Buenas, amigos de copo! Por mais que eu nao tenha postado ultimamente, devo avisá-los que o blog mudou! Sim, mudou de endereço. Está na esquina do Word Press. Acessem,
www.bardosfilosofos.wordpress.com
Repetindo:
www.bardosfilosofos.wordpress.com
Quem quiser ler estas batatadas, tem endereço novo. Confiram.
Abraço.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Mudanças...
Postado por Fabrício Alves às 17:03 0 comentários
terça-feira, 8 de abril de 2008
Todos os domingos me lembro...
Os ventos já sopravam em direção para um novo outono no Rio. O sol aparecia sem nenhuma vergonha e pudor e brilhava a telha do meu quintal. Algo estranharia um carioca que diria a essa hora: “Pô, se eu acordasse mais cedo iria à praia”. Essa é a minha desculpa de não enfrentar o ônibus cheio e as dores nas costas matinais. Se eu tivesse mais que um motivo de enfrentar aquele 484 cheio, desenterraria aquela sunga cheirando à naftalina. Esse é o mal de quem vive para trabalho e noitadas. Mas na ocasião, o domingo oscilava com sol e chuva. Um fenômeno que dá certo em cidades como a da Guanabara. Um grande arco-íris cruzava o céu como um daqueles aviões acrobatas. Eram 11 da manhã e o café ainda estava quente. O Hollywood matinal dava um novo gosto ao café. No meu som tocava “Just Like Tom Thumb’s Blues” do Dylan em versão alternativa. Sentei na poltrona da varanda e observava atentamente o arco-íris. Estava pensando em você. Todo domingo me lembro de você. O que estaria fazendo neste momento? Será que estaria tomando café e assistindo ao arco-íris como eu? Estaria perdendo se a resposta fosse não.
Meu cachorro me chamava para abrir a porta. Havia o trancado na mesma melancolia que a minha. Não fui egoísta e abrir a porta da sala para ele se espreguiçar no grande carpete verde e dormir no meio do caminho. Se o carpete fosse branco você pisaria nele.
O telefone tocou e eu atendi. Era o Rafael, amigo meu. Estava pensando nele também. Tinha que ligar e fazer a mesma caminhada tradicional de todo domingo na Quinta da Boa Vista. O dia estava propício à isso. Vesti a camisa do Vasco e uma bermuda e pus meus óculos escuros. Minha mãe fazia um empadão de Frango e dei a idéia de colocar pimentão no meio dele. Um pepperoni ficaria muito bem se alguém se lembraria de comprar. Há um cidadão aqui perto de casa que vende uns muito bons e bem barato. Acho que é do mercado negro.
Saí de casa e liguei o rádio do meu celular. Tocava “Chega Mais” da Rita Lee. Me lembrei de você dançando e pondo as mãos no seio. Isso já me deixava pirado. Pirado porque uma moto mal tratada da Honda descia a rua quase me atropela. Tropeço num paralelepípedo e caí de qualquer jeito em um montinho de areia. É isso que você me faz passar quando penso em você? Decidi trocar de rádio e tocava “Eye In The Sky” do Alan Parson Project. Melhor assim. Sempre gostei do Alan Parson.
Cheguei até a casa do Rafael. Ele vestia uma camiseta cinza e uma bermuda preta e estava sem os habituais óculos escuros dele. Ele me dizia que havia comido muito bem na empresa onde trabalha, que estava irritado com as brincadeiras de uns colegas que faziam brincadeiras durante o serviço como jogar papel em cima do outro, que havia voltado de táxi para casa – que foi pago pela empresa – que o serviço era repetitivo e que havia comido bem de novo.
A Quinta estava agradável. O verde estava mais presente, aquelas bolas gigantescas coloridas flutuavam no ar mais do que de costume. As crianças estavam mais dispostas e livres para jogarem bola no gramado. Os casais apaixonados caminhavam e desciam as calçadas do parque. Havia poucos pedalinhos, graças à deus. “O tempo acabou. O Tempo acabou”, dizia uma voz feminina nas caixas, para os montadores oficiais de patinhos de plástico. Pensei em você novamente. Talvez estivesse comigo ali, naqueles patinhos feios, naquele lago esverdeado. Mas sou socialista demais.
