinematográfica. A intenção é indicar e resgatar filmes que geralmente as pessoas não viram ainda e nem passaram perto. Tentarei fazer listas de clássicos, filmes novos. Claro que, mesmo que o leitor não esteja de acordo com a lista, ou achem que estes filmes não sejam suficientemente assistível, terá, creio eu, uma nova visão deles. Bem, divirta-se e procurem não assistir ao lado de pessoas que falam: “filme maluco”, ou namoradas (os) que querem transar exatamente durante a exibição.
Claro que há filmes que vocês estão cansados de saber que existirão em listas, como o Cidadão Kane, mas há os filmes de Cassavetes e de Takashi que nem em DVD, até no momento, não estão à venda. Indico então ir à salas de exibição de vídeos. Por favor, podem me corrigir caso haja algo equivocado, a idéia também é a discussão deles.

Abraço.

The Shadow – John Cassavetes
Cinema de guerrilha. Este filme, feito em 1959 é até hoje, junto com Samuel Fuller, os deuses do cinema independente americano, quando os estúdios MGM e Warner imperavam o mercado. Cassavetes era corajoso se tratando de produções, dava soco em ponta de faca e fazia os filmes na base do prazer e entusiasmo. Ele buscava algum tipo de verdade, talvez mesmo uma “revelação”. Ele dizia que “Ter uma filosofia é saber como amar e saber onde colocar o amor.”. Os filmes de Cassavetes foram denominados por Coppola como épicos da alma humana. Não ligue para seus planos e técnicas. É estupidamente sem orçamento, cronograma e planejamento. Um grande ode de sensação de liberdade. Muitos closes à la John Ford e diálogos. O próprio Ford disse certa vez que filmar o rosto humano é a coisa mais interessante e empolgante que existe no mundo. Foi fundamental para os cineastas da American Zoetrope (produtora que fez surgir nomes como Coppola, George Lucas, Spielberg, Scorsese, De Palma) e cineastas independentes como Altman e Woddy Allen. Filme de seguimento punk: faça você mesmo um filme.

Barry Lyndon – Stanley Kubrick
Kubrick antes de ir para a Inglaterra nos presenteou com filmes como Dr. Fantástico, o Grande Golpe e "estreou" em blockbusters em grande estilo com Spartacus. Mas foi na ida para as ilhas britânicas que o mestre se estilizou e mostrou a verdadeira mente insana e pervertida e sua verdadeira criatividade. Não é à tóa que as pessoas quando pensam em Kubrick se lembram logo de Laranja Mecânica, 2001 Uma odisséia no Espaço. Mas o nome de cinema contrabando pode ser dado com mais ênfase quando ele lançou esse épico que fala de um cafajeste fracassado que narra a sua história durante a batalha da Inglaterra. Stanley Kubrick abriu novos caminhos tecológicos mandando fabricar lentes que captariam a verdadeira fotografia de um ambiente claustrofóbico e aberturas de diafragmas em grandes angulares que até então, te davam uma sensação de tédio e angustiada que faz o espectador penetrar na história mundana e comportamentos ritmado da época, numa espécie de transe.

Cidadão Kane – Orson Welles
Quando o diretor de fotografia Gregg Toland sentou-se com Orson Welles, lhe disse: fique aí, que vou te ensinar cinema em duas horas. E foi nesse tempo, que Welles se tornou um dos grandes iconoclastas (e não o mais) da história cinematográfica. Depois de passar por processos, prisões e linchamentos quando foi responsável pela morte de centenas de americanos narrando o conto A Guerra dos Mundos na rádio, ele se superou, acima de até cineastas consagrados, aquele jovem de 25 anos fez um dos filmes mais inspiradores e essenciais da história. Cidadão Kane é fundamental para alunos de comunicação, de direito, psicologia e de assíduos das cadeiras das CPIs afora. Weles, além de dirigir, simplesmente escreveu o roteiro, fez a iluinação, criou a trilha sonora, regeu a Orquestra, ajudou a desenhar os cenários, atuou e mexeu com a câmera de forma tão surpreendente que deixou boquiaberto seus colegas de profissão. Pena que a inveja de alguns colegas, alguns homens de terno da RKO queriam queimar os negativos e políticos se enfureceram com a tamanha identificação fizeram de tudo para não ter a propaganda necessária. Mais assim como Quentin Tarantino, teve o verdadeiro sucesso do merchadasing: a propaganda boca a boca. Nunca mais Welles, mesmo com Soberba, repetiu a mesma façanha de seu filme de estréia. Orson surgia assim com o cinejornal, pedindo para o então montador Robert Wise, arrastar a película num chão de concreto.

