quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Autópsia Cinematográfica



Hoje, dia 29 de agosto, é o dia nacional do combate contra o fumo. E eu como um bom fumante, acendi um cigarro para comemorar. Seria de suma importante se todos os fumantes parassem de fumar, por devidas circunstâncias: dentes amarelados, cheiro impregnado em milhas de distância, desespero para sair de uma sala de cinema/igreja/exposição, gasto de dinheiro e as infinitas doenças que todos nós já sabemos.

Mas devo dizer: o cigarro combate contra depressão, ansiedade e desgaste da comida após o almoço (isso aqui é uma regra que eu inventei e que dá certo pra mim).

O que vocês devem estar se perguntando é o que isso tem a ver com a coluna Autópsia Cinematográfica. O cigarro tem tudo a ver com o cinema. Creio que resolvi experimentar um cigarro com os filmes do que propriamente o meu pai, que fuma desde 1958. Meu primeiro cigarro foi durante um jogo amistoso da seleção Brasileira contra Honduras em 1994. Enquanto aquela goleada irrelevante se formava, eu não tirava da cabeça a imagem de Nick Nolte em 48 Horas. No banheiro, escondido, acendi um L&M Light, onde toda fumaça desenhava nos ladrilhos e se embaralhavam com a água caindo da torneira, eu queria ser aquele policial durão que distribuía socos e chutes em todos os lugares em que entrava.

Nick Nolte é um cara durão até hoje. Mesmo sendo o pai vulnerável de Bruce Bana em Hulk ou o Padre que toma conta de um menino prestes à morrer em Northfolk ou o avô responsável em Clean. Em todos esses filmes, ele fuma. Mesmo não acendendo um cigarro, ele faz aquele tipo que acende um durante as refeições. Nos filmes de Scorsese - é claro que ele está nos seus filmes. Além de ser um dos melhores atores da história de Hollywood (sem trocadilhos com o cigarro) – ele é um fumante ativo. Em Cabo Do Medo ele é um advogado ex-fumante. Mas deve que voltar ao vício depois das perseguições de Robert De Niro. Em Lições de Vida, uma das histórias de Contos de Nova York, Nolte é um pintor barbudo em crise existencial que bebe e fuma o dia todo. Em Lições de Vida ele vive a pior doença de um fumante: a ansiedade. Ele não consegue pintar e se inspirar sem a a sua assistente a quem é apaixonado por perto. Quando volta, os últimos dias do relacionamento em crise, o cigarro é a fonte de raiva e inspiração.

Voltando para as décadas jurássicas, Rita Hayworth protagonizou o maior marketing de cigarro no cartaz de Gilda. Em qualquer canto que se conte a história dos cartazes de cinema, é impossível não citar Rita com aquele cigarro afundado numa piteira com a pose sensual imortalizada quanto a de Marilyn Monroe tendo seu vestido levantado pelo vento do metrô. O consumo de cigarros pela parte das mulheres aumentou 39%. O cigarro fazia das mulheres livres e independentes, providas de talento e segurança.

Os garotos da época brilhantina fez do cigarro sinônimo de "machitude" e rebeldia. Um rapaz de jeans, gel no cabelo e roupas coladas, intitulado James Dean, fez toda aquela garotada da década de 50 consumidores de cigarros. Autonomia, segurança, rebeldia e aventuras não podiam faltar sem cigarros. Além dos empreendedores de bebidas, as empresas de cigarros fizeram a estratégia de trazer o público jovem assumir o consumo do tabaco. Homens, mulheres e depois...os jovens. Um grande preparo para as próximas décadas psicodélicas. Já que, no final da década de 60, as meninas de 20 anos, apaixonadas pelos Beatles e Ronettes, foi o ponto fulminante para que as meninas, ainda recatadas, fumassem dos pais escondidas.

Pronto: estava formada a onda de todos, e o cigarro seria consumido como pão.

O que faria os ministérios públicos para chamar a atenção das doenças? Campanhas e mais campanhas contra cigarro. Da mesma forma que as campanhas de drogas são feitas hoje. Um diabo com rabo mostrando as chances de viver com ele se começar a fumar. Daí, as religiões evangélicas entraram de sola, alfinetando as outras que liberavam e que usavam para os cultos.

Um dos filmes que mais citou isso foi o recente Obrigado Por Fumar. O personagem de Aaron Eckart, que fuma pra dedéu em A Dália Negra, é um porta-voz de uma empresa de tabaco. O ministro da saúde, uma espécie de Bush complacente, promove a campanha de colocar imagem de pessoas doentes no lugar dos logos dos cigarros, acabando com a arte e a marca. Acontece que Aaron é descolado e tem como parceiro a representante empresas de remédios e um representante das armas. Os três se reencontram regularmente para confabular e trocar idéias os seus negócios. Daí você não sabe quem é exatamente o vilão: o representante de cigarro, que faz que todos continuem fumando, ou o ministério negligente e moralista, que apenas quer chamar a atenção. É um filme super recomendado aqui do bar.

