Hoje, dia 29 de agosto, é o dia nacional do combate contra o fumo. E eu como um bom fumante, acendi um cigarro para comemorar. Seria de suma importante se todos os fumantes parassem de fumar, por devidas circunstâncias: dentes amarelados, cheiro impregnado em milhas de distância, desespero para sair de uma sala de cinema/igreja/exposição, gasto de dinheiro e as infinitas doenças que todos nós já sabemos.
Mas devo dizer: o cigarro combate contra depressão, ansiedade e desgaste da comida após o almoço (isso aqui é uma regra que eu inventei e que dá certo pra mim).
O que vocês devem estar se perguntando é o que isso tem a ver com a coluna Autópsia Cinematográfica. O cigarro tem tudo a ver com o cinema. Creio que resolvi experimentar um cigarro com os filmes do que propriamente o meu pai, que fuma desde 1958. Meu primeiro cigarro foi durante um jogo amistoso da seleção Brasileira contra Honduras em 1994. Enquanto aquela goleada irrelevante se formava, eu não tirava da cabeça a imagem de Nick Nolte em 48 Horas. No banheiro, escondido, acendi um L&M Light, onde toda fumaça desenhava nos ladrilhos e se embaralhavam com a água caindo da torneira, eu queria ser aquele policial durão que distribuía socos e chutes em todos os lugares em que entrava.
Nick Nolte é um cara durão até hoje. Mesmo sendo o pai vulnerável de Bruce Bana em Hulk ou o Padre que toma conta de um menino prestes à morrer em Northfolk ou o avô responsável em Clean. Em todos esses filmes, ele fuma. Mesmo não acendendo um cigarro, ele faz aquele tipo que acende um durante as refeições. Nos filmes de Scorsese - é claro que ele está nos seus filmes. Além de ser um dos melhores atores da história de Hollywood (sem trocadilhos com o cigarro) – ele é um fumante ativo. Em Cabo Do Medo ele é um advogado ex-fumante. Mas deve que voltar ao vício depois das perseguições de Robert De Niro. Em Lições de Vida, uma das histórias de Contos de Nova York, Nolte é um pintor barbudo em crise existencial que bebe e fuma o dia todo. Em Lições de Vida ele vive a pior doença de um fumante: a ansiedade. Ele não consegue pintar e se inspirar sem a a sua assistente a quem é apaixonado por perto. Quando volta, os últimos dias do relacionamento em crise, o cigarro é a fonte de raiva e inspiração.
Voltando para as décadas jurássicas, Rita Hayworth protagonizou o maior marketing de cigarro no cartaz de Gilda. Em qualquer canto que se conte a história dos cartazes de cinema, é impossível não citar Rita com aquele cigarro afundado numa piteira com a pose sensual imortalizada quanto a de Marilyn Monroe tendo seu vestido levantado pelo vento do metrô. O consumo de cigarros pela parte das mulheres aumentou 39%. O cigarro fazia das mulheres livres e independentes, providas de talento e segurança.
Os garotos da época brilhantina fez do cigarro sinônimo de "machitude" e rebeldia. Um rapaz de jeans, gel no cabelo e roupas coladas, intitulado James Dean, fez toda aquela garotada da década de 50 consumidores de cigarros. Autonomia, segurança, rebeldia e aventuras não podiam faltar sem cigarros. Além dos empreendedores de bebidas, as empresas de cigarros fizeram a estratégia de trazer o público jovem assumir o consumo do tabaco. Homens, mulheres e depois...os jovens. Um grande preparo para as próximas décadas psicodélicas. Já que, no final da década de 60, as meninas de 20 anos, apaixonadas pelos Beatles e Ronettes, foi o ponto fulminante para que as meninas, ainda recatadas, fumassem dos pais escondidas.
Pronto: estava formada a onda de todos, e o cigarro seria consumido como pão.
O que faria os ministérios públicos para chamar a atenção das doenças? Campanhas e mais campanhas contra cigarro. Da mesma forma que as campanhas de drogas são feitas hoje. Um diabo com rabo mostrando as chances de viver com ele se começar a fumar. Daí, as religiões evangélicas entraram de sola, alfinetando as outras que liberavam e que usavam para os cultos.
Um dos filmes que mais citou isso foi o recente Obrigado Por Fumar. O personagem de Aaron Eckart, que fuma pra dedéu em A Dália Negra, é um porta-voz de uma empresa de tabaco. O ministro da saúde, uma espécie de Bush complacente, promove a campanha de colocar imagem de pessoas doentes no lugar dos logos dos cigarros, acabando com a arte e a marca. Acontece que Aaron é descolado e tem como parceiro a representante empresas de remédios e um representante das armas. Os três se reencontram regularmente para confabular e trocar idéias os seus negócios. Daí você não sabe quem é exatamente o vilão: o representante de cigarro, que faz que todos continuem fumando, ou o ministério negligente e moralista, que apenas quer chamar a atenção. É um filme super recomendado aqui do bar.
Há pouco tempo, um amigo foi o último da turma a se rendeu ao tabaco do Marlboro vermelho. Eu dizia a ele que descobriu tarde, já que é o melhor. Além de ser a marca mais famosa d mundo. E quem foi o responsável? Exatamente, o cinema. Posso citar três filmes em que os personagens de filmes atuais em que o Marlboro aparece: Caminho Sem Volta (Charlize Theron entrando numa boate), Os Infiltrados (Di Caprio sentado num balcão quando Jack Nicholson senta-se ao seu lado) e O Pagamento Final (Um traficante quando cede um isqueiro à Al Pacino). Concordo que o Marlboro é o melhor cigarro de todos. Mas devo dizer que é o cigarro mais intrigante devido ao cinema.
Outra forma de se idealizar uma marca de cigarro foi Quentin Tarantino, com o Red Apples. O cigarro definitivamente não existe. É uma marca inventada pelo próprio diretor, que é dono das histórias de seus filmes. Além de você ver Bruce Willis pedir um dele num bar em Pulp Fiction, em Kill Bill você vê um gigantesco cartaz do cigarro enquanto Uma Thurman anda pelo aeroporto. Admito ter vontade de experimentar um Red Apple.
Não é só do cinema que o cigarro fez seu pé-de-meia. Vimos festivais de músicas (Free Jazz, Hollywood Rock), contra-capas de discos (Meninos da Rua Paulo do Ira!), livros (o recente Só Para Fumantes de Julio Ramón Rybeiro) e até esportes (alguém se lembra dos comercais do Hollywood?)! Alguns deles já foram proibidas. Mas devo dizer, que esse fumante aqui, foi mais seduzido pelo tabaco devido ao cinema, do que ver meu pai acendendo um atrás do outro no maracanã. Me arrependo profundamente disso, admito. Mas como diria Robert De Niro em Cabo do Medo, temos vício para lembramos que somos seres humanos.
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A atitude do diretor José Padilha, do filme Tropa de Elite, é duvidoso. Se os DVDs piratas, que estão sendo vendidos em qualquer banquinha de camelô, não for estratégia de marketing, eu rasgo meu diploma de comunicação. Agora, se isso tudo é muita coincidência, ele deveria comemorar. Primeiro que o filme está inacabado, segundo que o filme terá outra demanda, e já vai estar sendo vendido como Block Buster. Isso não é comum no Brasil.
Abraço.