Os Infiltrados – Martin Scorsese
Não é à tóa que estou colocando um filme do Scorsese aqui. Seriam vários fatores para ligar o pisca alerta de vocês: por ser fã e pelo diretor ítalo-americano ter ganho o único Oscar de toda a sua carreira, que completa quase mais de 30 anos. Mas esse aqui, Os infiltrados é essencial para os novos estudantes por infinitos fatos. Primeiro pela análise ritímica do longa, inspirado pelo chines Infernal Affairs, onde o roterista William Monaghan deve que adaptar a realidade chinesa para a realidade americana, de Hong Kong para Boston. Embora os críticos foram rudes nesse ponto, não podemos dizer que a realidade paranóica americana não se adapta para a atual paranóia chinesa atual. Mas o fator positivo para este Scorsese, foi a bela obra de arte que a editora Thelma Schomaker, parceira de Martin desde Touro Indomável, aprontou. As imagens foram tão bem colocadas, que fez do filme, que podia ser arrastado e com cenas certinhas, com elas espalhadas. Um grande exemplo foi a contradição dos personagens de Matt Damon e Leonardo Di Caprio. Enquanto o policial bandido saía para jantar com a psicóloga, Vera Farmiga, o bandido policial engessava seu braço. Além do nível livre de improvisação, Thelma foi feliz novamente presenteada pelo Oscar.

King Kong – Peter Jackson
Muitos foram para o cinema confiante e sem arrependimento. Apesar de ser um filme que não atraía nem um pouco o público mais uma vez, o diretor de Almas Gêmeas e Senhor dos Anéis, está mais cotado que seus próprios ídolos, Spielberg e Lucas. O que se tem nesse remake do clássico de 1922 e depois, lamentavelmente filmado na década de 70 (que diga-se de passagem, apenas as pernas de Jessica Lange salvavam o filme), são os usos de efeitos visuais. Quando se trata de filmes de efeitos visuais e cenas de ação em Hollywood são explosões e prédios caindo sem necessidade. Jackson trouxe a mesma poesia e o singelo afeto da protagonista com a criatura desconhecida. Não foi burro suficiente em trazer a história para a época moderna e sim fez um épico, que deixou mais fiel e reinventado a obra-prima, situada em uma direção de arte esplêndida habitada na américa durante a Grande depressão. Apesar dos protagonistas - Jack Black extraordinário – estarem dignos de indicação ao Oscar, Peter foi o diretor mais presente em termos de grandes efeitos especiais exagerados. A frase de Lars Von Trier, pela primeira vez foi descartado por mim quando disse que “não se vê um diretor atrás de uma câmera e sim sentado em um computador”. Há dúvidas que a cena do Kong com Naomi Watts na pista de gela não vai se tornar uma das mais belas imagens desse século?

Audition – Takashi Miike
Takashi Miike não é apenas um diretor de cinema, mas sim um grande “fazedor” de filmes. O japonês é capaz de fazer vinte filmes por ano. Esse Audition foi feito em apenas, diz a lenda, em dois meses. Não me estranharia disso, já que o diretor mais hiperativo do mundo, construiu um filme como se fosse um disco de vinil: lado A e lado B. De primeira, parecia um filme de romance quando acompanhamos a vida de um diretor de cinema inseguro para fazer um novo filme e para o próximo amor. Após, achar uma atriz perfeita para a personagem durante a Audição, ele apaixona-se por aquela menina de olhar meigo e mais nova que ele, que lembrava a ex-esposa. O filme, de 75 minutos, aos poucos vai se tornando mais perturbador, até chegar num nível sádico e masoquista. Sem pudores, Miike, autor do clássico Ich the Killer, constrói um roteiro espetacular e intrigante, para fã nenhum de Tarantino por defeito e se mostrando um cineasta contrabandista que engana e conquista os produtores de terno.

