Entrei há pouco tempo na sala de aula totalmente apagado. Tinha ido na despedida de uma amiga na quinta-feira e na sexta de manhã ainda estava sob o efeito do álcool. A professora falava de arquétipos e eu prestava a atenção como um neto escutando as aventuras do seu avô. Nem cumprimentei a minha única atual amiga da faculdade, porque não a reconheci e ainda prestava atenção na Betty Boo tatuada na virilha de uma garota da sala. Ela tinha cabelos ruivos, usava uma roupa cult e me lançava um olhar do tipo: “Te conheço”. Provavelmente deve ter me reconhecido de alguma festinha de rock. Ás vezes me sinto um Jack Sparrow na minha turma da faculdade. Um capitão beberrão, que já teve várias conquistas na vida pessoal e hoje ninguém o respeita e o subestima. Quando solto minha bandeira, mostro meu barco e grito, aos soluços de quem você é, as pessoas me olham com desdém. Preciso de um Orlando Bloom e, principalmete, uma Keira Nightley. Bem, pouco me importa.
Atualmente faço publicidade, com o único intuito de ganhar dinheiro e conseguir estágio. Não faço muita questão de onde estou. O meu professor de quinta-feira nem se lembra de mim quando tiro os óculos. E com razão. Durante seis meses não lembro de nada do que me falou, e ainda fiquei com dez e seis. Já passei na sua matéria. No mesmo dia, tenho aula em seguida. Fazemos uma arte nos Mac (nada demais, só uns G3 antigos) da agência e concluímos até onde podemos. Também já passei. Talvez as aulas mais significativas para mim são as de Sexta e Segunda. A professora de Sexta é a mesma a da Quinta na agência, uma pessoa e profissional ótima que merece total respeito. Sonho um dia dela fazer a direção de arte dos meus filmes por ter notado na sutileza e nas conversas viajandonas que tivemos quando almoçamos. Na Segunda é a que me dá mais prazer. O professor é ligado em cinema e ainda me dá carona. Pensa muito parecido comigo e me dá conselhos sobre minha carreira profissional, além de falarmos de deficiências acadêmicas, trânsito, artes e futebol. Entreguei hoje a ele um roteiro meu. E me esqueci completamente de perguntar o que achou do comercial que fizemos no último trabalho.
Bem, quem se importa. Jack Sparrow não está nem aí para os inimigos, bebe seu rum e se imagina conversando com três, quatro, setecentos deles ao mesmo tempo. É assim que eu faço quando as garotas – ah, as garotas – conversam sobre trabalhos, estágios no marketing e novas linhas de produtos femininos. Só acordo com os estalos da Andrea repetidos com as frases: “acorda tarado!”. Ela é a única pessoa em que fiz amizade nesse período. Fazemos trabalho juntos, dou conselhos a ela sobre namorados e pede conselhos também a vida profissional e pessoal e raramente pergunta sobre a minha vida. É uma boa pessoa. Hoje, falei com ela no telefone de um cidadão, que mais parece um Fernando Pessoa embalsamado. “Eu não assinei a pauta!” e eu respondia, “Bom dia”. Pra dizer a verdade o grupo é bem esquisito: A Andrea, que é a pessoa de responsabilidade, um homi, que tem cara de sexta-feira, uma lourinha que protesta tudo, da qual eu arrasto uma asa pra ela (afinal, sou homem) e eu. O resto da turma é; um casal xexelento que se amassam durante a aula, outro casal xexelento em que a menina tira as espinhas do rosto do outro gordo, outro casal xexelento que brincam de cama de gato, uma falastrona, um falastrão, um mala que parece um papagaio, um caladão com um semblante estranho e parece que saiu de um dos filmes do David Fincher, um metido à bonitão romântico, que, como diria o Haruki, mija elegantemente, uma menina que só usa roupas de vôlei com a marca Nike, um retardado que usa boné pra trás e ri desesperadamente, algumas patys de subúrbio que franze a testa quando as observam e eu. E eu? O que eu tô fazendo ali?
Foi no final do período que eu vi a minha incompatibilidade a essas pessoas. Não me acho superior a eles. Nunca, nunca pensei assim. Sou justo, até porque já passei por isso. E se eu já passei por isso, não tem necessidade de passar de novo não é? É. Não tem.
Há semanas atrás tomei café com um professor do jornalismo e umas duas alunas dele, com ares estranhos e excêntrico se aproximou da gente. Conversamos sobre restaurantes e ficamos abismados com a mentalidade dos nossos colegas. Enquanto eu conversava com uma delas, me bateu uma saudade dos velhos amigos da faculdade. Talvez eu teria feito amizade com elas.
