segunda-feira, 28 de maio de 2007

Autópsia Cinematográfica

Bem, além dos textos que vocês estão habituados a ler, trarei mais uma sessão: Autópsia Cinematográfica. A intenção é indicar e resgatar filmes que geralmente as pessoas não viram ainda e nem passaram perto. Tentarei fazer listas de clássicos, filmes novos. Claro que, mesmo que o leitor não esteja de acordo com a lista, ou achem que estes filmes não sejam suficientemente assistível, terá, creio eu, uma nova visão deles. Bem, divirta-se e procurem não assistir ao lado de pessoas que falam: “filme maluco”, ou namoradas (os) que querem transar exatamente durante a exibição.
Claro que há filmes que vocês estão cansados de saber que existirão em listas, como o Cidadão Kane, mas há os filmes de Cassavetes e de Takashi que nem em DVD, até no momento, não estão à venda. Indico então ir à salas de exibição de vídeos. Por favor, podem me corrigir caso haja algo equivocado, a idéia também é a discussão deles.

Abraço.

The Shadow – John Cassavetes
Cinema de guerrilha. Este filme, feito em 1959 é até hoje, junto com Samuel Fuller, os deuses do cinema independente americano, quando os estúdios MGM e Warner imperavam o mercado. Cassavetes era corajoso se tratando de produções, dava soco em ponta de faca e fazia os filmes na base do prazer e entusiasmo. Ele buscava algum tipo de verdade, talvez mesmo uma “revelação”. Ele dizia que “Ter uma filosofia é saber como amar e saber onde colocar o amor.”. Os filmes de Cassavetes foram denominados por Coppola como épicos da alma humana. Não ligue para seus planos e técnicas. É estupidamente sem orçamento, cronograma e planejamento. Um grande ode de sensação de liberdade. Muitos closes à la John Ford e diálogos. O próprio Ford disse certa vez que filmar o rosto humano é a coisa mais interessante e empolgante que existe no mundo. Foi fundamental para os cineastas da American Zoetrope (produtora que fez surgir nomes como Coppola, George Lucas, Spielberg, Scorsese, De Palma) e cineastas independentes como Altman e Woddy Allen. Filme de seguimento punk: faça você mesmo um filme.

Barry Lyndon – Stanley Kubrick
Kubrick antes de ir para a Inglaterra nos presenteou com filmes como Dr. Fantástico, o Grande Golpe e "estreou" em blockbusters em grande estilo com Spartacus. Mas foi na ida para as ilhas britânicas que o mestre se estilizou e mostrou a verdadeira mente insana e pervertida e sua verdadeira criatividade. Não é à tóa que as pessoas quando pensam em Kubrick se lembram logo de Laranja Mecânica, 2001 Uma odisséia no Espaço. Mas o nome de cinema contrabando pode ser dado com mais ênfase quando ele lançou esse épico que fala de um cafajeste fracassado que narra a sua história durante a batalha da Inglaterra. Stanley Kubrick abriu novos caminhos tecológicos mandando fabricar lentes que captariam a verdadeira fotografia de um ambiente claustrofóbico e aberturas de diafragmas em grandes angulares que até então, te davam uma sensação de tédio e angustiada que faz o espectador penetrar na história mundana e comportamentos ritmado da época, numa espécie de transe.

Cidadão Kane – Orson Welles
Quando o diretor de fotografia Gregg Toland sentou-se com Orson Welles, lhe disse: fique aí, que vou te ensinar cinema em duas horas. E foi nesse tempo, que Welles se tornou um dos grandes iconoclastas (e não o mais) da história cinematográfica. Depois de passar por processos, prisões e linchamentos quando foi responsável pela morte de centenas de americanos narrando o conto A Guerra dos Mundos na rádio, ele se superou, acima de até cineastas consagrados, aquele jovem de 25 anos fez um dos filmes mais inspiradores e essenciais da história. Cidadão Kane é fundamental para alunos de comunicação, de direito, psicologia e de assíduos das cadeiras das CPIs afora. Weles, além de dirigir, simplesmente escreveu o roteiro, fez a iluinação, criou a trilha sonora, regeu a Orquestra, ajudou a desenhar os cenários, atuou e mexeu com a câmera de forma tão surpreendente que deixou boquiaberto seus colegas de profissão. Pena que a inveja de alguns colegas, alguns homens de terno da RKO queriam queimar os negativos e políticos se enfureceram com a tamanha identificação fizeram de tudo para não ter a propaganda necessária. Mais assim como Quentin Tarantino, teve o verdadeiro sucesso do merchadasing: a propaganda boca a boca. Nunca mais Welles, mesmo com Soberba, repetiu a mesma façanha de seu filme de estréia. Orson surgia assim com o cinejornal, pedindo para o então montador Robert Wise, arrastar a película num chão de concreto.

