Todos que me conhecem sabem que eu tenho um carinho antigo por Martin Scorsese. Para mim, Scorsese, é o meu Hitchcock, Fellini e Kubrick ao mesmo tempo. Não digo que ele tem o poder do talento desses, nem que é melhor que os mestres citados acima. Mas falo com todas as letras que ele é a minha principal referência cinematográfica. Tenho todos seus filmes - exceto Boxcar Bertha, Sexy e Marginal como título traduzido, que está fora de catálogo e documentários que nunca chegaram a ser vendidos. O meu afeto por aquele nanico, realizador de hollywood é tão grande que seu filme, Taxi Driver, se tornou tema da monografia.
Mas digo que Martin entrou na minha vida por acaso, desde o meu êxtase quando assisti à Cassino no cine Carioca. Uma breve história: quando a minha amiga e orientadora Alê, entramos numa cabine do CCBB para assistir à Deus e o Diabo Na Terra do Sol, lembro-me que estávamos perdidos ainda no que faríamos para que, em pleno Abril, conduziríamos o trabalho para ser apresentado em julho. O tema era sobre os cartazes dos filmes de Glauber Rocha, e, assim que entramos na sala de vídeo, ela me disse: “Fa, se a gente não conseguir material sobre cartazes, falamos sobre seus filmes”. Essa idéia já vinha na mente. Enquanto conversávamos antes de começar o filme, não faço idéia o porque das seqüências da CPI no filme O Aviador passar pela minha cabeça. Pensei: pena que os cartazes dos filmes do Scorsese não são tão expressivos como os de Glauber. Quando começou a cena inicial de Deus..., olhei para a Alessandra com um penar no rosto por vê-la ali e ter que assistir ao filme. Ela havia passado por um perrengue na prova da Multirio, pois não havia acertado uma questão, ao qual foi eliminada. Na cena, magistralmente dirigida pelo Glauber – hoje eu penso nessa palavra: “magistralmente” – em que um padre fanático sacrifica uma criança, ela fechava os olhos como assistisse um filme de terror. Me deu vontade de tirar ela dali imediatamente. O filme acabou e ela, evidentemente, estava aterrorizada com o filme, e mesmo assim, ela disse: “Fafas, continua com a pesquisa do cartaz, mas pense nesse lance de falar dos filmes como plano B”. Há uma coisa que eu gosto na Alê é que ela jamais foi dessas pessoas que precisam ser feliz se a pessoa do lado está. Ela já tem a felicidade embutida. E a perseverança também. O que foi fundamental para mim naquela hora. Foi um alívio perceber isso naquela momento. Comprei Taxi Driver no Sábado daquela semana, o assisti no domingo e fiquei impressionado como aquilo daria caldo e corri até o laboratório de informática, onde ela dava aula para uma turma de Desenho Industrial, e disse: “Alê, já sei qual vai ser o nosso trabalho! Vamos fazer sobre o filme Taxi Driver do Scorsese, vai ser um sucesso, já tenho esses tópicos e vamos fazer assim, assim e assim”. Ela viu meu entusiasmo imediatamente e se empolgou comigo e decidimos seguir com o trabalho.
Lembro que naquele ano de 2005, me afundei tanto no trabalho, que me tornei Travis Bickle. Eu era Travis em tudo: na forma de andar, de pensar, de ver as coisas e as pessoas. Obviamente, não era exatamente como ele, porque se não já seria clinicamente doente. Mas já observava a sociedade de uma outra forma, com certeza. Quando já tinha o todo o trabalho pronto e tê-lo apresentado, continuei a pesquisar a vida de Scorsese. Como era parecida com a minha! São muitas coincidências.