Rafael e eu conversávamos sobre mulheres. Ele é neo-liberal quando se trata de mulheres. Como eu disse, gosto de ser socialista. Talvez por isso não estava com você na hora. Eu conversava sobre uma garota que havia conhecido naquela semana e ele me dizia sobre uma menina do trabalho, uma gorda de seios fartos. As coisas iam em direção à você. A música da Rita Lee tocava novamente em minha mente. Mas não havia nem uma Honda, nem um paralelepípedo. Havia um camaleão passeando entre a gente.
Era hora de ir. A fome estava dando sinal de vida e queria ir para a casa e ver se minha mãe havia posto pimentão no empadão. Acendi o cigarro, me despedi do Rafael e peguei o ônibus. Tocava “Killing Me Softly” com o The Fugges. Com a Lauryn Hill é mais fácil despistar o pensamento em você. E acho que deu certo.
O resto do domingo era o de praxe. À tarde assistia a vergonhosa derrota do Vasco para o Volta Redonda. A contradição da chuva com o sol permanecia. Me lembrava de “Outono no Rio” com o Ed Motta nesta hora. O narrador dizia que nunca havia visto aquilo. Acho que era paulista, porque desde minha infância assistia isso. Outro narrador disse que o fenômeno era surreal e esquisito. Pra dizer a verdade, era atípico.
O Tadeu havia me ligado. Me dando notícias bizarras. A notícia, sim. Era bizarra. “ok, daqui a pouco me visto e parto pra aí”, eu disse. No 484 congelava como uma geladeira. Não era dia propício para ônibus com ar condicionado. Meu coração estava tão gelado quanto o narrador de Botafogo e Fluminense. O Wellington Paulista havia feito um gol lindo, dizia. Concordei quanto cheguei em casa.
Mas antes de chegar em casa, chegava em Copacabana. Havia poucas pessoas nas ruas. Domingo à noite é sempre incômodo para o carioca. É sinônimo de ficar em casa ou andar em lugares calmos como shoppings, casas de exposição, locadoras ou...ir para a casa de amigo jogar vídeo game. E foi isso que eu fiz. O corredor sujo e surreal de Silent Hill me hipnotizava e me espantava da famosa “hora do Fantástico”. Tradicionalmente apelidada de hora da depressão dos brasileiros. “Amanhã começa tudo de novo”. Chocolates e refrigerante me espantou das matérias de Zeca Camargo e a voz de galã da quinta idade de Cid Moreira.
Tadeu e eu nos despedimos e resolvi me entregar para a semana que chega. O meu pressentimento não era dos bons para a semana. É o pressentimento de sempre. O ônibus sacudia. E as pessoas entravam com a mesma sensação que a minha. Sentia na alma delas. “Chega Mais” tocaria novamente na MPB Fm. E você estava mais perto de mim. Me fez companhia até em casa. Fez companhia aos meus pensamentos. Gostaria de estar do seu lado agora. Você estaria me curando nessa hora.
Bebia o resto de Pepsi que estava na geladeira com o empadão com você. Assistiria às resenhas esportivas com você. Barbeava-me olhando para você. Deitaria na cama com você. Rezaria a Ave Maria antes de apagar com você.
Queria passar a semana com você.