Há pouco tempo, um amigo foi o último da turma a se rendeu ao tabaco do Marlboro vermelho. Eu dizia a ele que descobriu tarde, já que é o melhor. Além de ser a marca mais famosa d mundo. E quem foi o responsável? Exatamente, o cinema. Posso citar três filmes em que os personagens de filmes atuais em que o Marlboro aparece: Caminho Sem Volta (Charlize Theron entrando numa boate), Os Infiltrados (Di Caprio sentado num balcão quando Jack Nicholson senta-se ao seu lado) e O Pagamento Final (Um traficante quando cede um isqueiro à Al Pacino). Concordo que o Marlboro é o melhor cigarro de todos. Mas devo dizer que é o cigarro mais intrigante devido ao cinema.

Outra forma de se idealizar uma marca de cigarro foi Quentin Tarantino, com o Red Apples. O cigarro definitivamente não existe. É uma marca inventada pelo próprio diretor, que é dono das histórias de seus filmes. Além de você ver Bruce Willis pedir um dele num bar em Pulp Fiction, em Kill Bill você vê um gigantesco cartaz do cigarro enquanto Uma Thurman anda pelo aeroporto. Admito ter vontade de experimentar um Red Apple.

Não é só do cinema que o cigarro fez seu pé-de-meia. Vimos festivais de músicas (Free Jazz, Hollywood Rock), contra-capas de discos (Meninos da Rua Paulo do Ira!), livros (o recente Só Para Fumantes de Julio Ramón Rybeiro) e até esportes (alguém se lembra dos comercais do Hollywood?)! Alguns deles já foram proibidas. Mas devo dizer, que esse fumante aqui, foi mais seduzido pelo tabaco devido ao cinema, do que ver meu pai acendendo um atrás do outro no maracanã. Me arrependo profundamente disso, admito. Mas como diria Robert De Niro em Cabo do Medo, temos vício para lembramos que somos seres humanos.

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A atitude do diretor José Padilha, do filme Tropa de Elite, é duvidoso. Se os DVDs piratas, que estão sendo vendidos em qualquer banquinha de camelô, não for estratégia de marketing, eu rasgo meu diploma de comunicação. Agora, se isso tudo é muita coincidência, ele deveria comemorar. Primeiro que o filme está inacabado, segundo que o filme terá outra demanda, e já vai estar sendo vendido como Block Buster. Isso não é comum no Brasil.

Abraço.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Enquanto isso, a melancolia se torna realidade