Os Infiltrados – Martin Scorsese
Não é à tóa que estou colocando um filme do Scorsese aqui. Seriam vários fatores para ligar o pisca alerta de vocês: por ser fã e pelo diretor ítalo-americano ter ganho o único Oscar de toda a sua carreira, que completa quase mais de 30 anos. Mas esse aqui, Os infiltrados é essencial para os novos estudantes por infinitos fatos. Primeiro pela análise ritímica do longa, inspirado pelo chines Infernal Affairs, onde o roterista William Monaghan deve que adaptar a realidade chinesa para a realidade americana, de Hong Kong para Boston. Embora os críticos foram rudes nesse ponto, não podemos dizer que a realidade paranóica americana não se adapta para a atual paranóia chinesa atual. Mas o fator positivo para este Scorsese, foi a bela obra de arte que a editora Thelma Schomaker, parceira de Martin desde Touro Indomável, aprontou. As imagens foram tão bem colocadas, que fez do filme, que podia ser arrastado e com cenas certinhas, com elas espalhadas. Um grande exemplo foi a contradição dos personagens de Matt Damon e Leonardo Di Caprio. Enquanto o policial bandido saía para jantar com a psicóloga, Vera Farmiga, o bandido policial engessava seu braço. Além do nível livre de improvisação, Thelma foi feliz novamente presenteada pelo Oscar.

King Kong – Peter Jackson
Muitos foram para o cinema confiante e sem arrependimento. Apesar de ser um filme que não atraía nem um pouco o público mais uma vez, o diretor de Almas Gêmeas e Senhor dos Anéis, está mais cotado que seus próprios ídolos, Spielberg e Lucas. O que se tem nesse remake do clássico de 1922 e depois, lamentavelmente filmado na década de 70 (que diga-se de passagem, apenas as pernas de Jessica Lange salvavam o filme), são os usos de efeitos visuais. Quando se trata de filmes de efeitos visuais e cenas de ação em Hollywood são explosões e prédios caindo sem necessidade. Jackson trouxe a mesma poesia e o singelo afeto da protagonista com a criatura desconhecida. Não foi burro suficiente em trazer a história para a época moderna e sim fez um épico, que deixou mais fiel e reinventado a obra-prima, situada em uma direção de arte esplêndida habitada na américa durante a Grande depressão. Apesar dos protagonistas - Jack Black extraordinário – estarem dignos de indicação ao Oscar, Peter foi o diretor mais presente em termos de grandes efeitos especiais exagerados. A frase de Lars Von Trier, pela primeira vez foi descartado por mim quando disse que “não se vê um diretor atrás de uma câmera e sim sentado em um computador”. Há dúvidas que a cena do Kong com Naomi Watts na pista de gela não vai se tornar uma das mais belas imagens desse século?

Audition – Takashi Miike
Takashi Miike não é apenas um diretor de cinema, mas sim um grande “fazedor” de filmes. O japonês é capaz de fazer vinte filmes por ano. Esse Audition foi feito em apenas, diz a lenda, em dois meses. Não me estranharia disso, já que o diretor mais hiperativo do mundo, construiu um filme como se fosse um disco de vinil: lado A e lado B. De primeira, parecia um filme de romance quando acompanhamos a vida de um diretor de cinema inseguro para fazer um novo filme e para o próximo amor. Após, achar uma atriz perfeita para a personagem durante a Audição, ele apaixona-se por aquela menina de olhar meigo e mais nova que ele, que lembrava a ex-esposa. O filme, de 75 minutos, aos poucos vai se tornando mais perturbador, até chegar num nível sádico e masoquista. Sem pudores, Miike, autor do clássico Ich the Killer, constrói um roteiro espetacular e intrigante, para fã nenhum de Tarantino por defeito e se mostrando um cineasta contrabandista que engana e conquista os produtores de terno.