Postado por Fabrício Alves às 15:31 0 comentários
segunda-feira, 24 de março de 2008
Minha biografia
As luzes se acendem. O público levanta e acompanha um brutamontes dando socos no ar e pulando como se estivesse brincando de amarelinha. Esquivando-se de ectoplasmas e se defendendo de nada, ele se protege dos maus olhos e dos poderes malignos. Ele vai chegando cada vez mais perto do público, excitadíssimo, que o aplaude de pé. Atravessando o corredor, ele é saudado de maneira feliz pelos grandes chefões que querem que caia quando foi programado. Ele cerra os olhos para eles e vira o rosto. Não dá importância. Abre as cordas, sobe no ringue e encara seu oponente, que bufa como um touro. Tira seu traje e entrega aos seus fiéis. Perturba-se com o falatório, muitas palavras tiram sua concentração. Não dá a mínima para o que as pessoas que gosta, falam. A única coisa que ele deseja é vencer. Um microfone desce até o ‘palco’ como se fosse um milagre ou chuva. Os anunciadores declamam a briga iniciada, sem antes deixar de apresentar e o porque de estarem ali. Soa o gongo e ele chama a responsabilidade. Uma de esquerda e dois pêndulos. Duas de direita e um pêndulo. Era o suficiente para acertar a sua vida dali para frente. Passaram os rounds e ele permanece no seu palco, na sua arena. Tudo anda bem, como ele sempre desejou. Alguém chega perto do ringue e o avisa que está fazendo a pior coisa da sua vida. Desde então, ele para e pensa, como se fosse a primeira vez. Não há mais tempo. O gongo soa novamente e ele tem que voltar. O touro já está praticamente vencido. Uma fagulha faria o touro ser enterrado. Ele para. Deixa o touro se aproximar. E antes que ele o atinja, cai. Sem sentir dor. Sem sentir orgulho. Sem sentir nada. A contagem segue estando extremamente anestesiado. Quando chega ao dez, as pessoas o vaiam. Seus fiéis o olham como se não entendessem nada. Se levanta e sai do ringue. Copos e comidas são jogados em cima dele. Uma grande decepção. Seus inimigos o agradecem. “Como pude ajudar meus inimigos?”, pensou ele. Sentou-se no banco do vestiário e chorou. Decidiu-se nunca mais entrar naquele ringue.
Caminhou pelo deserto durante três anos. Lutava contra o vento gélido e a areia cortante em seus olhos. Seu cabelo esvoaçava e sua barba fazia aniversário. Aliás, não sabia quando fazia aniversário. Não sabia mais sua idade. Não sabia de sua mulher, seus filhos, seus irmãos, seu pais. Não se lembrava nem mais de seu nome. Quando viu um pequeno casebre, agradeceu a Deus. Sem hesitar, entrou. Não havia ninguém. Se serviu com água e dois pães, que, milagrasomente, estavam frescos. A casa tinha telhados reforçados, daqueles alaranjados. Uma mesa colonial, uma lareira inutilizada e um colchão velho. Deitou-se no colchão. Dormiu umas cinco horas. Ele não era muito de dormir. Levantou-se quando já era noite. Ele determinara 00:00. Era a hora em que ele costumava acordar. Levantou-se e foi até fora do casebre. Olhou para o céus e as estrelas estavam bem luminosas. Ele desenhava anjos com as estrelas, crendo que eram eles disfarçados. A lua estava mais viva do que de costume. Sentia como se ela estivesse olhando para ele. Era a hora certa de se confessar com Deus. “Porque me trouxe até aqui? Já não sofri o bastante? Quero viver como alguém normal”. Naquele momento, pegou no sono novamente. De repente ele acorda com sons de passos se aproximando. Ele procura por alguém. E há um velho sentado ao seu lado.
- Perdoe-me. É o dono deste lugar; Perguntou.
- Sou o dono do deserto.
Ele olhou para o velho. Não sentia muita boa energia ao seu lado. As rugas eram assustadoras e seu olhar mais ainda.
- Quando você vai embora?; Perguntou o velho.
- Posso ir agora, se o senhor quiser.
- Eu me referi à sua esposa e seus filhos? Seus pais estão te esperando.
- Esposa? Filhos? Não sei quem são meus pais.
- É. Você vai dar trabalho. Você me chama e, provavelmente, nem sabe quem eu sou.
- Eu não chamei o senhor. Eu nem sabia a existência dessa casa...
- Eu não vou discutir com você. Tenho mais o que fazer. Desista desta luta. A sua luta é outra.
Os olhos do velho brilhavam como a lua. Ele olhou para cima e não via mais a lua. “Será que ele é a lua?. Desceu para falar comigo?”.
- Deixa de ser retardado, disse o velho. Ela está do outro lado, continuou. O seu problema é achar que as coisas devem estar de acordo com tudo o que planejou. Não acredita em imprevistos?
O homem continua sem entender a conversa do homem. Ele acende um cigarro de palha e se levanta.
- Vou pegar água, você quer?
O homem balança a cabeça positivamente. Muitas coisas se passavam pela cabeça dele. De repente ele se lembrara de sua esposa. O jantar, as conversas, as piadas, o sexo. Lembrou-se de seu filho. As manhãs de sábado no zoológico. As tardes de domingo no estádio de futebol. Seus pais passaram por sua cabeça. Os almoços, as discussões que sempre acabavam em risadas e os abraços. Seus irmãos também estavam lá. Ele adormeceu. Sentiu como se estivesse dormindo por anos. Alguém o chama. Ele não quer acordar. A pessoa insiste e ele acorda. Ele está no vestiário. As luvas prendiam sua circulação. Ele se levanta.