Odeio os PPS que recebo por e-mail com mensagens positivas e bonitas. Não por apenas ser extremamente carregados e daquelas variações de cores sofríveis, e sim porque ninguém leva a rixa aquelas mensagens positivistas. Eu quero ver na hora em que o sapato aperta e alguém se lembre das primeiras frases, respira fundo e segue o conselho do amigo internauta. Duvido muito. Sou dado como um homem forte espiritualmente ou “coração peludo” (que definitivamente ninguém entendeu o verdadeiro significado desse vulgo). Eu digo que sim, não levo a rixa por ser alguém que leva a febre das ruas nas costas. Não posso me identificar com filmes como Dirty Dancing, se a minha vida está para mais para os filmes de Spike Lee. Não conseguiria levar uma Levada Louca da Ivete, se o meu sangue está nas poesias de um Kurt Cobain. Eu quero dizer com tudo isso, que nossas vidas hoje é praticamente um quarto escuro. Só se acredita em fé quando pensa-se em salvação. Estamos todos num meio de trincheiras. Veja o país, dominado por um presidente que se mostra vulnerável e de uma baixa estima dominada criada por seus homens de segurança. Um Ronald Reagan dos novos tempos. Um absurdo molde de discurso para os mais pobres de intelecto e um medo terrível de estar em frente aos de bom senso e pensantes. Uma grande farsa, uma mentira insuperável. Talvez o maior marketing feito na história do país. Agora fecho que faz sentido quando me disseram pra deixar de ser “o cara de Taxi Driver”. Será se eu larguei aquilo? Não sei. Creio que uma outra hora estoura novamente. A melancolia estão nos nossos livros, nas páginas de nossos jornais, nas ruas onde passamos. A sujeira e as mentes perversas dos seres humanos da qual nos esbarramos. Minhas figuras favoritas são as mais indisciplinadas, de difícil temperamentos e anti-convencionais como Edmundo, Lobão, Nasi, Robert De Niro, Dostoievski...São pessoas que você pode sentar num bar, pedir uma bebida e conversar normalmente. Não soam fakes como João Gordo, Daniel Filho, Marcelo D2, Chorão do Charlie Borwn ou Clodovil, que são metidos à besta e à polêmicos. Dias atrás estava em frente à TV e via no Multishow um clipe de um desses grupos novos, que inexplicavelmente se chama NX Zero. Eu tentava entender na canção de amor deles a seguinte frase: “As vezes eu acho que não sou o melhor pra você”. E a todo momento o carinha dizia que sentia saudade e que não vivia sem a Fernanda Lima do clipe. E é incrível esses garotos são agora: autoflagelação para soar um doce cafajeste. Bem parecido com aquilo que falei das músicas sobre a ditadura, do tipo “o que será, que será?”: Soluços de seus próprios pecados. Já disse aqui que odeio pessoas que fazem tipo. Tipo de inteligentes, de românticos e simpáticos. Realmente não dá pra entender este tipo de postura. Ao contrário deles todos, Mister Catra está mais para artista e ser humano, do que esse bando de colegiais do interior de São Paulo. Assim, mostra-se a profecia, da qual vou confessar à vocês: essa pessoa que escreve aqui é mais vulnerável que pensam. Essa melancolia coletiva é fruto de toda essa paranóia que passamos no país. Presidente querendo ser um Zapata inexistente, da qual não sabe o rumo de seu governo. Famílias chorando pela perda de entes queridos, enquanto empresários recebem prêmios. Banqueiros acumulando R$ 4 bilhões em seis meses só de CPMF. Imposição das empresas privadas, onde o próprio o salário é mero favor. A classe baixa recebem bolsa e a classe alta aumentam seus bolsos, enquanto a classe média – grande maioria da população - ficam a ver navios. As igrejas evangélicas tomando posturas de um João Batista enganando o mais necessitado (perdoe-me, se falam mal da igreja católica e ninguém se importa, também tenho o direito de falar dos evangélicos). Um bando de voyers sim. Só se importam com a pobreza e tristeza, enquanto a classe média fica em sinuca de bico. Isso não os fazem se importar com a infeliz situação e sim uma postura orgulhosa e egoísta. Um sábio chinês (Raul Seixas que o diga) chamado Xiapong dizia: “Não importa se um gato é preto ou branco. E si, se ele vai caçar o rato”. Nelson Jobin foi feliz em cita-lo. Nessa altura precisamos de soluções, não de teorias. Isso se aprende nos livros, não nas ruas. E, voltando aos textos positivistas, só duas pessoas me convenciam de que a vida é mais bela que não podemos imaginar: Bretch e Clarice Lispector. Talvez porque me identifico com eles. Pessoas que não se importavam em consumir maiores números de cigarros, viviam em terras fétidas e não perdia as esperanças. Porque amigo, se você perde as esperanças, não sei mais o que você pode perder.
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Em falar em São Paulo, o meu irmão resolveu parar pra assistir o programa do Milton Neves. O irrelevante Vampeta se promovia dizendo, com erros de concordância terríveis, sobre o futebol carioca. Este baiano que comia cactos no sertão da Bahia, disse certa frase:

- O vasquinho do seu Eurico caga no pau, e eles não ganham títulos há muito tempo (público apladindo). Na Quinta-feira vai levar um sacode da gente no chiqueiro deles (público apladindo). Eles (os cariocas) cagavam uma goma na tabela, mas agora eles vão ver os paulistas. Sou paulista, vesti a camisa (o público ovaciona Vampeta).

O ar arrogante do cangaceiro peladão só traz nova paranóia de paulistanos e cariocas. Ei, Vampeta! Porque você não vai cuidar da plantação de macaxeira do seu país, que nós, cariocas e paulistas cuidamos das nossas nações? Ou, se quiser, vai da cambalhota na frente do Lula agora, já que ele é corintiano. Talvez ele aproveite para dar uma cambalhota pra sair do governo.

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Não vamos perder o tempo falando de Vampeta, e sim de pessoas que subiram, que nesse momento devem estar fazendo filmes lá em cima com Hitchcock, Kubrick e Passolini: Michelângelo Antonioni e Ingmar Bergman. Como os dois não deveriam se ver há um bom tempo, desde o Cannes de 2003, eles resolveram se ver de forma inusitada. Assim como aquele acidente terrível da TAM há três semanas atrás, o Bar está de luto também com esses dois mestres que fizeram história na sétima arte, fazendo valer a importância da arte mais importante dos últimos dois séculos. Que vossas reencarnações tenham tamanho talento como os antecessores.
Abraço.