quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Nascidos para arrumar rebuliços

Tumulto. Filas. Gritarias. Roletas quebradas. Confusões. Uma enorme rampa. Um cordão humano de policiais para te revistar. Foram assim todos esses anos. Desde os meus sete anos de idade. O mais incrível que nunca fiz questão de não ir. Quando se falam em estádios de futebol, a palavra “confusão” vem sempre em mente das pessoas. O incrível que essas mesmas pessoas enfrentam tudo isso em micaretas ou shows ao ar livre, que, por vezes, é até pior e mais perigoso. Sei do que eu falo, porque já estive lá (menos micareta).
A imprensa sempre vem à tona com morte de torcedores de um time rival, que foi espancado e levou três tiros no peito. O último a ser reportado foi o torcedor do botafogo morto no último clássico, que deu o título ao time deles. O que as pessoas devam levar em consideração, que não é o futebol em si. E sim, essas grandes gangues que, a imprensa ainda insisti em chamá-los de “marginais”, resolvem suas pendências no estádio ou fora dele. Se você levar em consideração, é dificílimo encontrar uma notícia de que algum torcedor morreu DENTRO do estádio. Se isso foi mencionado em alguma página ou em algum telejornal, foi porque alguém, por descuido, caiu da arquibancada ou alguma grade rompeu e fizeram as vítimas serem hospitalizadas e não conseguirem resistir aos seus ferimentos.
Já estive nas épocas em que grandes brigas eram resolvidas nas arquibancadas. Lembro-me de que em 1989, um Botafogo x Fluminense no campeonato brasileiro, que tive a alegria do Vasco ter ganho aquele título com gol de Sorato, estávamos sossegados no nosso canto (Meu pai, meu irmão e eu), e a torcida Young Flu do Fluminense vinha em nossa direção. Percebi quando ainda estava terminando meu matte com aquele cachorro quente muquirana e maravilhoso feito de pão dormido e uma salsicha enferrujada (sério, o melhor cachorro quente que comi na minha vida). Aquela avalanche feita de vermelho, verde e branco vinha em nossa direção. Um ar gelado havia tomado conta do meu corpo. Olhei para a minha esquerda, onde havia outra avalanche. Agora de preto e branco. Eu era apenas um garoto vestido de Vasco que estava comendo seu sanduíche. A torcida do Fluminense recuou. Não era a área deles. Os PM’s se aproximavam com cacetetes, mas ainda não havia feito nada. Afinal, a torcida rival havia desistido de enfrentar seus oponentes. Os policiais eram mais conscientes ou era uma época em que havia menos violência? Acho que a violência não mudou desde a idade da pedra.
Ao decorrer dos anos presenciei muitas brigas e atentados no maracanã e São Januário. Lembro-me em 1995, quando a torcida do Santos invadiu o gramado de São Januário e a torcida Força Jovem seguiu a torcida paulista. Vi aquela briga de camarote. Desta vez com coca-cola e amendoim torrado. Um dos componentes da Força Jovem era um colega do colégio. Ele havia dado uma surra em um santista, que fez de seu rosto um purê. A imagem dele foi para todos os cantos do mundo da imprensa. Quando o encontrei na rua, ele estava com um hematoma gigantesco no rosto, dizendo que foram os policiais e depois os membros da torcida que reprovaram sua atitude.
Mas não restam dúvidas que foi entre Vasco x Flamengo que presenciei O Senhor da Violência em minha frente. Vi um torcedor do Flamengo sendo puxado entre as grades de São Januário na final do carioca de 1992. Outro torcedor do Flamengo sendo arrastado pelas arquibancadas do Maracanãzinho numa final de basquete no mesmo ano. Um torcedor do Flamengo jogar uma faca dentro de um ônibus na final do carioca de 1996 dentro do ônibus 665, onde a grande maioria dos torcedores eram vascaínos. Uma fileira de vascaínos sentados no meio fio da Quinta da boa vista feridos num jogo do Campeonato Brasileiro de 1999. Um levou um tiro, que havia pego de raspão na cabeça. Até hoje se vê o sangue manchado no chão. O que para mim é comum presenciar isso em São Cristovão.
Em todos esses anos, vi grande violência nos estádios e ao redor deles. Mas é distante deles em que as brigas afloram e as rivalidades se tornam grandes arenas romanas. E é isso que a imprensa não entende.
Agora, confesso que é fácil de se perder a cabeça dentro do estádio. Eu mesmo já quase fui preso uma vez. Também não levei uma grande saraivada de um segurança de três metros porque meu pai estava presente. Mas levo comigo uma marca de cacetete na perna, depois de defender um garoto de 10 anos que subiu as grades de São Januário para xingar os jogadores do Juventude. Seu pai se desesperava em ver um PM despreparado que se aproximava do garoto com aquele cacetete, que logo, viria me acertar em cheio. Menos mal.
Hoje já não sei o que acontece comigo e o futebol. Foi um casamento de 20 anos, que está presente apenas pelo afeto e não por amor. Não sinto a mesma emoção de antes, em que me dava vontade de entrar dentro de campo e querer agredir o juiz e o jogador do Flamengo.
O futebol nos torna em animais irracionais. É impossível torcer com rival do seu lado, seja quem for. Mesmo se tiver simpatia pelo time adversário, como acontece comigo e os botafoguenses, que é o meu segundo time de coração. A fúria toma conta do seu corpo e o transforma como aqueles zumbis que buscam apenas por sangue e carne humana. O futebol nasceu com a violência (tanto que começou no oriente, onde a bola eram cabeças) e depois foi reinventado na Inglaterra, onde o maior número das brigas entre torcidas encabeça os placares de socos, chutes e pedaços de pau, por ironia.
Mas isso não nos surpreende. Enquanto os ingleses nasceram para brigar, os brasileiros foram “nascidos para jogar futebol”. O resto, deixa com o Lula.

1 Comment:

.-°Renata°-. said...

Olá!
O Rio de Janeiro não é melhor nem pior... acho que a proporção de violência é a mesmas em um estádio em qq lugar!

bem lembrada a origem do futebol!
Como você está?!
Um beijão