Na Sexta conversava com um casal amigo, Álvaro e a Camila – a famosa reunião dos carcamanos – nada melhor que sentar num bar em um dia sagrado pelos cariocas, condenado pela chuva e frio. Não queria estar em nenhum lugar a não ser ali, com eles, retomando àquelas antigas conversas, antigas piadas e costurando novos acontecimentos. Foi como se estivesse voltando para casa, depois de uma excursão no Tibet. Afinal, desde janeiro ou fevereiro que eu não via a Camila, nem conversava com a mesma intensidade com o mestre Álvaro
Foi aí que o post abaixo, sobre mudanças, fazia mais sentido. Não, não vou retornar à esse assunto. E sim como as coisas se tornam imprevisíveis. Durante toda a nossa conversa foi reflexo de como estávamos angustiados e cansados de decepções. Vimos como as pessoas que estão perto de você pode ser mais perigosas que imagina. Você, literalmente, pode dormir com o inimigo, levar café na cama pra ele e levar uma naipe nas costas como nos filmes de Charles Bronson.
Eu ainda não sei até onde vai a cabeça das pessoas, mas é bem complexa, digno de estudos. Estou começando a achar que a psicologia/psiquiatria/terapia/treparia são talvez os estudos mais importantes das faculdades. Enquanto conversava com eles, a minha cabeça voava para os meus planos do fim de semana: estuda uma apostila de 200 páginas, assistir a Era Uma Vez No Oeste de novo e visitar a minha tia. Devo admitir que só a visita, que estava programada para ser feita no sábado, foi feita no domingo. Enquanto eu atravessava a ponte na Presidente Vargas com meu pai, avistava um bando de senhoras no ponto. Parecia a excursão de um Woodstock católico, com beatas doidonas e seus artigos chapadões como a água benta nas mãos. Eu desci e elas continuavam ali, rindo e falando de doenças como os jovens da década de 60 comentasse do novo álbum do Joe Cocker. Eu e meu pai continuamos com a conversa da semana, que foi a derrota do Botafogo para o Figueirense, mas sem deixar de observar aquelas velhas que seguravam as maçãs para as Brancas de Neve (ou será Bela Adormecida?). O 217 chegou no ponto e esse grupo de velhas entraram conosco e sentaram-se no banco de trás rindo e falando sobre suas amigas, conhecidas e sobrinhos distantes que terão que operar no hospital do Andaraí. Descemos no ponto final acompanhados por esse bando e um casal xexelento que se roçavam no banco da frente, e fui comprar o meu cigarro. Precisava de um. Quando havia subido a gigantesca rampa do hospital, havia mais dessas velhas espalhadas em todo a frente do hospital, como bando de gangues. Deixei meu pai na fila da recepção para pegar as identificações e resolvi ir ao banheiro. É irreversível a situação do estado referente á saúde. Pessoas espalhadas pelos corredores em macas e seus nomes em papéis amarelados com fita durex nas paredes para identificar os doentes. Um grito ecoando no corredor de uma criança deixava o ambiente mais neurótico do que já é. O meu egoismo falou mais alto: “Vou acabar pegando uma infecção nessa porra”. Bem, até agora não tive sinal nenhum de doença. Me encontrei novamente com o meu pai e subimos para o oitavo andar aonde minha tia estava internada. Após meia hora pela procura do seu quarto, conseqüente ao péssimo atendimento, furei a palavra de “homem” do recepcionista e entrei nos quartos para achar a minha tia. E a encontrei. Eu e meu pai entramos, conversamos durante a meia hora que nos restavam. “Não quero assistir TV aqui, quero assistir em casa. Me tira dessa porra”, dizia a minha tia. Fomos embora e logo me toquei quando entrei nos quartos, quando via aquela corja de velhas no ponto de ônibus rezando com o terço nas mãos e espalhando água benta pelos quartos enquanto a família dos pacientes se sentiam esclusas entre ave-marias e pai-nossos. Pensei: até onde vai o Voyerismo das pessoas? Qual será a ereção na medida de pessoas que gostam de ver outras sofrerem? Para mim não muito diferente dos grandes públicos medievais ao ver criminosos sendo enforcados e bruxas queimadas.
Talvez esses enforcados e carbonizados sejam vítimas desses grandes senhores feudais e bispos das igrejas. Ou seja, nós. Será que eu sou bom o suficiente em comparação a essas pessoas? Talvez elas estejam sendo melhores do que eu, rezando por alguém não tão próximo e eu apenas estive assistindo àquelas pessoas perfuradas em soros e deitadas em seu leito. Talvez, não sei.
E se tratando de julgamento vejo muitos exemplos; o amigo meu, o Tadeu, sofre por julgamentos diários, que não cabe aqui dizer quais são, mas eu sei que muitos estão errados. Já passou pela minha cabeça julgá-lo também, ele sabe disso. O julgamento é mais fácil de ser feito do que o voyerismo. Eu mesmo, nessa semana cansei de escutar: “Fabrício, você não sabe o que quer.” Ora, se você sabe tanto o que eu não sei o que eu quero, talvez saiba que eu sei o que eu quero! Eu sei tanto o que eu realmente quero, assim como eu sei que gosto de mulher. O gosto dos meus sonhos estão tão perto como o gosto das mulheres. Se sou bem resolvido como homem, graças à Deus, sou bem resolvido do que realmente quero. Não restam dúvidas disso. Pra dizer a verdade, nem na minha adolescência, passou por mim a dúvida. E voltando ao papo de Sexta, durante aquele gourjão de frango que escorregava no meu prato, comentei sobre pessoas que vivem me sondando. São dois fatos das pessoas quererem te sondar: ou deseja algo que ainda não teve e quer conseguir através de alguma informação sua ou pretende escrever um livro sobre uma vida normal. Para quem lê esse texto, sabe que eu tenho ojeriza à pessoas que jogam verde, querendo colar informações suas. O fato de eu ser jornalista não significa que devo ser jornalista à todo o tempo. Sentia falta da velha reunião dos carcamanos. Dos chopps, da velha piada do São Jorge, dos aperitivos gordurosos, das risadas profundas e dos mesmo assuntos incansáveis.
E para quem reclamar que isso é nostalgia, digo uma coisa: só se tem nostalgia quem tem algo para contar.Abraço.
P.S. E se tratando do texto, vou homenagear o Tadeu com a música do Lobão. Ele vai entender. rs.
-------------------------------------------
Gostei dos comentários do texto “Essência não muda. Mas problemas e pessoas sim.”. Se tornaram contraditórios sobre o texto e dos outros comentários. Essa é a essência do Bar.
2 Comments:
Vossa excelência esta coberto de razão ao dizer que das condições da saúde pública do país. Simplesmente calamitosa onde morrer com dignidade é dádiva.
Fafoso,
Li com atenção e não consegui entender seu problema com as velhinhas... Pessoas religiosas tem trabalhos voluntários de visitas as pessoas enfermas e acho isso muito nobre!
Há estudos científicos que comprovam melhoras no quadro de pessoas que receberam visitas quando estavam hospitalizadas, quer dos doutores da alegria ou de algum grupo religioso.
Em fim...
Saudades de tu fdp!
Bjundas
Post a Comment