Quando sai, as luzes se acendem, o público ovaciona, cerra os olhos para os inimigos, soa o gongo, pêndulos, socos e uma esquerda que o derruba. O juiz conta até dez e ele perde a luta. Se levanta, agradece o seu oponente e sai do ringue. Comidas e copos são jogados em cima dele. Seus inimigos cerram os olhos para ele.
Entra no vestiário e sorri. Olha para a imagem de cristo. Havia um pôster de Lênin, o grande revolucionário, e se lembrara do seu lema de vida. E agora havia entendido o porque.
Postado por Fabrício Alves às 12:45 1 comentários
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Nascidos para arrumar rebuliços
Tumulto. Filas. Gritarias. Roletas quebradas. Confusões. Uma enorme rampa. Um cordão humano de policiais para te revistar. Foram assim todos esses anos. Desde os meus sete anos de idade. O mais incrível que nunca fiz questão de não ir. Quando se falam em estádios de futebol, a palavra “confusão” vem sempre em mente das pessoas. O incrível que essas mesmas pessoas enfrentam tudo isso em micaretas ou shows ao ar livre, que, por vezes, é até pior e mais perigoso. Sei do que eu falo, porque já estive lá (menos micareta).
A imprensa sempre vem à tona com morte de torcedores de um time rival, que foi espancado e levou três tiros no peito. O último a ser reportado foi o torcedor do botafogo morto no último clássico, que deu o título ao time deles. O que as pessoas devam levar em consideração, que não é o futebol em si. E sim, essas grandes gangues que, a imprensa ainda insisti em chamá-los de “marginais”, resolvem suas pendências no estádio ou fora dele. Se você levar em consideração, é dificílimo encontrar uma notícia de que algum torcedor morreu DENTRO do estádio. Se isso foi mencionado em alguma página ou em algum telejornal, foi porque alguém, por descuido, caiu da arquibancada ou alguma grade rompeu e fizeram as vítimas serem hospitalizadas e não conseguirem resistir aos seus ferimentos.
Já estive nas épocas em que grandes brigas eram resolvidas nas arquibancadas. Lembro-me de que em 1989, um Botafogo x Fluminense no campeonato brasileiro, que tive a alegria do Vasco ter ganho aquele título com gol de Sorato, estávamos sossegados no nosso canto (Meu pai, meu irmão e eu), e a torcida Young Flu do Fluminense vinha em nossa direção. Percebi quando ainda estava terminando meu matte com aquele cachorro quente muquirana e maravilhoso feito de pão dormido e uma salsicha enferrujada (sério, o melhor cachorro quente que comi na minha vida). Aquela avalanche feita de vermelho, verde e branco vinha em nossa direção. Um ar gelado havia tomado conta do meu corpo. Olhei para a minha esquerda, onde havia outra avalanche. Agora de preto e branco. Eu era apenas um garoto vestido de Vasco que estava comendo seu sanduíche. A torcida do Fluminense recuou. Não era a área deles. Os PM’s se aproximavam com cacetetes, mas ainda não havia feito nada. Afinal, a torcida rival havia desistido de enfrentar seus oponentes. Os policiais eram mais conscientes ou era uma época em que havia menos violência? Acho que a violência não mudou desde a idade da pedra.
Ao decorrer dos anos presenciei muitas brigas e atentados no maracanã e São Januário. Lembro-me em 1995, quando a torcida do Santos invadiu o gramado de São Januário e a torcida Força Jovem seguiu a torcida paulista. Vi aquela briga de camarote. Desta vez com coca-cola e amendoim torrado. Um dos componentes da Força Jovem era um colega do colégio. Ele havia dado uma surra em um santista, que fez de seu rosto um purê. A imagem dele foi para todos os cantos do mundo da imprensa. Quando o encontrei na rua, ele estava com um hematoma gigantesco no rosto, dizendo que foram os policiais e depois os membros da torcida que reprovaram sua atitude.
