terça-feira, 8 de abril de 2008

Todos os domingos me lembro...

Os ventos já sopravam em direção para um novo outono no Rio. O sol aparecia sem nenhuma vergonha e pudor e brilhava a telha do meu quintal. Algo estranharia um carioca que diria a essa hora: “Pô, se eu acordasse mais cedo iria à praia”. Essa é a minha desculpa de não enfrentar o ônibus cheio e as dores nas costas matinais. Se eu tivesse mais que um motivo de enfrentar aquele 484 cheio, desenterraria aquela sunga cheirando à naftalina. Esse é o mal de quem vive para trabalho e noitadas. Mas na ocasião, o domingo oscilava com sol e chuva. Um fenômeno que dá certo em cidades como a da Guanabara. Um grande arco-íris cruzava o céu como um daqueles aviões acrobatas. Eram 11 da manhã e o café ainda estava quente. O Hollywood matinal dava um novo gosto ao café. No meu som tocava “Just Like Tom Thumb’s Blues” do Dylan em versão alternativa. Sentei na poltrona da varanda e observava atentamente o arco-íris. Estava pensando em você. Todo domingo me lembro de você. O que estaria fazendo neste momento? Será que estaria tomando café e assistindo ao arco-íris como eu? Estaria perdendo se a resposta fosse não.
Meu cachorro me chamava para abrir a porta. Havia o trancado na mesma melancolia que a minha. Não fui egoísta e abrir a porta da sala para ele se espreguiçar no grande carpete verde e dormir no meio do caminho. Se o carpete fosse branco você pisaria nele.
O telefone tocou e eu atendi. Era o Rafael, amigo meu. Estava pensando nele também. Tinha que ligar e fazer a mesma caminhada tradicional de todo domingo na Quinta da Boa Vista. O dia estava propício à isso. Vesti a camisa do Vasco e uma bermuda e pus meus óculos escuros. Minha mãe fazia um empadão de Frango e dei a idéia de colocar pimentão no meio dele. Um pepperoni ficaria muito bem se alguém se lembraria de comprar. Há um cidadão aqui perto de casa que vende uns muito bons e bem barato. Acho que é do mercado negro.
Saí de casa e liguei o rádio do meu celular. Tocava “Chega Mais” da Rita Lee. Me lembrei de você dançando e pondo as mãos no seio. Isso já me deixava pirado. Pirado porque uma moto mal tratada da Honda descia a rua quase me atropela. Tropeço num paralelepípedo e caí de qualquer jeito em um montinho de areia. É isso que você me faz passar quando penso em você? Decidi trocar de rádio e tocava “Eye In The Sky” do Alan Parson Project. Melhor assim. Sempre gostei do Alan Parson.
Cheguei até a casa do Rafael. Ele vestia uma camiseta cinza e uma bermuda preta e estava sem os habituais óculos escuros dele. Ele me dizia que havia comido muito bem na empresa onde trabalha, que estava irritado com as brincadeiras de uns colegas que faziam brincadeiras durante o serviço como jogar papel em cima do outro, que havia voltado de táxi para casa – que foi pago pela empresa – que o serviço era repetitivo e que havia comido bem de novo.
A Quinta estava agradável. O verde estava mais presente, aquelas bolas gigantescas coloridas flutuavam no ar mais do que de costume. As crianças estavam mais dispostas e livres para jogarem bola no gramado. Os casais apaixonados caminhavam e desciam as calçadas do parque. Havia poucos pedalinhos, graças à deus. “O tempo acabou. O Tempo acabou”, dizia uma voz feminina nas caixas, para os montadores oficiais de patinhos de plástico. Pensei em você novamente. Talvez estivesse comigo ali, naqueles patinhos feios, naquele lago esverdeado. Mas sou socialista demais.
Rafael e eu conversávamos sobre mulheres. Ele é neo-liberal quando se trata de mulheres. Como eu disse, gosto de ser socialista. Talvez por isso não estava com você na hora. Eu conversava sobre uma garota que havia conhecido naquela semana e ele me dizia sobre uma menina do trabalho, uma gorda de seios fartos. As coisas iam em direção à você. A música da Rita Lee tocava novamente em minha mente. Mas não havia nem uma Honda, nem um paralelepípedo. Havia um camaleão passeando entre a gente.
Era hora de ir. A fome estava dando sinal de vida e queria ir para a casa e ver se minha mãe havia posto pimentão no empadão. Acendi o cigarro, me despedi do Rafael e peguei o ônibus. Tocava “Killing Me Softly” com o The Fugges. Com a Lauryn Hill é mais fácil despistar o pensamento em você. E acho que deu certo.
O resto do domingo era o de praxe. À tarde assistia a vergonhosa derrota do Vasco para o Volta Redonda. A contradição da chuva com o sol permanecia. Me lembrava de “Outono no Rio” com o Ed Motta nesta hora. O narrador dizia que nunca havia visto aquilo. Acho que era paulista, porque desde minha infância assistia isso. Outro narrador disse que o fenômeno era surreal e esquisito. Pra dizer a verdade, era atípico.
O Tadeu havia me ligado. Me dando notícias bizarras. A notícia, sim. Era bizarra. “ok, daqui a pouco me visto e parto pra aí”, eu disse. No 484 congelava como uma geladeira. Não era dia propício para ônibus com ar condicionado. Meu coração estava tão gelado quanto o narrador de Botafogo e Fluminense. O Wellington Paulista havia feito um gol lindo, dizia. Concordei quanto cheguei em casa.
Mas antes de chegar em casa, chegava em Copacabana. Havia poucas pessoas nas ruas. Domingo à noite é sempre incômodo para o carioca. É sinônimo de ficar em casa ou andar em lugares calmos como shoppings, casas de exposição, locadoras ou...ir para a casa de amigo jogar vídeo game. E foi isso que eu fiz. O corredor sujo e surreal de Silent Hill me hipnotizava e me espantava da famosa “hora do Fantástico”. Tradicionalmente apelidada de hora da depressão dos brasileiros. “Amanhã começa tudo de novo”. Chocolates e refrigerante me espantou das matérias de Zeca Camargo e a voz de galã da quinta idade de Cid Moreira.
Tadeu e eu nos despedimos e resolvi me entregar para a semana que chega. O meu pressentimento não era dos bons para a semana. É o pressentimento de sempre. O ônibus sacudia. E as pessoas entravam com a mesma sensação que a minha. Sentia na alma delas. “Chega Mais” tocaria novamente na MPB Fm. E você estava mais perto de mim. Me fez companhia até em casa. Fez companhia aos meus pensamentos. Gostaria de estar do seu lado agora. Você estaria me curando nessa hora.
Bebia o resto de Pepsi que estava na geladeira com o empadão com você. Assistiria às resenhas esportivas com você. Barbeava-me olhando para você. Deitaria na cama com você. Rezaria a Ave Maria antes de apagar com você.

Queria passar a semana com você.