terça-feira, 27 de março de 2007

Todo mundo precisa de Supertramp



“Qual a mulher que vai querer ter um relacionamento com alguém que é fã do Supertramp?”, disse isso na semana passada para um amigo meu, o Mauro. Quando percebi o que disse, bateu como um tom nostálgico. Era o que nós costumávamos dizer as pessoas ao nosso redor que recrimiam-nos por sermos solteiros: “Quando casar vou colocar Listerning To The Music dos Dolby Brothers quando ela acordar, Woolly Bully pra almoçar com os pais e Africa do Toto pra pedir em casamento”. Rs. Penso nisso e começo a rir como nos divertíamos até quando estávamos na linha de sermos demitidos. Papéis higiênico grudavam nos tetos do banheiro para substituir um soco direcionado aos nossos superiores. E era motivo de mais risada. Desenhos em forma de Escrotinhos para contar histórias dos amigos, colegas e desafetos eram feitos e pendurados em murais dos corredores. Desenhos dos Los Três Amigos eram feitos de papéis de parede nos computadores para substituir o logo da empresa. Sponfull do Cream e Malagueña Salerosa saíam daquela sala minúscula e ecoava em todo o sétimo andar. Toda semana havia algo que inventávamos e repetíamos a semana toda. Não éramos fáceis. Para facilitarem as coisas, tiveram que trocar os plantonistas de Sábado para não ficarmos nos mesmos.
Chegamos novos na faculdade, eu tinha 20 anos e o Mauro 22. Tínhamos energia, ojeriza de certas responsabilidades e muitas idéias (muitas delas inúteis). Parávamos no corredor do sétimo andar, como se estivesse em algum pedaço do seu bairro, para ver as alunas novas e apostar em quanto tempo os alunos que caminhavam até o protocolo saíam irritados com o Sóstenes, um funcionário extremamente desligado. Quem perdia pagava a coca-cola das 20:30. Mas como o Mauro é uma das pessoas mais canguinhas do mundo (só perde para o seu irmão, o Pedro) na maior parte das vezes eram eu quem acabava pagando. Nossas linguagens eram repugnantes, para cada frase saíam três palavrões, mesmo que ela tivesse duas palavras. Os cardápio dos lanches mudavam de três em três meses: de 2001 pra cá, passamos, por biscoito de maizena com matte, pão com queijo com café-com-leite, biscoito da vaca com coca-cola e só mudávamos de acordo com a mudança da lua. Somos muito diferentes: eu sou mais comunicativo, o Mauro tímido, eu costumo ser mais carismático, o Mauro emburrado. Mas se percebessem bem, os dois eram exatamente os mesmos!
As tardes costumávamos andar pelo centro da cidade para nos abafarem dos problemas de casa, trabalho, faculdade e de paixões. Um reprimia o outro, porque ambos repetiam os mesmo erros. E tudo acabava em piada novamente. Houve, certa vez, um feriado que resolvemos nos se encontrar pra papear. As coisas andavam meio mal das pernas pra gente: não sabíamos o que fazer com nossas faculdades, mulheres que a gente gostava não correspondia, superiores loucos para nos demitir, aí resolvemos ir ao cinema assistir a Johnny English. Por sorte, desistimos, graças à Deus. Decidimos então parar num bar da orla de Copa, o lixão: Top Beer. Para a nossa sorte a Orquestra Sinfônica estava tocando em frente ao bar. Olhamos um para cara do outro e falamos: programão de índio! Desde então, depois deste passeio irrelevante, vimos o quanto nos divertimos e a tarde foi agradável. São nas simplicidades que vemos como a amizade é verdadeira.
Para quem nos via, éramos dois candidatos à velhos solteirões que vão morrer cercados de gatos. Respondíamos sarcasticamente dizendo que se tiver só uma cachorra estava tudo bem.
Depois de um bom tempo, Mauro saiu da universidade e eu fui transferido. Mas as coisas já não estavam da mesma forma. Começamos a tomar vergonha na cara e fizemos jus às nossas idades e responsabilidades. Mas continuamos a mesma bosta! E quanto a sermos solteiros, não se preocupe Mauro, alguém no mundo precisa de Supertramp.

1 Comment:

Memories said...

É ... Nostalgiaaaaaaaa.
Tenho inveja dos que tem vocação para ser solteiro. Dá muito menos trabalho hahahahaha.
Não podia escrever nada melhor do que isso para mostrar quem vc é e quem é o Mauro.
Abração
Tadeu