Um dia desses me olhei no espelho e me senti péssimo. Barba por fazer, cabelos em pé e olhos avermelhados. Acendia um cigarro matinal e os óculos era escondido pela face terrível que eu carregava. Eu já conhecia aquele rosto. Era o mesmo do cara de Taxi Driver. Será que tudo aquilo havia voltado? Será que estava à beira de explodir novamente? Não, eu estava bem. Era só uma noite mal dormida. Enchi meu copo de Nescafé e tirei uma fatia de bolo de chocolate. Nescafé. Não sabia o que era Nescafé há anos na minha vida. Nunca ligava para Nescafé. Algo estava diferente ao meu redor. O cachorro dormia embaixo da mesa. Tudo bem. A outra cachorra me olhava com seus olhos enormes e um palmo de língua pra fora. Ela queria um pedaço do meu bolo. Eu a dei. Isso também não é diferente. Minha mãe me falava de contas em plena manhã e eu não tinha forças suficiente ainda para faze-la acabar com aquele assunto. Pra dizer a verdade nem estava escutando o que falava. Isso também não mudara. Sentia que algo havia mudado. Não sabia o que era. Pensei: preciso trocar de emprego, trancar a faculdade, fazer um filme (um filme definitivamente seria muito legal), estudar e escrever. O que diabos havia mudado? Escutei um barulho de serrote no terraço. Algumas pessoas traziam camas, armários e cômodo pra dentro de casa. Ah sim, já sei o que é, pensei. Ainda não havia me acostumado com o desconhecido.
Almoçava sem música e na mesa – algo mudou mesmo. A comida era diferente. Orégano na salada, o peixe estava bem temperado. Levantei-me e coloquei Jimmy Cliff para ecoar no som. Assim me sinto em casa. Preparava um sanduíche de presunto e requeijão pro lanche mais tarde. Andei até a Suburbana e peguei meu ônibus. A espetacular Amy Winehouse cantava “Rehab”. “O que Amy estaria fazendo naquele momento?”, me perguntei. Não sabia nem o que eu estava fazendo pra dizer a verdade. Amy...tão linda, apaixonada, e não sabe o que quer. Talvez temos algo em comum. Precisava conhecer uma Amy Winehouse.
Me lembrei que tinha que descer. Saltei num ponto depois, no ponto do Guanabara. Supermercado terrível.
Cheguei cinco minutos atrasado e o meu chefe olhou para o relógio. “Chegou dez minutos antes!”. Me esqueci que o meu relógio é quinze minutos adiantado. Olhei as planilhas, havia pouco serviço no dia. Há muito tempo não tinha esse descanso.
A tarde era o de praxe. Conversas de futebol, li uns jornais na internet (no senado, nada havia mudado), conferi E-mail, orkut e entrei no MSN. Um amigo estava online. Devia estar no trabalho! Mas que raio de horas esse cidadão fazia online naquela hora?! Foi o que perguntei a ele. Ele havia perdido algumas coisas importante na vida. “Pow, estou querendo conversar”. Claro que ia conversar. Mas não naquele dia. Havia coisas importantes para resolver. Algo mudou. E ele estava ciente disso.
Foi por volta das 19:00 que a coisa importante fez meu celular executar aquela musiquinha chinfrim. “Está onde?” (Essa maldita pergunta...). Respondi e desligou.
Voltei para o meu mundo.
Às 20:00 ecoou uma batida seca na porta do setor. Um abraço e uma entrada atrapalhada foi o início da noite. Estava totalmente desgastada. Como eu. Tive que abaixar o Ronnie Von do som – senti até uma leveza de vergonha de estar escutando “Anarquia” alto. Um pedido de café e um respingo na saia quebrou o gelo e o frio do ambiente. Algo mudou.