Mas não restam dúvidas que foi entre Vasco x Flamengo que presenciei O Senhor da Violência em minha frente. Vi um torcedor do Flamengo sendo puxado entre as grades de São Januário na final do carioca de 1992. Outro torcedor do Flamengo sendo arrastado pelas arquibancadas do Maracanãzinho numa final de basquete no mesmo ano. Um torcedor do Flamengo jogar uma faca dentro de um ônibus na final do carioca de 1996 dentro do ônibus 665, onde a grande maioria dos torcedores eram vascaínos. Uma fileira de vascaínos sentados no meio fio da Quinta da boa vista feridos num jogo do Campeonato Brasileiro de 1999. Um levou um tiro, que havia pego de raspão na cabeça. Até hoje se vê o sangue manchado no chão. O que para mim é comum presenciar isso em São Cristovão.
Em todos esses anos, vi grande violência nos estádios e ao redor deles. Mas é distante deles em que as brigas afloram e as rivalidades se tornam grandes arenas romanas. E é isso que a imprensa não entende.
Agora, confesso que é fácil de se perder a cabeça dentro do estádio. Eu mesmo já quase fui preso uma vez. Também não levei uma grande saraivada de um segurança de três metros porque meu pai estava presente. Mas levo comigo uma marca de cacetete na perna, depois de defender um garoto de 10 anos que subiu as grades de São Januário para xingar os jogadores do Juventude. Seu pai se desesperava em ver um PM despreparado que se aproximava do garoto com aquele cacetete, que logo, viria me acertar em cheio. Menos mal.
Hoje já não sei o que acontece comigo e o futebol. Foi um casamento de 20 anos, que está presente apenas pelo afeto e não por amor. Não sinto a mesma emoção de antes, em que me dava vontade de entrar dentro de campo e querer agredir o juiz e o jogador do Flamengo.
O futebol nos torna em animais irracionais. É impossível torcer com rival do seu lado, seja quem for. Mesmo se tiver simpatia pelo time adversário, como acontece comigo e os botafoguenses, que é o meu segundo time de coração. A fúria toma conta do seu corpo e o transforma como aqueles zumbis que buscam apenas por sangue e carne humana. O futebol nasceu com a violência (tanto que começou no oriente, onde a bola eram cabeças) e depois foi reinventado na Inglaterra, onde o maior número das brigas entre torcidas encabeça os placares de socos, chutes e pedaços de pau, por ironia.
Mas isso não nos surpreende. Enquanto os ingleses nasceram para brigar, os brasileiros foram “nascidos para jogar futebol”. O resto, deixa com o Lula.
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Confissões de uma mente poluída
Devo confessar: às vezes queria ser meu cachorro, o Korzus. Enquanto escrevo, ele está deitado no meu pé dormindo em um sono, que em nenhum momento será atrapalhado para fumar ou por pesadelo. Um sono em que não deva se preocupar com nada ao redor. Ao acordar, ele não olha para o relógio, nem acorda antes de um possível despertador.
Hoje, dia 11 de fevereiro, acordei numa súbita tremedeira e nervosismo. Uma grande alergia à vida tomou conta da minha pele. Não queria retomá-la tão cedo. Estava acostumado ao irreal e das mentiras. Devemos confessar que viver de mentiras é muito mais fácil. Mas é a maneira mais difícil de levá-la para sempre. Ok. É hora de levantar e ir enfrentar as tropas iraquianas, suas armas biológicas e seus argumentos incompreensíveis.
A partir de hoje, é comum encontrar inúmeras matérias sobre desemprego e maneiras de como organizar seu currículo. É, Korzuz, devo tirar os meus pés e incomodar seu sono. Queria te fazer companhia.
O meu suspiro é ouvido a quilômetros e aquela roupa que passei ontem é envolvida sobre meu corpo. Estava me sentindo como quando eu era garoto que esperava ansiosamente acabar a aula e ir embora antes do grandalhão, que arrumei confusão no recreio, resolva me fazer de mola na saída. Medo da briga. É bem parecida com essa sensação. Não adianta. Vou voltar com o olho roxo pra casa.
Na quarta feira de cinzas o padre dizia que devíamos jejuar os vinte dias até à páscoa. Isso seria uma boa desculpa. Mas até lá, iria para o beleléu de anemia. Não tem mais desculpa. A realidade é um remédio tarja preta. Ele cura as nossas alucinações temporárias. Blocos de carnaval, praia, leituras do jornal às 11:00 da manhã, café frio e Globo Esporte, tão cedo. Agora é textos, ônibus cheios, horas contadas, correria e café quente.