THX 1138 – George Lucas
Todo mundo sabe que após os anos 60 e 70 foi a fase mais criativa e artística planetária e mudanças nos mundos mundanos de acadêmicos e empresários molengas. Enquanto a MGM e Warner mostravam-se monótonos, com filmes de romances filmados apenas em seus estúdios e diretores americanos, como Kubrick saíam do país para terem liberdade criativa, um grupo estudantes ousadas vieram para derrubar os paradigmas cinematográficas. Francis Ford Coppola e George Lucas se tornaram amigos inseparáveis quando o franzino criador de Star Wars foi trabalhar como assistente com o arrogante e excêntrico diretor de O Poderoso Chefão. Mas de uma coisa ninguém duvidaria: Francis era a única pessoa que podia salvar o novo cinema americano. Foi assim que ele pariu George Lucas criando a America Zoetrope. Como num Road- movie, aqueles jovens viajaram numa van e criaram o primeiro filme com a marca. THX foi um fracasso de público e crítica por ser indecifrável e nem um pouco popular. Cult, como um Blade Runner, THX 1138 trouxe um trunfo e reinvenção da engenharia de som. Artezanal e viajante, os barulhos dos bastões dos policias futuristas, das máquinas trabalhando, até das masturbações dos personagem fez desta ficção científica um grande marco do cinema independente.

O Vampiro – Carl T. Dreyer
Filme mudo e alemão sempre afastam os jovens. Além dos indies, fãs de The Shields que dançam de cabeça baixa nas pistas. Os góticos amam esse filme apenas pelo apreço do clima e das locações. Para os estudantes, esqueçam disso. Dreyer, em 1923, lançou o travelling e foi o primeiro diretor a se preocupar com a fotografia. A história, obviamente narrada por legendas, é extremamente intrigante até hoje. Juízos de valor à parte, Dreyer, junto com seu diretor de fotografia, que não me recordo o nome, descassetado, criou sombras como nos velhos teatros chineses e texturas sombrias para contar a história de um jovem descobrindo a lenda dos vampiros num vilarejo de uma cidade pequena alemã. A fotografia combina com personagens sombrios e closes bizarros que dá frio na espinha em até adultos. Para sempre.

Cães de Aluguel – Quentin Tarantino / Era Uma Vez No México – Robert Rodriguez

Quando se trata de Tarantino e Rodriguez temos que falar dos dois. Ainda mais na expectativa de Grindhouse nos cinemas brasileiros. Temos dois extremos nesses longas. O primeiro de tarantino, que sem ajuda de salas de aula, apenas escalou grandes atores, estudou os velhos filmes setentistas e clássicos como Os Bons Companheiros, fez o reverso deles e fez este clássico. Quentin só tinha duas coisas: apoio do produtor Lawrence Bander e do seu peculiar entusiasmo. Produzido e estrelado pelo ator Harvey Keitel, Quentin quebrou os filmes demondé de gangsters que circulavam nos circuitos de 1992, após Goodfellas ser respeitado pela academia e púbico.
Rodriguez estava desentusiasmado com seu Pequenos Espiões e não fazia idéia o que faria para seguir a carreira. Até seu amigo Tarantino convênce-lo que El Mariachi e A Balada do Pistoleiro fosse uma trilogia. Ele seguiu o conselho do amigo, que estava ocupado com seu Kill Bill e rapidamente escreveu o roteiro do músico mexicano. Não o bastante, após descobrir a câmera HD através do amigo George Lucas, aumentou seu filme e agora, além de cozinhar e editar, fotografar e dar piruetas durante toda a produção, o diretor passou a dar conferências e mudar a cabeça de novos e velhos cineastas. O que é fácil para ele, ainda ninguém conseguiu chegar ainda ao seu patamar pelo uso da câmera em locações de externas. Poucos são como eles que sabem usar a profundidade de campo e fotografias exemplares.