Conversamos sobre o trabalho que estamos fazendo. Está indo bem, obrigado. Melhor que eu esperava. Não sabia que conseguiria um dia escrever coletivamente. Isso está mudando. Esse ano foi o ano dos tabús, então mais um não faria importância. Conversamos também somos os nossos fracassos amorosos dos últimos tempos. Ainda bem que somos otimistas e não desistimos. Será que isso realmente é uma doença? Uma peste negra que assolou nas pessoas? É incrível! “Eu deveria ser mais frio”.
Me lembrei que ainda havia me restado alguns serviços para encerrar meu expediente. A deixei sozinha e fui tratar de resolver o meu trabalho. A minha cabeça estava embolada, o que já não é mais novidade. Um reggae do The Specials ecoava na minha cabeça. Eu odiava reggae. Agora eu amo. Isso também mudou.
Quando voltei, um chumaço de fumaça saía da boca dela. Não sabia que fumava. E não fumava. Era expontâneo, uma vez por ano. E deve que ser comigo. Estou transmitindo mudanças nas pessoas?
Sentamos, conversamos, tomamos café, fumei mais um cigarro e a escutei cantar Rita Lee. Enquanto dançava com um microfone na mão, não sabia que reação eu deveria ter. A minha cabeça estava embolada. Talvez eu seja um idiota. Isso não mudou.
Resolvi cantar e dançar também. Nos divertimos. Mais do que em muitas situações. Mais do que noites em boates, em motéis, bêbado em uma taberna ou ter que escutar uma garota chata falar das coisas que mais gosta. Não vi o tempo passar. Estava exatamente na hora em que eu iria largar o expediente. A minha cabeça não para de trabalhar. Isso não vai mudar tão cedo. Talvez nunca.
Ela também é de bairro. Por isso não está nem aí para as soluções do Cabral. É anti-Lula também. Pessoas assim é ainda mais politizada que uma Mirian Leitão. O ônibus não parava. Ríamos todas as vezes em que ele passava direto. Pra dizer a verdade, nos sentíamos melhor xingando os motoristas propositalmente do que chegar nos nossos lares. Eu digo: não queria ir pra casa naquela hora.
Em um contra-plongée, queria passar a mão na sua cabeça, levanta-la e beija-la. Mas achei que não era a melhor hora. O cigarro me fez companhia novamente.
Finalmente o ônibus chegou. Ela entrou, eu dei as costas e nem olhei para trás. Certa vez, umas pessoas diziam que “se arrepender do que fez na hora, pode se arrepender depois do que não fez”. Isso é balela. Não se faz tudo que quer na hora. E nem sei se vai ter hora. Eu digo: “Não se arrependa de nada. Tudo o que fez, deveria ter sido uma boa idéia. Ou não”.
Minha cabeça embolou. Estava com um nó gigantesco no cérebro, daqueles que se quando mais tenta desamarrar, piora. Percebi que andava num dos lugares mais perigosos do Rio de Janeiro. Eu não me importava. Isso nunca vai mudar. Talvez sejamos dois viajandões. E com viajandões, não acontece nada de errado nas ruas.
Cheguei em casa, preparei um chocolate quente e umas torradas. Havia lavado a minha alma. E, desde nunca, comecei a repensar na minha vida. Ringo Star ecoava com “Photograph” e decidi refazer a minha vida. Isso tem ajudado. Um barulho. Um estranho. Sim, muita coisa mudou. 2007 foi mais intenso que eu esperava. E não canso de dizer que vai ser mais.
Isso tudo foi exatamente uma semana atrás. Pode ser que nada tenha mudado hoje. Mas devo dizer que a semana foi muito rastejada. Talvez seja a semana mais longa que eu já passei. Mas devo dizer. Que treze de setembro de 2007, foi o dia mais divertido que passei no trabalho. Estarei com ela novamente. E não faço idéia como vai ser. Darei notícias.
Abraço.
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
Mil dias e uma noite
Postado por Fabrício Alves às 13:07 2 comentários
Subscribe to:
Postagens (Atom)