Parece que vejo meu futuro: 261 cheio, as mesmas músicas no player do meu celular, bater aquele ponto (que um dia vai me dar tendinite), o abraço da volta, o retorno das mesmas conversas, a divisão do mesmo trabalho, o café seguido pelo cigarro e a saudade de casa. Bem diferente da última tarde em que estivemos bebendo cerveja pré-natal.
Ainda sinto aquelas cinzas espalhadas que a sacristia deixou na minha cabeça. Espero que estejam me protegendo desde então. Faço o sinal da cruz. Tomo banho e me visto de preto como Johnny Cash. “Talvez esteja indo a um enterro”, dizia ele. O macarrão requentado de ontem e a carne moída frita com salsa esterilizada e queijo ralado em cima, encheram meu prato em câmera lenta. “Ótimo plano”, pensei. Ok, me chamem de Scorsese novamente. Isso me dá um apoio e tanto.
O Korzus acorda, porque sentiu o cheiro da carne temperada. Seus olhos esbugalhados concentram-se no meu. Achei que ele me hipnotizava como a legião do Paulo Coelho. Mas ele estava incorporado pela fome e gula, só isso. “Toma Korzus, coma o último pedaço”. E assim, ele limpa o chão. Levanto-me, escovo os dentes e parto para a luta. O meu medo da briga toma conta. Vou sair machucado nessa, pode ter certeza.
Agora chegou a hora. A retomada da vida. Essa é a natureza das coisas. Perdi muitas coisas nesses últimos meses. Coisas importantes, até. A natureza quer que a vida siga da maneira que ela, a vida, deseja. A natureza dá satisfações à vida, como eu a meu chefe. Acredito que a natureza do ser humano é querer viver feliz e estar tranqüilo a todo o tempo. Mas a natureza é morta.
Abraço.
Postado por Fabrício Alves às 10:16 2 comentários
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
In Memorian
A tarde de 30 de janeiro de 2008 foi uma das piores da minha vida. Via uma tarde serena e, desta vez, sem chuva. Daquelas semelhantes à de Janeiro de 1998, em que havia catástrofes, deslizamentos e enchentes devido às chuvas torrenciais na Cidade da Guanabara. Começou com uns telefonemas indesejados. Mensagens, voz fria e desprezo. Era esse o melhor método, no momento, para mim.
No fim da tarde outro telefonema me assustou. Entrei dentro da igreja de São Januário e rezei. Sei que não é o suficiente, mas creio que ajudaria um pouco. Era tarde demais.
No banho, a água feria minha costa doída. O celular tocou novamente. Era a notícia.
Não conseguia nem falar. Paralisado, não me lembrava o que havia respondido. Saí do banho e sentei ali, no escuro, com um cigarro acesso. Não conseguia acreditar. E não acredito até o momento.
Não vou alongar o texto, porque nem minhas palavras têm força no momento. Esse testemunho deixa à mostra todo o meu lamento. Que a imagem dela esteja mais presente que nunca. Que a força dela esteja junto à deles. Eles precisam. Esteja com Deus.
Abraço.
Postado por Fabrício Alves às 16:34 4 comentários
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
A Baía dos Porcos é aqui
O Rio amanheceu chovendo. Barulhos ensurdecedores de fortes goteiras no telhado, um grande vasto de nuvem acumulou no céu como se fosse uma grande nave espacial. Nada me fazia tirar daquela cama. A não ser: a própria vida. Um grupo de músicos do exército tocavam suas cornetas e me fizeram deslocar do colchonete para o chão. Não havia jeito: tinha que me levantar.
Levantei-me e bati com a cabeça na janela. Uma sensação de raiva e ojeriza tomava conta do meu corpo logo na manhã. Desloquei-me até o computador e o liguei. Em cima do PC encontrava o meu Hollywood vermelho e acendi aquele cigarro matinal. Em casa, as pessoas andavam de um lado e de outro. Meu pai escrevia uma lista de compras, minha dava o remédio para o cachorro dentro de uma carne e um amigo meu, o Rafael, me cumprimentava e enchia seu copo de açúcar, no café ainda pelando. Dizia a ele, quase sem voz, que já ia me arrumar.