Patrulha Da Montanha – Lu Chuan
Continuo dizendo que o cinema asiático vem dando banho no cinema americano. Quem diria que Patrulha Da Montanha, esquecido por grandes revistas especialistas e passando batido pelo público, se torna um marco do cinema planetário. Fundindo ficção com documentário, o filme de 88 minutos, mostra a saga dos caçadores nas montanhas geladas da china, que, como fiscais do governo, cooperam contra outros caçadores ilegais de animais, que fazem parte do seu habitat, para não virarem casacos de madames comunistas. Patrulha da Montanha é sensível e poético. E deixa no chinelo documentários clichês, “americanos demais”, e campanhas de ex-candidatos à presidência da república.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Essência não muda. Mas problemas e pessoas sim.



Conversei há mais uma de uma semana sobre mudanças. A pessoa havia me falado dos seus problemas e eu havia comentado sobre os meus. É incrível como uma ponta de iceberg pode mudar todo o cenário, como uma grande equipe de contra-regras. Deus ás vezes é um contra-regra, que é obrigado a tirar um croma azul para um branco. Embranquece na nossa frente e passamos batidos delas. Tudo depende das nossas cabeças. Uma seqüência de sonhos reais, como Freud escreveu em A Interpretação dos Sonhos. As coisas passam na sua frente como um conjunto de 24 frames por segundos e não dá tempo de você perceber o que realmente aconteceu.
Estava no telefone com uma amiga no telefone ontem à noite e o assunto sobre mudanças foi à tona. Passamos por um mês de abril horrível – não acredito em inferno astral, mas que eles existem, existem – que chegava a implodir os corações que, de tão ferino, era como um soco no estômago, que nos faltavam ar. Quantos murros nas paredes tive que dar, que as minhas mãos por poucos não esmigalharam. Briguei com um cara qualquer de escritório de quase 1,80 de altura em plena Rua da Quitanda, e a minha raiva venceu a vontade física dele. Ia, e continuo indo, para um lugar indesejado onde me sentia/sinto preso. Naquele dia entrei pela porta e as pessoas me olharam como se eu havia saído de um ringue. Estava na cara que havia brigado? Uma pessoa chegou para mim e disse: você bateu em quantos hoje Fabrício? Olhei, sorri polidamente e fechei o rosto rapidinho. Saí da sala novamente e acendi um marlboro. Enquanto as nuvens de fumaça desenhavam nas luzes do corredor, o vento soprava meu rosto de tal forma liberdadora, como se estivesse avisando dos futuros acontecimentos. Das mudanças. "Preciso acabar com esse rótulo", eu disse. Foi o que eu sugeri a essa amiga minha, quantos citamos as mudanças que pelo que percebemos (eu tenho toda certeza delas) estão surgindo. O mais incrível que quando todos estão mudando o vírus se alastra para o cara do lado.
Neste indesejado lugar, eu era um cara procurado. Citavam até as minhas características. "Você precisa conhecê-lo", "O cara é incrível, engraçado, carismático", "O coração peludo." "O que é coração peludo?, Respondia o outro", "Ah, é um cara assim, assim, assim...". A minha sala parecia como um cordel de seguidores de Dalai Lama. Voltava de uma simples aula de merda e quando eu chegava na minha sala, haviam centenas de pessoas à minha espera. "É ele?". Eles me falavam que sabiam de mim, que eu era isso, isso, isso. Era terrível, ninguém sabe da minha vida, nem eu sei. Como alguém que nunca bebi nem um chopp vai saber? Parecia propaganda de terceira categoria:
- Use Fafas, te dá euforia e você dará boas gargalhadas. Lembre-se da larica depois.
- Compre a coleção de CDs Fafas, melodias e sucessos para toda a vida.
- Pasta de dente Fafas, refrescante e suave.
EM CASO DE CONTRA-INDICAÇÃO, CONSULTE SEU MÉDICO.
Precisei mudar. Fazer como Bob Dylan que inseriu instrumentos elétricos em pleno festival Folk. Aquele carisma e antipatia simpática simplesmente acabaram. Não adiantava fazerem macumba ou mantra que o monstro não voltaria dos mortos. Aquilo foi um baque para muitas pessoas que deixaram até de olharem para minha cara, que nem sequer me reconheceriam mais. Daria graças à Deus daquilo. Se fossem mesmo meus amigos, continuariam acampando no meu templo. Porque a principal essência continuava: a autenticidade. Que, me desculpem a modesta, é a minha principal virtude. É triste as pessoas usarem essa palavra. Dizer que "eu sou eu e mais ninguém". Um bando de cegos. Um corja de Templários e bispos da era romana. Foi quando o vento soprou novamente e alguém abriu a porta daquele lugar indesejado...
...a pessoa me disse: "escuta, aqui não é Candelária para ser independente. Você precisa ser mais político, garoto. Não pode sair na rua socando todo mundo, porque eles vão saber. Isso é ruim para alguma promoção sua.". Eu respondi: "Eu quero é que eles saibam". Sorri, continuei a jogar a fumaça nas luzes e não mudei nada desde aquele dia, porque seria a minha essência que estava em jogo.
Você não pode ser mais a mesma pessoa de ontem. Não se pode se prender a um passado. Quem diz que se prende a um passado é que quer continuar nele. Não é mais um simples prato de almoço ou desenhos na TV que vai trazer de volta o que aconteceu, a maldita magia. Hoje eu posso dizer que estou no zero a zero de tudo. Simplesmente tomo o rumo da minha vida, que até hoje foi aos trancos e barrancos e planejo a minha vida a todo o momento. Sei dos imprevistos que surgem. E coitado daqueles que não tem plano B, pois é pior do que não saber rezar um pai nosso, não sabe como se proteger sequer. Não há escudo contra problemas. Não é você que arruma os seus problemas, são eles que vão atrás de você. É como se estivesse surfando: uma onda pode ser um problema, mas você simplesmente sobe nela e a acompanha tentando a solução.
Mudanças não é tão bom assim, estaria mentindo. Até porque ás vezes ele pode acabar acompanhado de problemas. Mas será que você era feliz antes? Sua vida estava de acordo com o que você achava que tinha que ser? Não sei. Vai depender do seu problema e das mudanças que ocorreram. Eu costumo dizer que sou meio Wolverine, me recomponho rápido. A vida é assim. E você está vivendo exatamente pra passar por isso. Não viver em cima de problemas, até porque a vida não é um sistema de TV que tem que estar a toda hora resolvendo os malditos pepinos. Mas sim, uma programação de TV, onde há mudanças e soluções. O resultado, você vai ver, será bem melhor do que você não esperava.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