THX 1138 – George Lucas
Todo mundo sabe que após os anos 60 e 70 foi a fase mais criativa e artística planetária e mudanças nos mundos mundanos de acadêmicos e empresários molengas. Enquanto a MGM e Warner mostravam-se monótonos, com filmes de romances filmados apenas em seus estúdios e diretores americanos, como Kubrick saíam do país para terem liberdade criativa, um grupo estudantes ousadas vieram para derrubar os paradigmas cinematográficas. Francis Ford Coppola e George Lucas se tornaram amigos inseparáveis quando o franzino criador de Star Wars foi trabalhar como assistente com o arrogante e excêntrico diretor de O Poderoso Chefão. Mas de uma coisa ninguém duvidaria: Francis era a única pessoa que podia salvar o novo cinema americano. Foi assim que ele pariu George Lucas criando a America Zoetrope. Como num Road- movie, aqueles jovens viajaram numa van e criaram o primeiro filme com a marca. THX foi um fracasso de público e crítica por ser indecifrável e nem um pouco popular. Cult, como um Blade Runner, THX 1138 trouxe um trunfo e reinvenção da engenharia de som. Artezanal e viajante, os barulhos dos bastões dos policias futuristas, das máquinas trabalhando, até das masturbações dos personagem fez desta ficção científica um grande marco do cinema independente.

O Vampiro – Carl T. Dreyer
Filme mudo e alemão sempre afastam os jovens. Além dos indies, fãs de The Shields que dançam de cabeça baixa nas pistas. Os góticos amam esse filme apenas pelo apreço do clima e das locações. Para os estudantes, esqueçam disso. Dreyer, em 1923, lançou o travelling e foi o primeiro diretor a se preocupar com a fotografia. A história, obviamente narrada por legendas, é extremamente intrigante até hoje. Juízos de valor à parte, Dreyer, junto com seu diretor de fotografia, que não me recordo o nome, descassetado, criou sombras como nos velhos teatros chineses e texturas sombrias para contar a história de um jovem descobrindo a lenda dos vampiros num vilarejo de uma cidade pequena alemã. A fotografia combina com personagens sombrios e closes bizarros que dá frio na espinha em até adultos. Para sempre.

Cães de Aluguel – Quentin Tarantino / Era Uma Vez No México – Robert Rodriguez

Quando se trata de Tarantino e Rodriguez temos que falar dos dois. Ainda mais na expectativa de Grindhouse nos cinemas brasileiros. Temos dois extremos nesses longas. O primeiro de tarantino, que sem ajuda de salas de aula, apenas escalou grandes atores, estudou os velhos filmes setentistas e clássicos como Os Bons Companheiros, fez o reverso deles e fez este clássico. Quentin só tinha duas coisas: apoio do produtor Lawrence Bander e do seu peculiar entusiasmo. Produzido e estrelado pelo ator Harvey Keitel, Quentin quebrou os filmes demondé de gangsters que circulavam nos circuitos de 1992, após Goodfellas ser respeitado pela academia e púbico.
Rodriguez estava desentusiasmado com seu Pequenos Espiões e não fazia idéia o que faria para seguir a carreira. Até seu amigo Tarantino convênce-lo que El Mariachi e A Balada do Pistoleiro fosse uma trilogia. Ele seguiu o conselho do amigo, que estava ocupado com seu Kill Bill e rapidamente escreveu o roteiro do músico mexicano. Não o bastante, após descobrir a câmera HD através do amigo George Lucas, aumentou seu filme e agora, além de cozinhar e editar, fotografar e dar piruetas durante toda a produção, o diretor passou a dar conferências e mudar a cabeça de novos e velhos cineastas. O que é fácil para ele, ainda ninguém conseguiu chegar ainda ao seu patamar pelo uso da câmera em locações de externas. Poucos são como eles que sabem usar a profundidade de campo e fotografias exemplares.

Patrulha Da Montanha – Lu Chuan
Continuo dizendo que o cinema asiático vem dando banho no cinema americano. Quem diria que Patrulha Da Montanha, esquecido por grandes revistas especialistas e passando batido pelo público, se torna um marco do cinema planetário. Fundindo ficção com documentário, o filme de 88 minutos, mostra a saga dos caçadores nas montanhas geladas da china, que, como fiscais do governo, cooperam contra outros caçadores ilegais de animais, que fazem parte do seu habitat, para não virarem casacos de madames comunistas. Patrulha da Montanha é sensível e poético. E deixa no chinelo documentários clichês, “americanos demais”, e campanhas de ex-candidatos à presidência da república.

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