segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A Baía dos Porcos é aqui

O Rio amanheceu chovendo. Barulhos ensurdecedores de fortes goteiras no telhado, um grande vasto de nuvem acumulou no céu como se fosse uma grande nave espacial. Nada me fazia tirar daquela cama. A não ser: a própria vida. Um grupo de músicos do exército tocavam suas cornetas e me fizeram deslocar do colchonete para o chão. Não havia jeito: tinha que me levantar.
Levantei-me e bati com a cabeça na janela. Uma sensação de raiva e ojeriza tomava conta do meu corpo logo na manhã. Desloquei-me até o computador e o liguei. Em cima do PC encontrava o meu Hollywood vermelho e acendi aquele cigarro matinal. Em casa, as pessoas andavam de um lado e de outro. Meu pai escrevia uma lista de compras, minha dava o remédio para o cachorro dentro de uma carne e um amigo meu, o Rafael, me cumprimentava e enchia seu copo de açúcar, no café ainda pelando. Dizia a ele, quase sem voz, que já ia me arrumar.
Abri o chuveiro e deixei meu cigarro em cima do cinzeiro do banheiro. Enquanto tomava banho, a água gelada me cortava como faca. Saí do Box achando que estava em alguma estação do Pólo Norte e me enxuguei rapidamente. O meu cigarro já estava pela metade e dei os últimos tragos ali mesmo.
No relógio já marcavam 9:20 e achei que estava atrasado. O Rafael já me olhava atravessado, já que marcamos de sair dali 9:00. Maldito despertador. Por isso não acredito na tecnologia. Após umas rosquinhas de coco e um café com leite de acordo com a temperatura, me senti pronto para sair. A impressora já havia feito o serviço e desliguei rapidamente o computador. Adoro a tecnologia.
Andávamos rapidamente, como se fosse num enterro. As ruas pareciam um subterrâneo. Muitas poças, luz sombria, pessoas com faces escondidas em seus guarda-chuvas e grossas gotas de chuvas caindo em meus óculos. O meu cigarro já estava molhado, mas, porém, acesso. Acesso como minha raiva e meu mal humor.
Dentro do ônibus, o Rafael conversava sobre muitas coisas, e, não por mal, minha cabeça não estava ali. Milhares de assuntos passavam pela minha cabeça naquele momento e não conseguia estar em um só lugar com tantos elementos. Na cabeça de trabalhadores como eu, esses elementos são semelhantes como chuva de papel, como naqueles do Centro da Cidade no dia 31 de Dezembro. No meu invisível DJ, tocava “The Shape I’m In” da The Band. Mais um motivo de dar um fim naquela “chuva de papel” e deixar a música invadir meu cérebro.
Enquanto viajava no ônibus, gostaria de ser um daqueles gangsters, que apagavam pessoas que incomodam a você e a sua família. Não gostaria de ser como esses babacas que ficam no ônibus e metrôs se preocupando com contas e pedindo empréstimos bancários para alinhar um lado e desalinhar outro. Esses idiotas que estudam e depois passam boa parte do tempo procurando emprego. A vida seria mais fácil. Mas quem disse que para mim essa vida seria suficientemente fácil?
James Joyce dizia que você tem que tomar conta e não deixar o sistema te consumir. Quando, no fundo, somos todos consumistas. Não se tratando apenas de capitalismo, mas também de sentimentos, de problemas e autodestruição. “Todos tem uma chance contando que valha a pena”. Grande James Joyce. Pena que nunca teve que procurar emprego.
Chegando ao Centro da Cidade, observei o acúmulo de pessoas que apresentavam mesmos problemas que os meus e os do Rafael. As pessoas andavam como zumbis, tele-guiados por um só problema. As ruas pareciam uma igreja, onde seus fiéis se concentravam no mesmo pensamento, nas mesmas circunstancias. Se Mao-Tse Tung estivesse ali, me diria: “Não disse? A religião é o veneno do povo”. Iria concordar com o carequinha matador chinês nesta hora.
Uma fila enorme fez do pobre Rafael desistir e seguirmos outros caminhos. De prédio em prédio, de fila em fila, depositamos todos nossos esforços em cada torres gêmeas daquelas. A quantidade de papéis era capaz de fazer, no mínimo, um livro de contos do Veríssimo. No Brasil, a quantidade de inúmeros picaretas e sonhadores são tão acumulativos que faríamos uma Baía dos Porcos sem hesitar.
Meus sapatos e meu ânimo já não eram mais suficientes para suportar aquilo. Passei a bola para o Rafael, que fez o desfecho daquela jornada insólita. Acendemos o último cigarro, bebemos o último café e nos despedimos desejando sorte para cada um. Dei minha última cartada à frente e fui ao banco. Parei no balcão do banco, semelhante a uma daquelas mesas de restaurantes PF, para fazer conta com mais dois colegas de banco. É exatamente isso. Almoçamos preocupações. Digerimos números. E escovamos os dentes de mentiras.
Tomei o ônibus como muitos iguais a mim. Éramos como grupos refugiados. Iguais aquele criminosos cubanos. Saindo da Baía dos Porcos, rejeitados, melancólicos, asfixiados e claustrofóbicos. O suficiente para dar golpe de estado.
Abraço.

1 Comment:

Alessandra said...

o que foi isso, a procura do emprego ou a espera da morte??????
adivinha só, sou eu mais uma na fila dos procurando trabalho! Cansei de procurar emprego. agora quero trabalho.
Aqui a mesma garoa fina de sampa. dias cinzas e quentes. Parece que estamos sendo cozinhados em banho-maria.