The Big Shave

Olá à todos.
Bem, como eu não fui fiel ao meu dead-line nessa semana aqui, no Bar, resolvi dar continuidade ao texto de Martin Scorsese. O curta que vocês virão, é The Big Shave, e foi rodado na europa, quando Martin foi premiado na Bélgica. Foi de lá que ele contrabandeou os rolos finais pra fazer "Quem Bate à Minha Porta?". Na época quando Scorsese estava deprimido, sentia dificuldades de se barbear. Por isso foi o efeito do curta. Bem, assistam e notem os planos e a escolha incindetal da trilha, pois isso percorreu durante toda sua carreira.
Abraço.



segunda-feira, 7 de maio de 2007

Vivendo No Limite (Lições de Vida de Martin Scorsese)



Todos que me conhecem sabem que eu tenho um carinho antigo por Martin Scorsese. Para mim, Scorsese, é o meu Hitchcock, Fellini e Kubrick ao mesmo tempo. Não digo que ele tem o poder do talento desses, nem que é melhor que os mestres citados acima. Mas falo com todas as letras que ele é a minha principal referência cinematográfica. Tenho todos seus filmes - exceto Boxcar Bertha, Sexy e Marginal como título traduzido, que está fora de catálogo e documentários que nunca chegaram a ser vendidos. O meu afeto por aquele nanico, realizador de hollywood é tão grande que seu filme, Taxi Driver, se tornou tema da monografia.
Mas digo que Martin entrou na minha vida por acaso, desde o meu êxtase quando assisti à Cassino no cine Carioca. Uma breve história: quando a minha amiga e orientadora Alê, entramos numa cabine do CCBB para assistir à Deus e o Diabo Na Terra do Sol, lembro-me que estávamos perdidos ainda no que faríamos para que, em pleno Abril, conduziríamos o trabalho para ser apresentado em julho. O tema era sobre os cartazes dos filmes de Glauber Rocha, e, assim que entramos na sala de vídeo, ela me disse: “Fa, se a gente não conseguir material sobre cartazes, falamos sobre seus filmes”. Essa idéia já vinha na mente. Enquanto conversávamos antes de começar o filme, não faço idéia o porque das seqüências da CPI no filme O Aviador passar pela minha cabeça. Pensei: pena que os cartazes dos filmes do Scorsese não são tão expressivos como os de Glauber. Quando começou a cena inicial de Deus..., olhei para a Alessandra com um penar no rosto por vê-la ali e ter que assistir ao filme. Ela havia passado por um perrengue na prova da Multirio, pois não havia acertado uma questão, ao qual foi eliminada. Na cena, magistralmente dirigida pelo Glauber – hoje eu penso nessa palavra: “magistralmente” – em que um padre fanático sacrifica uma criança, ela fechava os olhos como assistisse um filme de terror. Me deu vontade de tirar ela dali imediatamente. O filme acabou e ela, evidentemente, estava aterrorizada com o filme, e mesmo assim, ela disse: “Fafas, continua com a pesquisa do cartaz, mas pense nesse lance de falar dos filmes como plano B”. Há uma coisa que eu gosto na Alê é que ela jamais foi dessas pessoas que precisam ser feliz se a pessoa do lado está. Ela já tem a felicidade embutida. E a perseverança também. O que foi fundamental para mim naquela hora. Foi um alívio perceber isso naquela momento. Comprei Taxi Driver no Sábado daquela semana, o assisti no domingo e fiquei impressionado como aquilo daria caldo e corri até o laboratório de informática, onde ela dava aula para uma turma de Desenho Industrial, e disse: “Alê, já sei qual vai ser o nosso trabalho! Vamos fazer sobre o filme Taxi Driver do Scorsese, vai ser um sucesso, já tenho esses tópicos e vamos fazer assim, assim e assim”. Ela viu meu entusiasmo imediatamente e se empolgou comigo e decidimos seguir com o trabalho.
Lembro que naquele ano de 2005, me afundei tanto no trabalho, que me tornei Travis Bickle. Eu era Travis em tudo: na forma de andar, de pensar, de ver as coisas e as pessoas. Obviamente, não era exatamente como ele, porque se não já seria clinicamente doente. Mas já observava a sociedade de uma outra forma, com certeza. Quando já tinha o todo o trabalho pronto e tê-lo apresentado, continuei a pesquisar a vida de Scorsese. Como era parecida com a minha! São muitas coincidências.