O perfeccionismo de Martin se entranham em mim quando nunca estou satisfeito do trabalho, mesmo sendo elogiado. Geralmente me aproximo do que eu quero e para não adoecer naquilo, solto imediatamente, porque sei que mexendo mais, ninguém vai ver o que eu fiz. Foi assim em A Época da Inocência quando Martin ficou um ano editando e depois mais seis, quando não esteve satisfeito com o resultado. Foi assim comigo em “Homens da Rua São Januário”, que acabei de escrever em novembro de 2006 e só mostrei à alguém ontem, em maio de 2007. Depois de ter acabado Quem Bate à Minha Porta, Martin estava em crise no casamento e depressivo por não conseguir filmar nada. Estava assim quando meus projetos se afundaram. Martin e seu colega de classe, Martik Martin, ficavam dentro de um carro no meio da noite, planejando seus projetos e tentando fazer de tudo para um lugar ao sol nos meios cinematográficos. Assim como eu e o Tadeu ficamos quando sentamos em um banco em frente a um colégio público planejando até hoje, dando grandes goles numa cerveja e sonhado com A Boneca. Um grande amor pode me desabar. Foi assim com Martin quando terminou seu casamento com a bela Isabella Rosselini (com a Isabella, eu também ficaria muito triste). Ambos tem a saúde debilitada e andam com remédios pra cima e pra baixo, e somos apelidados de Farmácia. Ambos são católicos. Embora ele tenha sonhado na vida ser padre um dia. Somos muito incompreensíveis e hiperativos. Somos frustrados por não nos tornado músicos e abrimos as janelas todas as manhãs imaginando uma música. Fãs de Dylan e Rolling Stones. Não cansamos nem um minuto e temos crises de ansiedade. Somos de escorpião. É coincidência ou eu me tornei Martin Scorsese?
Quando Marty acabou New York, New York, ficou extremamente desacreditado e sentido por não ter feito sucesso com algo de que ele esperava tanto reconhecimento. Aquilo o frustrou e passou por dois anos e meio em crise, de 76 a 78, acabado. Quase cabalisticamente, de 2005 a 2007 passo por uma certa crise que uma hora sabia que ia estourar. Nada o fazia animar. O que mais o deixava apreensivo era o desentusiasmo pelo cinema que ia e vinha. Não sabia de onde vinha. E para quem está comigo nos últimos meses, sabe que tenho passado por isso. Ele não sabia o que fazer da vida, depois que a crise passasse. Nem eu. Precisou de De Niro, no dia do trabalho, convencê-lo em fazer Touro Indomável com ele. No mesmo feriado, ninguém me apresentou trabalho nenhum. Mas li algo no jornal que me identifiquei, da mesma forma que ele se identificou com La Motta, que me animou. O que algo podia terminar com seu sonho e entusiasmo, o glorificou novamente. E melhor: trouxe novamente o tesão pelo seu único amor: o cinema. Claro que isso não vai vir pra mim de uma hora pra outra, é gradual. Tenho um grande exemplo a seguir.
Martin cresceu num dos piores lugares de Nova York, cidade que te esmaga em um só minuto. Eu cresci em São Cristovão, um dos lugares mais temidos do Rio de Janeiro. Nova York/Rio de Janeiro. Cidades queridas que espalham escórias para todo os lados. Scorsese andava e parava nas ruas com seu grupo de amigos fiéis. Boêmios e introspectivos, não ligavam para o que viam nas ruas. Tenho amigos fiéis, em que andamos pelas ruas de São Cristovão de madrugada, sabemos nos defender, mesmo se for para entrar numa briga ou para assisti-la a uma. “A garrafa está vazia”, Rafael sabe muito bem do que eu estou falando. Para quem viu Caminhos Perigosos, os personagens de Harvey Keitel e De Niro, andam pelo cemitério. E logo me veio a mente eu e o Rafael quando andamos pelo cemitério do Cajú para pegar o ônibus para a zona sul. Nos bares, olhando as garotas, bebendo, fumando e rindo. Quando me dou conta me lembro dos filmes de Scorsese. Nós cinco (Eu, Rafael, Tadeu, Marcelo – embora o último esteja sumido nesse circuito - e Alexandre) somos integrantes desses homens tirado de Quem Bate À Minha Porta?, Caminhos Perigosos e Os Bons Companheiros.
Houve uma importância tão grande quando um entrou na vida do outro. Parece que eu me encontrei em mim mesmo. Percebi que sou essa “pedra errante”, que tanto Bob Dylan diz. Scorsese há pouco passou por algo que tanto sonhara na vida: ganhou o Oscar. E eu estive na frente da TV vendo aquele velhinho se levantando emocionado. Eu me emocionei com ele, provavelmente a Rosi não percebeu ao telefone comigo na hora como eu estava feliz. Dia seguinte eu recebia mensagens no celular, no orkut e ligações de pessoas me dando parabéns. Parecia que eu havia ganho o prêmio!
