segunda-feira, 24 de março de 2008

Minha biografia



As luzes se acendem. O público levanta e acompanha um brutamontes dando socos no ar e pulando como se estivesse brincando de amarelinha. Esquivando-se de ectoplasmas e se defendendo de nada, ele se protege dos maus olhos e dos poderes malignos. Ele vai chegando cada vez mais perto do público, excitadíssimo, que o aplaude de pé. Atravessando o corredor, ele é saudado de maneira feliz pelos grandes chefões que querem que caia quando foi programado. Ele cerra os olhos para eles e vira o rosto. Não dá importância. Abre as cordas, sobe no ringue e encara seu oponente, que bufa como um touro. Tira seu traje e entrega aos seus fiéis. Perturba-se com o falatório, muitas palavras tiram sua concentração. Não dá a mínima para o que as pessoas que gosta, falam. A única coisa que ele deseja é vencer. Um microfone desce até o ‘palco’ como se fosse um milagre ou chuva. Os anunciadores declamam a briga iniciada, sem antes deixar de apresentar e o porque de estarem ali. Soa o gongo e ele chama a responsabilidade. Uma de esquerda e dois pêndulos. Duas de direita e um pêndulo. Era o suficiente para acertar a sua vida dali para frente. Passaram os rounds e ele permanece no seu palco, na sua arena. Tudo anda bem, como ele sempre desejou. Alguém chega perto do ringue e o avisa que está fazendo a pior coisa da sua vida. Desde então, ele para e pensa, como se fosse a primeira vez. Não há mais tempo. O gongo soa novamente e ele tem que voltar. O touro já está praticamente vencido. Uma fagulha faria o touro ser enterrado. Ele para. Deixa o touro se aproximar. E antes que ele o atinja, cai. Sem sentir dor. Sem sentir orgulho. Sem sentir nada. A contagem segue estando extremamente anestesiado. Quando chega ao dez, as pessoas o vaiam. Seus fiéis o olham como se não entendessem nada. Se levanta e sai do ringue. Copos e comidas são jogados em cima dele. Uma grande decepção. Seus inimigos o agradecem. “Como pude ajudar meus inimigos?”, pensou ele. Sentou-se no banco do vestiário e chorou. Decidiu-se nunca mais entrar naquele ringue.
Caminhou pelo deserto durante três anos. Lutava contra o vento gélido e a areia cortante em seus olhos. Seu cabelo esvoaçava e sua barba fazia aniversário. Aliás, não sabia quando fazia aniversário. Não sabia mais sua idade. Não sabia de sua mulher, seus filhos, seus irmãos, seu pais. Não se lembrava nem mais de seu nome. Quando viu um pequeno casebre, agradeceu a Deus. Sem hesitar, entrou. Não havia ninguém. Se serviu com água e dois pães, que, milagrasomente, estavam frescos. A casa tinha telhados reforçados, daqueles alaranjados. Uma mesa colonial, uma lareira inutilizada e um colchão velho. Deitou-se no colchão. Dormiu umas cinco horas. Ele não era muito de dormir. Levantou-se quando já era noite. Ele determinara 00:00. Era a hora em que ele costumava acordar. Levantou-se e foi até fora do casebre. Olhou para o céus e as estrelas estavam bem luminosas. Ele desenhava anjos com as estrelas, crendo que eram eles disfarçados. A lua estava mais viva do que de costume. Sentia como se ela estivesse olhando para ele. Era a hora certa de se confessar com Deus. “Porque me trouxe até aqui? Já não sofri o bastante? Quero viver como alguém normal”. Naquele momento, pegou no sono novamente. De repente ele acorda com sons de passos se aproximando. Ele procura por alguém. E há um velho sentado ao seu lado.

- Perdoe-me. É o dono deste lugar; Perguntou.
- Sou o dono do deserto.

Ele olhou para o velho. Não sentia muita boa energia ao seu lado. As rugas eram assustadoras e seu olhar mais ainda.

- Quando você vai embora?; Perguntou o velho.
- Posso ir agora, se o senhor quiser.
- Eu me referi à sua esposa e seus filhos? Seus pais estão te esperando.
- Esposa? Filhos? Não sei quem são meus pais.
- É. Você vai dar trabalho. Você me chama e, provavelmente, nem sabe quem eu sou.
- Eu não chamei o senhor. Eu nem sabia a existência dessa casa...
- Eu não vou discutir com você. Tenho mais o que fazer. Desista desta luta. A sua luta é outra.

Os olhos do velho brilhavam como a lua. Ele olhou para cima e não via mais a lua. “Será que ele é a lua?. Desceu para falar comigo?”.

- Deixa de ser retardado, disse o velho. Ela está do outro lado, continuou. O seu problema é achar que as coisas devem estar de acordo com tudo o que planejou. Não acredita em imprevistos?

O homem continua sem entender a conversa do homem. Ele acende um cigarro de palha e se levanta.

- Vou pegar água, você quer?

O homem balança a cabeça positivamente. Muitas coisas se passavam pela cabeça dele. De repente ele se lembrara de sua esposa. O jantar, as conversas, as piadas, o sexo. Lembrou-se de seu filho. As manhãs de sábado no zoológico. As tardes de domingo no estádio de futebol. Seus pais passaram por sua cabeça. Os almoços, as discussões que sempre acabavam em risadas e os abraços. Seus irmãos também estavam lá. Ele adormeceu. Sentiu como se estivesse dormindo por anos. Alguém o chama. Ele não quer acordar. A pessoa insiste e ele acorda. Ele está no vestiário. As luvas prendiam sua circulação. Ele se levanta.
Quando sai, as luzes se acendem, o público ovaciona, cerra os olhos para os inimigos, soa o gongo, pêndulos, socos e uma esquerda que o derruba. O juiz conta até dez e ele perde a luta. Se levanta, agradece o seu oponente e sai do ringue. Comidas e copos são jogados em cima dele. Seus inimigos cerram os olhos para ele.
Entra no vestiário e sorri. Olha para a imagem de cristo. Havia um pôster de Lênin, o grande revolucionário, e se lembrara do seu lema de vida. E agora havia entendido o porque.

1 Comment:

.-°Renata°-. said...

Confesso que li o texto duas vezes antes de comentar.
Passo sempre para ver se tem atualizações e já estava com saudade dos seus momentos "UP".

Bom te Ver de volta. Não deixe de blogar.
Um beijão