O perfeccionismo de Martin se entranham em mim quando nunca estou satisfeito do trabalho, mesmo sendo elogiado. Geralmente me aproximo do que eu quero e para não adoecer naquilo, solto imediatamente, porque sei que mexendo mais, ninguém vai ver o que eu fiz. Foi assim em A Época da Inocência quando Martin ficou um ano editando e depois mais seis, quando não esteve satisfeito com o resultado. Foi assim comigo em “Homens da Rua São Januário”, que acabei de escrever em novembro de 2006 e só mostrei à alguém ontem, em maio de 2007. Depois de ter acabado Quem Bate à Minha Porta, Martin estava em crise no casamento e depressivo por não conseguir filmar nada. Estava assim quando meus projetos se afundaram. Martin e seu colega de classe, Martik Martin, ficavam dentro de um carro no meio da noite, planejando seus projetos e tentando fazer de tudo para um lugar ao sol nos meios cinematográficos. Assim como eu e o Tadeu ficamos quando sentamos em um banco em frente a um colégio público planejando até hoje, dando grandes goles numa cerveja e sonhado com A Boneca. Um grande amor pode me desabar. Foi assim com Martin quando terminou seu casamento com a bela Isabella Rosselini (com a Isabella, eu também ficaria muito triste). Ambos tem a saúde debilitada e andam com remédios pra cima e pra baixo, e somos apelidados de Farmácia. Ambos são católicos. Embora ele tenha sonhado na vida ser padre um dia. Somos muito incompreensíveis e hiperativos. Somos frustrados por não nos tornado músicos e abrimos as janelas todas as manhãs imaginando uma música. Fãs de Dylan e Rolling Stones. Não cansamos nem um minuto e temos crises de ansiedade. Somos de escorpião. É coincidência ou eu me tornei Martin Scorsese?
Quando Marty acabou New York, New York, ficou extremamente desacreditado e sentido por não ter feito sucesso com algo de que ele esperava tanto reconhecimento. Aquilo o frustrou e passou por dois anos e meio em crise, de 76 a 78, acabado. Quase cabalisticamente, de 2005 a 2007 passo por uma certa crise que uma hora sabia que ia estourar. Nada o fazia animar. O que mais o deixava apreensivo era o desentusiasmo pelo cinema que ia e vinha. Não sabia de onde vinha. E para quem está comigo nos últimos meses, sabe que tenho passado por isso. Ele não sabia o que fazer da vida, depois que a crise passasse. Nem eu. Precisou de De Niro, no dia do trabalho, convencê-lo em fazer Touro Indomável com ele. No mesmo feriado, ninguém me apresentou trabalho nenhum. Mas li algo no jornal que me identifiquei, da mesma forma que ele se identificou com La Motta, que me animou. O que algo podia terminar com seu sonho e entusiasmo, o glorificou novamente. E melhor: trouxe novamente o tesão pelo seu único amor: o cinema. Claro que isso não vai vir pra mim de uma hora pra outra, é gradual. Tenho um grande exemplo a seguir.
Martin cresceu num dos piores lugares de Nova York, cidade que te esmaga em um só minuto. Eu cresci em São Cristovão, um dos lugares mais temidos do Rio de Janeiro. Nova York/Rio de Janeiro. Cidades queridas que espalham escórias para todo os lados. Scorsese andava e parava nas ruas com seu grupo de amigos fiéis. Boêmios e introspectivos, não ligavam para o que viam nas ruas. Tenho amigos fiéis, em que andamos pelas ruas de São Cristovão de madrugada, sabemos nos defender, mesmo se for para entrar numa briga ou para assisti-la a uma. “A garrafa está vazia”, Rafael sabe muito bem do que eu estou falando. Para quem viu Caminhos Perigosos, os personagens de Harvey Keitel e De Niro, andam pelo cemitério. E logo me veio a mente eu e o Rafael quando andamos pelo cemitério do Cajú para pegar o ônibus para a zona sul. Nos bares, olhando as garotas, bebendo, fumando e rindo. Quando me dou conta me lembro dos filmes de Scorsese. Nós cinco (Eu, Rafael, Tadeu, Marcelo – embora o último esteja sumido nesse circuito - e Alexandre) somos integrantes desses homens tirado de Quem Bate À Minha Porta?, Caminhos Perigosos e Os Bons Companheiros.
Houve uma importância tão grande quando um entrou na vida do outro. Parece que eu me encontrei em mim mesmo. Percebi que sou essa “pedra errante”, que tanto Bob Dylan diz. Scorsese há pouco passou por algo que tanto sonhara na vida: ganhou o Oscar. E eu estive na frente da TV vendo aquele velhinho se levantando emocionado. Eu me emocionei com ele, provavelmente a Rosi não percebeu ao telefone comigo na hora como eu estava feliz. Dia seguinte eu recebia mensagens no celular, no orkut e ligações de pessoas me dando parabéns. Parecia que eu havia ganho o prêmio!
Eu geralmente troco de ídolos. O que o próprio Dylan disse, que é inevitável isso acontecer para quem faz arte e procura todo o tempo informação. Mas até hoje o velho Dylan não se esqueceu de Woody Guthie. E eu também nunca vou me esquecer do Scorsese.
Teriam uns quatro posts para falar de Martin, uma hora volto a falar dele, com certeza. Mas não vou ser chato suficiente para dizer dele. Creio que eu deixei claro o meu afeto pelo ítalo-americano (sou luso-brasileiro) pelo velho atirador de telefones (também um dos meus esportes prediletos). Nunca vou me cansar dele, porque eu sou ele. Um título que ninguém me tira. Para quem me conhecer, assista aos seus filmes. Ou entrando no mesmo espírito do apelido que Tadeu me deu: Scorsese dos pobres.

Fabrício Alves.