Abri o chuveiro e deixei meu cigarro em cima do cinzeiro do banheiro. Enquanto tomava banho, a água gelada me cortava como faca. Saí do Box achando que estava em alguma estação do Pólo Norte e me enxuguei rapidamente. O meu cigarro já estava pela metade e dei os últimos tragos ali mesmo.
No relógio já marcavam 9:20 e achei que estava atrasado. O Rafael já me olhava atravessado, já que marcamos de sair dali 9:00. Maldito despertador. Por isso não acredito na tecnologia. Após umas rosquinhas de coco e um café com leite de acordo com a temperatura, me senti pronto para sair. A impressora já havia feito o serviço e desliguei rapidamente o computador. Adoro a tecnologia.
Andávamos rapidamente, como se fosse num enterro. As ruas pareciam um subterrâneo. Muitas poças, luz sombria, pessoas com faces escondidas em seus guarda-chuvas e grossas gotas de chuvas caindo em meus óculos. O meu cigarro já estava molhado, mas, porém, acesso. Acesso como minha raiva e meu mal humor.
Dentro do ônibus, o Rafael conversava sobre muitas coisas, e, não por mal, minha cabeça não estava ali. Milhares de assuntos passavam pela minha cabeça naquele momento e não conseguia estar em um só lugar com tantos elementos. Na cabeça de trabalhadores como eu, esses elementos são semelhantes como chuva de papel, como naqueles do Centro da Cidade no dia 31 de Dezembro. No meu invisível DJ, tocava “The Shape I’m In” da The Band. Mais um motivo de dar um fim naquela “chuva de papel” e deixar a música invadir meu cérebro.
Enquanto viajava no ônibus, gostaria de ser um daqueles gangsters, que apagavam pessoas que incomodam a você e a sua família. Não gostaria de ser como esses babacas que ficam no ônibus e metrôs se preocupando com contas e pedindo empréstimos bancários para alinhar um lado e desalinhar outro. Esses idiotas que estudam e depois passam boa parte do tempo procurando emprego. A vida seria mais fácil. Mas quem disse que para mim essa vida seria suficientemente fácil?
James Joyce dizia que você tem que tomar conta e não deixar o sistema te consumir. Quando, no fundo, somos todos consumistas. Não se tratando apenas de capitalismo, mas também de sentimentos, de problemas e autodestruição. “Todos tem uma chance contando que valha a pena”. Grande James Joyce. Pena que nunca teve que procurar emprego.
Chegando ao Centro da Cidade, observei o acúmulo de pessoas que apresentavam mesmos problemas que os meus e os do Rafael. As pessoas andavam como zumbis, tele-guiados por um só problema. As ruas pareciam uma igreja, onde seus fiéis se concentravam no mesmo pensamento, nas mesmas circunstancias. Se Mao-Tse Tung estivesse ali, me diria: “Não disse? A religião é o veneno do povo”. Iria concordar com o carequinha matador chinês nesta hora.
Uma fila enorme fez do pobre Rafael desistir e seguirmos outros caminhos. De prédio em prédio, de fila em fila, depositamos todos nossos esforços em cada torres gêmeas daquelas. A quantidade de papéis era capaz de fazer, no mínimo, um livro de contos do Veríssimo. No Brasil, a quantidade de inúmeros picaretas e sonhadores são tão acumulativos que faríamos uma Baía dos Porcos sem hesitar.
Meus sapatos e meu ânimo já não eram mais suficientes para suportar aquilo. Passei a bola para o Rafael, que fez o desfecho daquela jornada insólita. Acendemos o último cigarro, bebemos o último café e nos despedimos desejando sorte para cada um. Dei minha última cartada à frente e fui ao banco. Parei no balcão do banco, semelhante a uma daquelas mesas de restaurantes PF, para fazer conta com mais dois colegas de banco. É exatamente isso. Almoçamos preocupações. Digerimos números. E escovamos os dentes de mentiras.
Tomei o ônibus como muitos iguais a mim. Éramos como grupos refugiados. Iguais aquele criminosos cubanos. Saindo da Baía dos Porcos, rejeitados, melancólicos, asfixiados e claustrofóbicos. O suficiente para dar golpe de estado.
Abraço.
Postado por Fabrício Alves às 15:00 1 comentários