Foi quando Sparrow entrou no bar, pediu seu rum e entrou no navio. Levantou a bandeira, soltou a âncora e olhou na bússola pra onde deve ir. O vento já começa soprar indicando o caminho. Se não, haja ressaca!
Abraço.
terça-feira, 26 de junho de 2007
A saideira do Rum
Postado por Fabrício Alves às 16:24 2 comentários
segunda-feira, 18 de junho de 2007
Não tenho mãos que acariciem meu rosto.
No momento em que eu escrevo esse texto marcam 2:05 da manhã de um Sábado acompanhado de chocolate lancy e uma Skol long neck, lendo uma enciclopédia de fotografia e acabado de adiantar uma boa parte de um novo roteiro. O que faz um "boêmio" (essas aspas não são meras coincidências), homem de rua, exorcista da contracultura que tem ojeriza de sábados de noite em casa, em casa? Ele entrou naquelas fases de sossego e apego pelas constantes lembranças, ventos atuais e enjôo das grandes noitadas? Não, essa fase eu já passei, e acho que fiquei até muito tempo. Hoje foi mera coincidência e escolha pessoal. Não vejo nada de mal passar uma madrugada de sábado em casa. Afinal, não posso me entalar de filmes, leituras e músicas calmas nesse momento? Pra dizer a verdade, creio que seja o momento mais introspectivo do ser humano: sábado à noite. Garanto, isso não faz parte da minha cultura, do meu folcore, ficar no momento imortalizado por John Travolta em casa. Recebi uma ligação ainda pouco e a pessoa se mostrou surpresa quando respondi estar em casa. Já me perguntam logo: - aonde você está?. Maldito criadores de celular. Essa frase será mais importante do que "raspas e restos me interessam".
Bem, a importância do texto não é necessariamente a importância de ficar Sábado em casa, e sim à o que de mais importante você pode aprender. Reli alguns livros e vi o quanto Leonardo Boff é a reencarnação de Machado de Assis. Ele procura a essência humana, atingindo a sua transcendência. Me lembrei do conto do velho Machado, O Espelho, que se autodenomina "esboço de uma nova teoria da alma humana". Quando Boff diz no final de "A Águia e a Galinha": _ não só de fome de pão, mas também a fome de espiritualidade_. Ele botou pra quebrar nesse lance. É difícil muitas pessoas pensarem nisso. Talvez essas pessoas saibam apenas ler e interpretar, mas não usar. O livro de Boff é tão fácil de ler, que chega a ser complicado, para alguns, usar em prática. Há quem diz que entendeu, mas entra na velha história daquele episódio do Chapolin lembrado por uma amiga minha: "Só os inteligente vêem a roupa", se lembram?
Resolvi revisitar um livro técnico de diretores de cinema e caí no mestre Bertolucci. Durante as gravações de "O Último Tango em Paris", ele levou Marlon Brando até uma exposição de Francis Bacon. Ele chegou para Brando e disse : "Está vendo este foto? Bem, quero que você recria esta massa de dor ". Ele só precisou fazer isso com o ator para recriar o personagem. Lembro-me que fiz exatamente isso certa vez. Deu certo. Vão entender os artistas?
Dei uns "bizus" nos Storyboards de Glauber Rocha nas cenas do personagem Antônio da Morte. Aquelas imagens me transmitem tanta força, que me faz querer sair pelo mundo como um Capitão América tentando salvar as pessoas das ruas. Como um personagem tão rico de espírito e real pode fazer o que ele fazia? Como encaçapar as bolas com uma carabina? São nessas horas em que vejo a vulnerabilidade das pessoas. É incrível como se dizem fortes, mas são mais fracas que um pequeno pássaro.
É claro que vou parar de ler durante essa noite. Afinal, são quase 2:30 da manhã. Vai estar passando Corujão, me resta ainda mais uma long neck na geladeira e ainda tenho que ler o jornal de Sábado. Hoje, quando minha inspiração voltou (não escrevo um roteiro há três meses), percebi que algo mudou em mim. Como se estivesse passando por mais um túnel da minha alma. Não posto nada há duas semamas. não por falta de criatividade, mas por organizar as idéias na mente. É como se um vão abrisse do meu peito e deixasse sair aquele ar acumulado. É de se estranhar que, com tantas coisas inusitadas terem acontecido nessa semana, ainda me restam vestígios de um sábado à tarde. Acho que era isso que estava acontecendo comigo hoje. Uma abstinência. E só bastou uma tarde. Nem conseguiria agradecer pra dizer a verdade, seja pessoalmente ou verbalmente, mas dentro da minha alma, ela agradece. Ela diz: "obrigado".
Abraço.
Postado por Fabrício Alves às 13:57 0 comentários