Eu geralmente troco de ídolos. O que o próprio Dylan disse, que é inevitável isso acontecer para quem faz arte e procura todo o tempo informação. Mas até hoje o velho Dylan não se esqueceu de Woody Guthie. E eu também nunca vou me esquecer do Scorsese.
Teriam uns quatro posts para falar de Martin, uma hora volto a falar dele, com certeza. Mas não vou ser chato suficiente para dizer dele. Creio que eu deixei claro o meu afeto pelo ítalo-americano (sou luso-brasileiro) pelo velho atirador de telefones (também um dos meus esportes prediletos). Nunca vou me cansar dele, porque eu sou ele. Um título que ninguém me tira. Para quem me conhecer, assista aos seus filmes. Ou entrando no mesmo espírito do apelido que Tadeu me deu: Scorsese dos pobres.
Fabrício Alves.
segunda-feira, 7 de maio de 2007
Vivendo No Limite (Lições de Vida de Martin Scorsese)
Postado por Fabrício Alves às 12:27
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6 Comments:
Scorsese dos pobres. Acho que não poderia ter pensado em nada melhor para te apelidar. Realmente vc é ele. Isso ninguem te tira. Nossa vc foi ao fundo do Bau com isso hem? Lembrou ate das nossas conversas em meio aos goles homericos de cerveja em frente ao colegio Sicero Pena na praia de copacabana. Tenho otimas lembraças naquele lugar e pode ter certeza de que nossas conversas são boa parte delas.
Meu amigo só posso dizer - continue assim, uma hora a gente chega lá.
Abraços pro Scorsese dos pobres.
Tadeu
Eu acho fascinante qualquer tipo de adoração, seja ela à elementos da natureza ou relacionada com algum grande diretor de cinema... Pelo menos você fez um projeto de pesquisa em cima disto - o que eu considero ótimo, de modo que o "fanatismo" foi usado para o bem.
Eu adoraria ler trechos de sua monografia sobre Taxi Driver, haja visto que este filme me remete à coisas que tenho vontade de fazer, mas não faço por conta da mera e feroz coerção social... rsrsrs
Abraços!
Gostei deste espaço e da quilometragem do texto. rsrs
E ai coração peludo...
Lembro-me de toda a saga da monografia, da escolha do tema, ajuda com os cartazes que nunca viraram nada e da apresentação com erros, ufa. hauhauahuah...
Toda vez que ouço sobre escorcese presto atenção, sei que vc esta prestando atenção também, e é um meio de lembrar os amigos, saber do que gostam, sempre que se lembra de algo nos conectamos com alguém, e isso é o legal, e isso é que nos dá alegria, amigos.
Que alias...
lembro que a sua apresentação da monografia foi o maximo de realização que eu tive, pois aquele povo safado não me deixou apresentar a minha....... Eu morrendo de comixão de vontade de apresentar minha pesquisa, falar sobre tudo que eu sabia. e ninguém para ouvir, minh amaior frustração da faculdade....
EU QUERO APRESENTAR...... Ser´aque aluém ai quer ouvir?????
Até mais revoltoso. (eu ando meio briguenta ultimamente) assim como briguei pela carterinha, briguei na biblioteca, briguei na tesouraria, agora to brigando até com caixa de banco. a mocinha do restaurante e a caixa do supermercado, sai da frente que lá vem a alessandra.
Bom te encontra por ets mundo virtual.paixao?legal.Amo bons filmes e alguns diretores.Scorse é ótimo.Vi o Taxi Drive(revejo)e é sempre uma paulada.O zistema nos enlouquece (o que é ser heroi ou louco?)paixão pelo amor ainda que possa esbarra no ódio.Sou o humano na sua tremenda,louca,fantica contradiçao.Tudo o que é transgressora a moralidade lodosa me fascina.Se esta transgressao provoca maudanças e escancara a nossa imbecilidade ,melhor ainda.E o amor(em suas expressoe)quando nao usado como artigo de consulo é ponto de mutaçao da alma e do corpo social.maluco por maluco o bom é ser maluca erótica.Eros libertador.
Aff!!! Artistas são excêntricos eu sei e vc não poderia fugir dessa linha né!?
Naquele dia percebi que vc ficou feliz, mas não toda a intensidade que pude comprovar depois de ler todo seu amor por Scorsese.
O que fala se não o obvio quando se tem talento e tesão naquilo que se faz?, siga enfrente, e que venha o proximo personagem em que vc entrera de cabeça.
bjs baixinho.
:P
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