Eu tinha meus nove anos quando ganhei meu primeiro rádio. Ficava ansiosamente aguardando tocar "Patience" e "Swet Child O’ Mine " do Guns N’ Roses e as desventuras de Mike Patton e seu Faith No More. Era muito novo e estranho para um garoto de bairro esperar tocar essas músicas e lixar para News Kids On The Block. Sentava na banca do seu Humberto, um italiano que bebia a todo o tempo, lendo quadrinhos do Homem-aranha e revistas de cinema. Nunca conseguia parar em uma estação. Todas tinham a mesma magia, com exceção das que tocavam músicas de novela, as chamadas rádio populares. Na época existia a RPC, Transamérica e a rádio Cidade. A Transamérica por pouco não faliu, a RPC se tornou FM O Dia, a rádio Cidade, Oi FM. Mas a audiência das rádios era disputada pela Imprensa FM e a Manchete FM, com o programa da Furacão 2000, coincidentemente tocavam nos mesmos horários. Era de se esperar que eu ia passar longe disso.
Havia uma disputa de troca de estação. Cada grupo nas ruas escutavam determinada estação, de acordo com a personalidade deles. Eu era a da rádio Fluminense, claro. Na época, a Moniquinha (essa mesma, a da 98), pirava todos os amantes do rock. Tinha dez anos quando escutei Echo & The Bunnimen e os Beatles tocando "Dont Let Me Down". Gostava, mas não dava importância, pois eu queria ouvir eram os solos de bateria do Bohan do Led Zeppelin, a guitarra furiosa de "Paranoid" de Tommy Lee e a farofada do Guns, Skid Row, Poison e por aí vai.
A MTV foi a minha rádio televisiva. Fazia os trabalho do colégio, com o canal 9 ligado. Na época, a Cuca apresentava o Dont Stop e tocava o pior da música mundial. Assistia porque a achava gostosa. Depois da Angélica, ela foi a minha segunda fantasia sexual. A via todos os dias, perdia os sentidos e prendia a respiração quando a assistia naquela caixa velha da Philips, que ainda tinham seletores. Bem, quase repeti a quarta série por causa disso. Mas não era só a Cuca que fazia a minha cabeça, e sim, o programa do Gastão, o Fúria Total (ou Fúria Metal? Quem souber, me corrige). Não ficava um dia sem escutar Public Enemy, o Aerosmith tocando "Love Is A Elevator", o Antrhax e aquela cabeleira horrível, e, claro o Iggy Pop com a Kathy Pierson cantando "Candy".
A MTV mudou sim, meu modo de ser, de agir, como as criancinhas que assistiam a Xuxa. Enquanto gente da minha idade torcia para as crianças pobres na Porta dos Desesperados do Sérgio Malandro, eu via o Nirvana surgir. Enquanto dançavam "Vou de Táxi" da Angélica (ah, Angélica...), eu via o R.E.M. perdendo a religião. Ia aos cinemas assistir Justiça Cega, enquanto as crianças da minha idade iam ver Lua de Cristal.
Mas, bem, a MTV se mudou para o canal VHS 24 e não pude mais ver. Não fez falta, porque ganhei um três-em-um, e vi o tempo que perdi não escutando mais rádio. Quanto tempo perdi assistindo à clipes! Esqueci do principal propósito: a música. Fui imediatamente para a 94,9 e sintonizei na Fluminense. Uns doidões estavam surgindo. Pearl Jam, Soundgarden, L7, Stone Temple Pilots e o Temple Of The Dog.
Sentava no sofá e o Motorhead invadia a minha casa, o Pantera acabavam com o ouvido dos vizinhos. Era a exata Fluminense. Confesso que fui mais feliz ali. Eu estava apenas admirado pelas imagens e a MTV não me fez falta até hoje. Se hoje, eu quero fazer cinema, foi devido da formação de imagens na minha mente e a música é o fio condutor disso. Convenhamos que uma imagem propriamente pronta, transforma seu cérebro preguiçoso e sem criatividade. E a magia da rádio é exatamente essa. Formar imagens na sua cabeça. Que é exatamente isso que falta aos jovens hoje.
Não vejo nenhum desses jovens sentar religiosamente numa cadeira, ligar o rádio maquele horário e esperar ouvir o seu programa de rádio favorito. Pra dizer a verdade, nem há estação predileta para o público. Colocamos uma série de empecilhos: a internet e o número de rádios religiosas. Não vejo a internet como um problema nessa situação, mas uma solução e tanto. As emissoras evangélicas não está apenas nas rádios, mas na TV também. Além do fato, de que ainda existam maior número de rádios não-religiosas. Ainda.
As rádios Evangélicas viu como um ótimo plano e estratégia de, não apenas tentar pescar novos seguidores, mas também alimentar a idéia de fé nas pessoas que lá já estão. Mas seria arrogância da minha parte em dizer que é apenas os evangélicos aumentaram novos clientes e comércio, mas os católicos e Kardecistas também. E isso é gritante! O Padre Marcelo Rossi tem uma das maiores audiências da rádio hoje, com o programa "Momento de Fé". Os Kardecistas, coitados, tem a rádio Rio de Janeiro, quase caindo aos pedaços. Lembrando: sou católico, mas enquanto os seguidores de Papas e Bispos se reestruturam, pessoas de boa fé, como a Rádio Rio de Janeiro se afundam, sem patrocínio e falta de pagamento. E esses Kardecistas tem o concorrente maior que os católicos e evangélicos: os próprios Kardecistas. As revistas Espíritas lançam matérias absurdas, dizendo que espíritos de Che Guevara, Fred Asteire e Mickey Mouse apareceram e lançaram mensagens. Isso destrói a fé e a seriedade, da mesma forma que nós católicos temos vergonha de Padres Pops. Mas isso, já é outra história.
Como disse antes, a internet veio para solucionar o caso das rádios. Como a Rádio Livre por exemplo, que é feita toda em Podcast, arquivo em MP3 (ou outra extensão) que permite o usuário baixar e ouvir o resto da vida. O Podcast, permite o usuário a escutar programas de rádio de Blues à debates políticos. Mas ainda está em reforma, depois que os espertinhos meteram o bedelho em direitos autorais.
O Streaming também é uma solução. Usado muito hoje pela Oi Fm. A Usina do Som foi a pioneira do Streaming, em que permitia escutar discos e programas acessando seu site. Mas os direitos autorais bateu em cima da Usina e hoje, como em tudo no Brasil, perdemos uma ferramenta importante.
Talvez eu seja um romântico à moda antiga se tratando disso, mas não trocaria as minha terças de 22:00 às 00:00, enquanto escuto o programo do Maurício Valladares, o Ronca Ronca, a quem escuto desde 1998, desde a Imprensa FM. Os domingos se torna vazio para mim, quando, das 22:00 às 23:00, escuto o Françamente. E os sábados de 14:00 às 15:00 sem o Danilo Lobo te dar lição de trilhas sonoras de cinema na Roquete Pinto.
Tudo isso, é realmente muito bonito, mas creio que a magia da rádio pode ir ralo abaixo, quando a rádio se tornar mais um novo acessório de museu. Para muitos, isso já está aconteceu. Não creio nisso. Acredito em mais uma nova reforma e a rádio se fortalecer mais. A tecnologia existe para isso: restabelecer as coisas mais importantes, adaptando para os novos tempos. Abraço.
Segue abaixo, sites que valem a pena escutar.
http://www.xmradio.com/bobdylan